quinta-feira, setembro 02, 2010
Polícias brasileiras usam diariamente munição proibida em guerras
Polícias brasileiras usam diariamente munição proibida em guerras
Projéteis do tipo "ponta oca" foram banidos em conflitos internacionais por serem considerados altamente letais e desumanos
Bruna Fantti e Raphael Gomide – Portal IG
Foto: Divulgação/Site da CBC
Munições de ponta oca e de ponta ogival. Projéteis com interior oco foram banidos de guerras, mas são usados de forma rotineira pelas polícias do País
Policiais civis e militares brasileiros e agentes federais usam indiscriminadamente munições de ponta oca, cujo uso é proibido entre nações, pela Convenção de Haia de 1899. A norma regulamenta armas e munições que podem ser usadas por militares em conflitos armados, levando em conta o viés humanitário.
As munições de ponta oca, “hollow point”, são “projéteis de expansão”. O artefato expande o tecido atingido, fazendo um buraco ao atingir o corpo humano, causando maior impacto e neutralizando o alvo com maior eficiência. Também conhecida como “dum dum”, essa munição diminui muito a chance de ricochetear ou atravessar um alvo e atingir outra pessoa.
Pela liberação de maior energia cinética no impacto, porém, causa lesões mais sérias que a ogival, comum.
De acordo com o diretor do IML (Instituto Médico Legal) do Estado do Rio de Janeiro, Frank Perlini, “a característica de um ferimento de bala oca [internamente] é semelhante à forma de um cogumelo, pois a munição retém todo o poder de energia do projétil dentro do corpo e dobra o seu poder de destruição, sendo mais letal que a munição em forma de ogiva, totalmente fechada”.
Não há restrição legal para o uso da munição por forças policiais – a Convenção de Haia (1899) se aplica somente aos exércitos. Mas a sua aplicação é cercada de polêmica entre os defensores e críticos dos Direitos Humanos.
No exterior, a munição ponta oca é usada largamente pelas polícias dos Estados Unidos. Já na Inglaterra, foi utilizada somente uma vez, em 2005, para matar o brasileiro Jean Charles de Menezes, que fora confundido com um terrorista dentro de uma estação de metrô em Londres.
O uso no Brasil dessa munição não é proibida pela Lei Federal n° 10.826/2003 e pelo decreto presidencial n° 5.123/2004, responsáveis por regulamentar as armas e munições no País. Ainda segundo a legislação, o Exército é o responsável por autorizar as munições que são usadas na federação, e cada órgão policial solicita os artefatos de acordo com sua necessidade.
Segundo o Coronel Achiles Filho, assessor da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados da corporação, “não existe proibição para o uso da munição ponta oca, somente restrição a calibres maiores para as polícias”.
Ainda segundo o oficial, a bala de ponta oca não seria a mesma vetada pela primeira Convenção de Haia “por não possuir produtos tóxicos, o que é proibido na legislação brasileira”.
No entanto o texto original da Conferência afirma que “estão banidas [em guerras] as munições que se expandem no corpo humano, como as que possuem o seu interior oco". O documento não se refere aos pesos das munições ou à utilização de produtos tóxicos nelas.
A Polícia Federal informou que usa a munição de ponta oca como padrão desde 2006. Antes, alternava o seu uso com a munição ogival. O motivo da troca seria a característica da munição em forma de ogiva, que transfixa o corpo atingido, podendo acertar outras pessoas. A instituição conta atualmente com 12 mil agentes que utilizam a munição em armas pessoais.
Contactada pelo iG, a assessoria do Departamento de Polícia Rodoviária Federal (DPRF), não respondeu qual a arma utilizada diariamente pela instituição ou se usava munição "hollow point". No entanto há a autorização pelo exército do uso da pistola .40 para os agentes e, consequentemente, dos projéteis ponta oca.
As polícias militares e civis do País usam a pistola calibre .40 para o dia a dia. A munição ponta oca é utilizada por algumas polícias estaduais - o Exército afirma que independente do uso, todos os estados possuem esse artefato.
A Polícia Militar do Rio e a Brigada Militar do Rio Grande do Sul confirmaram a adoção dessa munição no seu uso diário. Já as forças de segurança da Bahia e do Paraná não a utilizam. Consultada desde a manhã dessa quarta-feira(1), a secretaria de Segurança de São Paulo não respondeu se as polícias no Estado empregam esse tipo de dum dum.
Para o professor de Relações Internacionais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Alexander Zhebit, “o uso de armas desumanas pelas forças de manutenção de ordem dentro de um país não é menos desumano do que seu uso contra o adversário em conflito armado”.
Coisas da vida
Coisas da vida
02/09/2010 - 01:41 Marcelo Migliaccio Jornal do Brasil
Bom, vou falar sobre uma coisa aqui do Rio.
Aconteceu o seguinte: o governo do estado, com o apoio do Lula, ocupou as favelas da "triste e linda Zona Sul", como diria Raul Seixas.
As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) baniram o tráfico armado. Mas o próprio Secretário de Segurança reconheceu que o objetivo não era acabar com o tráfico (que rola solto até no Vaticano). Era só acabar com a farra do fuzil AK-47 e da metranca Usi.
Ok, lindo. Não sou contra a UPP, melhor ela do que o entra e sai de polícia com tiroteios constantes. Melhor ela do que os tribunais de execução sumária dos traficantes.
Mas, na prática, deu-se o seguinte fenômeno: o tráfico formiguinha continua, só que agora o dono da boca não precisa mais gastar com armamento para se defender da polícia, e muito menos para se proteger de bandos invasores. Que quadrilha vai invadir um morro ocupado com UPP?
O dono da boca agora tem a segurança da...
Polícia Militar!
É isso mesmo, meu amigo e minha amiga, o governo terceirizou a segurança das bocas da Zona Sul.
Colonos judeus quebram moratória e retomam construção de colônias na Cisjordânia
Colonos judeus quebram moratória e retomam construção de colônias na Cisjordânia
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Horas antes do início da retomada das conversações de paz entre palestinos e israelenses em Washington, colonos judeus na Cisjordânia ocupada começaram novas construções, quebrando a moratória do próprio governo israelense --que congela as obras até 26 de setembro-- e aumentando os obstáculos ao sucesso do diálogo direto mediado pelos EUA.
O diretor da Yesha, entidade que agrupa os colonos, Naftali Bennett, disse que eles iriam começar a construir mais casas e infraestrutura pública em pelo menos 80 colônias erguidas nos territórios ocupados por Israel.
Os colonos ameaçaram ainda um golpe para depor o premiê Binyamin Netanyahu se ele não permitir oficialmente a retomada das obras após o fim da moratória no dia 26 de setembro.
A decisão de quebrar unilateralmente o acordo que previa o congelamento das novas obras foi tomada após a morte de quatro israelenses em Hebron, num ataque palestino, mas também tem a intenção de deixar claro que os colonos não devem aceitar as condições palestinas.
"A ideia é que a situação de fato [o congelamento] acabou", disse Bennet, criticando as conversações de paz patrocinadas pelos Estados Unidos, que qualificou como "embuste" e rejeitando a exigência dos palestinos de interrupção da expansão dos assentamentos em terras nas quais pretendem formar seu Estado.
"Quando eles [os palestinos] entenderem que os israelenses estão aqui para fiar e estão ficando cada vez mais fortes todos os dias, eles vão desistir", disse Bennett.
TENSÃO
A posição do líder dos colonos acrescenta mais tensão às negociações de paz que serão retomadas nesta quinta-feira nos EUA, e chegam um dia após o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, também ter dado indicações de que o congelamento das construções deve ser interrompido, contrariando a principal condição dos palestinos para o processo de paz.
O anúncio de Binyamin Netanyahu coloca um importante obstáculo ao sucesso da retomada das negociações mediadas pelo presidente americano Barack Obama.
O líder israelense e o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, retomam a partir desta quinta-feira as conversas diretas de paz, após 20 meses de paralisação.
A posição de Netanyahu contraria o tom positivo do ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak, que anteriormente havia declarado que o país estaria disposto a abrir mão de Jerusalém Oriental para os palestinos, apesar de seu assessor ter negado a informação logo após o anúncio.
JERUSALÉM
Jerusalém é uma das questões centrais do conflito palestino-israelense. Israel conquistou na guerra de 1967 a parte oriental de Jerusalém, que estava sob controle da Jordânia, e depois a anexou como sua capital, numa ação não reconhecida internacionalmente. Por sua vez, os palestinos querem Jerusalém Oriental como capital de seu futuro Estado nos territórios da Cisjordânia e faixa de Gaza.
"Jerusalém Ocidental e 12 bairros judaicos que abrigam 200 mil pessoas serão nossos. Os bairros árabes, nos quais vivem cerca de 250 mil palestinos, serão deles", disse Barak, que ajudou nos trabalhos de preparação para a retomada do diálogo direto de paz, após 20 meses de paralisação, sob mediação dos EUA.
Em entrevista ao jornal israelense "Haaretz", Barak explica ainda que "um regime especial" regeria a antiga cidade --a parte mais disputada de Jerusalém e que abriga pontos sagrados para judeus e muçulmanos, o Muro das Lamentações e a chamada Esplanada das Mesquitas.
O plano exposto pelo ministro é muito similar ao negociado em 2000 na cúpula de Camp David, quando Barak era chefe de Governo, e que fracassou por sua rejeição ao retorno de todos os refugiados palestinos desde 1948, quando o Estado de Israel foi criado.
Barak assegura ainda que as negociações diretas estarão baseadas no princípio de "dois Estados para duas nações".
Segundo ele, o objetivo do novo processo de paz é "colocar fim ao conflito e a possibilidade de qualquer reivindicação futura". Para tal, devem ser considerados todos os aspectos cruciais, como a segurança israelense, a delimitação das fronteiras do Estado palestino, uma solução para o problema dos refugiados e a questão da disputa por Jerusalém, para muitos o ponto nevrálgico do conflito na região.
ATAQUE
Barak falou ainda do ataque desta terça-feira, no qual quatro israelenses foram mortos a tiros perto de Hebron, na Cisjordânia, entre eles uma mulher grávida. A ação foi reivindicada por um braço militar do grupo islâmico Hamas, que controla a faixa de Gaza e é radicalmente contrário à negociação com Israel.
O atentado deve reforçar o clima de pessimismo que cerca o esforço americano de aproximar israelenses e palestinos numa nova rodada do processo de paz a partir de hoje, em Washington.
"É um incidente muito sério", disse o ministro, acrescentando que o ataque foi uma "tentativa de impedir o início da negociação". O ministro adverte, no entanto, que o ataque não pode atingir ou abalar o esforço nas negociações de paz.
Além disso, abala a sensação de segurança gerada nos últimos meses pela cooperação entre as forças de Israel e da ANP (Autoridade Nacional Palestina), que administra a Cisjordânia. Foi o pior atentado contra civis israelenses em mais de dois anos.
As vítimas, todas de uma mesma família, moravam no pequeno assentamento de Beit Hagai, ao sul da cidade de Hebron, um dos principais focos de tensão entre israelenses e palestinos.
Jornal da Globo entrevista Marina Silva - 01/09/10
Jornal da Globo entrevista Marina Silva - 01/09/10
Infraestrutura sanitária, a marca do atraso
Infraestrutura sanitária, a marca do atraso
Josef Barat - O Estado de S. Paulo - 01/09/10
Ampla matéria do Estado (Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto, 21/8, A25) abordou o retrato desolador da infraestrutura sanitária no Brasil, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE. Fica claro que a tão decantada 8.ª economia do mundo não consegue oferecer a grande parte de seus cidadãos a cobertura necessária de serviços de esgotamento sanitário, tratamento e disposição de resíduos sólidos, coleta seletiva de lixo, manejo de águas pluviais e drenagem urbana.
É inacreditável como, no atual ambiente de euforia com os rápidos sucessos econômicos, as condições sociais avancem de forma tão vergonhosamente lenta! Como é admissível que a exorbitante carga tributária cobrada do trabalhador brasileiro não reverta a seu favor na forma de abrangente infraestrutura sanitária?
As deficiências e carências do saneamento, como serviço público essencial, refletem o quadro dramático da distribuição de renda no País. Mas, ao contrário dos bens de consumo privado, não se podem estabelecer "ilhas de proteção" às classes mais privilegiadas, até porque a disponibilidade do serviço não garante necessariamente sua qualidade do ponto de vista da saúde pública. Assim, o "cordão sanitário" tem seus limites no ambiente urbano, em virtude da veiculação de doenças, da degradação ambiental e da possível contaminação e/ou exaustão dos recursos hídricos.
Após mais de duas décadas de indefinições no quadro institucional, a Lei n.º 11.445/07, que estabeleceu diretrizes para o saneamento básico, se tornou um importante instrumento para a tomada de consciência sobre a relevância da infraestrutura sanitária. Propiciou uma visão mais abrangente para efeito de políticas governamentais e possibilidades de parcerias público-privadas. Mais recentemente, a Lei n.º 12.305/10 instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que permite avanços significativos para tratamento e disposição, além de prever o fim dos lixões a céu aberto, estabelecendo regras para a gestão dos resíduos. Por meio de novas exigências e incentivos, é um importante passo para a destinação das mais de 150 toneladas de lixo produzidas diariamente nas cidades brasileiras.
Mas o arcabouço legal é condição necessária, não suficiente. Após décadas de descaso, seria fundamental que as ações no saneamento se agregassem a uma estratégia de estímulo a investimentos, para gerar empregos, ampliar mercados, reduzir desequilíbrios sociais e gerar aumento de produtividade. A legislação torna clara a necessidade de uma abordagem mais integrada dos diversos componentes da questão sanitária e ambiental. A questão agora é superar as limitações crônicas da administração pública, ou seja, valorizar o planejamento de longo prazo, formular políticas integradas e promover ações coordenadas do Executivo, no que diz respeito a: 1) provisão e tratamento de água e esgoto; 2) drenagem urbana e manejo de águas pluviais; 3) coleta e tratamento dos resíduos sólidos; 4) gestão integrada dos recursos hídricos; 5) saúde pública nos seus aspectos preventivos; 6) preservação do meio ambiente; e 7) contínua educação ambiental.
O setor de saneamento passa, sem dúvida, por transformações que visam a superar o modelo anterior, mas muitos problemas ainda esperam por soluções de grande envergadura: os desequilíbrios entre os atendimentos de água e esgotos; a superação dos déficits tanto de esgotamento sanitário quanto de coleta e tratamento de lixo (mais generalizados) e de abastecimento de água (mais regionalizados); e os índices elevados de perdas e desperdícios. Os volumes de recursos para investir na universalização da infraestrutura sanitária são vultosos, e a União não tem demonstrado capacidade de planejamento, formulação de políticas e gestão de sistemas complexos que envolvem os três níveis de governo. Daí a necessidade de encontrar mecanismos mais eficientes de gestão dos recursos públicos, além da segurança jurídica e da regulação, necessárias para atrair capitais privados.
Só instituições mais fortes impedirão a devassa geral
Só instituições mais fortes impedirão a devassa geral
José Nêumanne pINTO
O ESTADO DE S. PAULO
É difícil imaginar que possa haver algo ainda mais execrável, apesar de não necessariamente mais hediondo, do que o crime cometido pelo funcionário da Receita Federal que violou o sigilo que, pela Constituição, deveria proteger as declarações de Imposto de Renda de quatro tucanos de alta plumagem. No entanto, há algo que pode competir, não em delinquência, mas sim em desfaçatez: a forma como seus protagonistas têm tratado o assunto.
O primeiro lugar no pódio cabe à Receita. Depois de 60 dias de diligências (pelo visto, o termo definiria com mais precisão as carruagens que transportavam valores e passageiros no Oeste sem lei dos Estados Unidos na corrida do ouro na Califórnia do que o interesse em descobrir algo na investigação instaurada pelo órgão), o Fisco pareceu sempre mais empenhado em encobrir os mandantes do que em desvendar o crime. Em entrevista coletiva conjunta, o secretário Otacílio Cartaxo e o corregedor Antônio Carlos d"Ávila admitiram a existência de um grande "balcão de venda de sigilo" no ABC paulista. Mas não se dignaram a contar ao distinto público, do qual cobram impostos, o que descobriram nem o que farão para punir essa modalidade grave de banditismo que assola uma repartição que depende de fé pública para funcionar. Pior: nem mencionaram a hipótese no pedido de indiciamento das servidoras que acusaram. Ah, mas afirmaram que não veem motivação eleitoral no vazamento dos dados fiscais de cidadãos ligados ao candidato do PSDB à Presidência, José Serra! Ao invés de esclarecer o cidadão, fizeram de tudo para fazer valer a impunidade na corporação e poupar a candidata governista, Dilma Rousseff, e membros de seu quartel-general. Num estilo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou, ao atribuir, em Paris, a movimentação ilícita de dinheiro para comprar apoio ao governo no Parlamento a mero "caixa 2" de campanha, também ilegal, os dois dirigentes mandaram às favas, junto com os escrúpulos, a velha e boa lógica aristotélica.
Cui prodest? (a quem interessa?) - aprenderam da trágica grega Medeia os antigos romanos, dos quais Lula usa e abusa do in dubio pro reo (na dúvida, a favor do réu), mais conveniente para a "companheirada" que ele luta para proteger dos rigores da lei. Sendo cobradora de impostos, de quem, por dever de ofício, se exige lisura maior do que de quaisquer outros servidores públicos, a dupla dedica lerda tolerância a coleguinhas de carreira e de campanha eleitoral, oposta à ágil intolerância com que lida com o contribuinte, mesmo quando não lhe viola sigilo algum. Além de indiciar subalternos, deveria identificar a quem possa interessar a devassa dos dados fiscais de Eduardo Jorge Caldas Pereira, Ricardo Sérgio de Oliveira, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Gregório Marin Preciado, todos notórios adversários do governo. Pois atribuí-la às próprias vítimas, como fez Dilma Rousseff, é confessar que nada do que o PT os acusou foi comprovado após lhes terem devassado a contabilidade.
Este é um paradoxo interessante de lógica elementar: a Receita não garante o sigilo dos contribuintes, mas tudo faz para guardar em segredo a identidade dos mandantes da violação. Contrariando o sentido da expressão on real time, usada no universo da cibernética para garantir que em computador tudo se desvenda imediatamente, os servidores Cartaxo e d"Ávila levaram dois meses para pedir o indiciamento de quem teria cometido o crime, mas apostam no que não poderiam saber sem conhecer os mandantes e seus motivos. Sem terem identificado de quem partiu a ordem, dizem-se capazes de adivinhar por que o delito foi consumado. Diante disso, o que restaria ao PT senão exigir na Justiça indenização do candidato tucano à Presidência pela "injúria" por ele cometida ao atribuir a autoria, que a corporação não consegue definir, baseado na evidência, mais velha que a Sé de Braga, de que o meio mais rápido e eficaz de encontrar o autor de um delito é buscá-lo entre os que deste podem tirar proveito? E quem se beneficiaria com a quebra do sigilo das vítimas, a não ser seus adversários políticos? O patriarca de Veneza? O bei de Túnis?
Nem a atitude de José Serra no episódio pode ser considerada exemplar. Como pretendente a primeiro guardião da ordem institucional, et pour cause, do direito do cidadão à privacidade, o ex-governador paulista não fez bem em tentar tirar proveito eleitoral do crime. Afinal, tudo indica que o eleitorado que ele disputa com a petista de última hora Dilma Rousseff não tem o mínimo interesse pelo assunto. Melhor ele faria, a meu ver, se assumisse a postura de defensor desses direitos de uma forma até mais dura, mas genérica, não se colocando como vítima, mas como promotor.
A indiferença geral com que esse gravíssimo delito tem sido recebido pelas vítimas em potencial - quaisquer cidadãos que possam ter o Imposto de Renda devassado por um servidor da Receita que "socialize" sua senha - permitiu à candidata governista condenar a "baixaria". "Baixaria" de quem, cara-pálida? Do criminoso pago pelo erário para servir a interesses partidários nada republicanos, para vender as informações no balcão revelado, mas não denunciado, pelos maiorais do Fisco ou para detonar uma bomba de efeito eleitoral? Ou "baixaria" seria denunciar o delito?
Com o presidente mais dedicado a fazer da favorita sucessora do que a cumprir o dever jurado, e com o Congresso ajoelhado a seus pés para debicar as migalhas jogadas do alto de sua inusitada popularidade, pouco há a fazer para salvar o resto de honra republicana que ainda se pode resgatar. Ao permitir que a vítima violada rompesse a barreira de gelo do segredo que protegia os violadores, a Justiça deu a esperança de que as instituições poderão resistir a esse cínico descaso quanto aos direitos básicos da cidadania. Só o fortalecimento destas nos salvará de mais quebras impunes de sigilo.
JORNALISTA E ESCRITOR É EDITORIALISTA DO "JORNAL DA TARDE"
Jesus teve discípulas mulheres?
Jesus teve discípulas mulheres?
Ariel Álvarez Valdés. Doutor em Teologia Bíblica, Santiago del Estero, Argentina.
Que Jesus teve discípulos homens é algo que nenhum estudioso jamais negou. Sabemos que durante sua vida pública sempre esteve rodeado por um grupo de homens que o seguiam por toda parte. Mas será que haviam discípulas mulheres? Se fosse assim, teria sido um fenômeno surpreendente e escandaloso, já que entre os judeus do século I era mal visto que um mestre ensinasse a Bíblia para as mulheres e que, além disso, elas o acompanhassem.
Se lemos o primeiro evangelho escrito, o de Marcos, veremos que Jesus só aparece rodeado de homens, nunca de mulheres. Mas o final do evangelho nos depara uma surpresa. Quando Jesus está na cruz, depois de morrer, Marcos diz que “ali havia umas mulheres, olhando de longe: Maria Madalena, Maria, a mãe de Santiago o menor e de José, e Salomé. Elas seguiam Jesus e o serviam quando estava na Galileia. E também havia muitas outras, que o acompanharam a Jerusalém” (Mc 15, 40-41).
Quem são estas mulheres? Marcos dá o nome de algumas delas, as mais conhecidas em seu ambiente, e destaca três características.
A primeira é que “seguiam” Jesus. O verbo “seguir” é um verbo especial, que os evangelhos costumam reservar para os discípulos de Jesus. Por exemplo, quando Jesus chamou Pedro e André, que estavam pescando, eles deixaram as redes e “ seguiram-no ” (Mc 1, 18). Quando chamou Santiago e João, também deixaram seu pai e “ o seguiram ” (Mt 4, 22). Quando convidou Levi, somente lhe disse “siga-me” e ele “ seguiu-o” (Mc 2, 14). E chamou o homem rico, dizendo: “Siga-me” (Mc 10, 21)
Segundo Marcos, uma das condições que Jesus estabelecera a seus discípulos era que “o seguissem” (Mc 8, 34). Tratava-se de algo tão fundamental e a idéia estava tão arraigada nos Doze, que dizem que uma vez o apóstolo João encontrou pelo caminho um homem muito bom, crente, que até realizava milagres, mas não fora considerado discípulo porque “não seguia” Jesus (Mc 9, 38). E quando aqueles Doze discípulos quiseram que Jesus recordasse que eles eram verdadeiros seguidores, disseram-lhe: “Nós deixamos tudo e seguimos o senhor" (Mc 10, 28).
COM A ESCOLA ÁS COSTAS
Mas não era um seguimento simbólico, como quando dizemos “eu sigo tal autor” para dizer simplesmente que somos adeptos de suas idéias. Não. Jesus pedia o seguimento físico, literal, pelos lugares e povoados que ele percorria pregando e curando doentes. Essa era a principal diferença com os outros mestres e rabinos de sua época. Estes reuniam seus discípulos num lugar ou centro de estudo, onde eles aprendiam a Lei, e depois voltavam para suas casas. Além disso, o plano de estudos que lhes ofereciam durava uma quantidade fixa de anos. Em compensação, Jesus inventara algo inovador. Não os convocava para nenhuma escola nem lhes oferecia um curso fixo: convidava-os a experimentar em sua própria vida a Boa Nova que ele pregava. E para isso os levava a todas partes para que vissem como aparecia o Reino de Deus entre as pessoas.
Bem, se Marcos nos diz que aquelas mulheres que estavam ao pé da cruz “seguiam Jesus”, é porque faziam parte do grupo itinerante de seus discípulos.
NÃO É SÓ LAVAR OS PRATOS
O evangelista diz também que elas é que “serviam” Jesus quando estava na Galileia. Mas que tipo de serviço prestavam no grupo? Normalmente, pensa-se que faziam trabalhos “de mulheres”, isto é, cozinhar, servir a mesa, lavar os pratos, costurar a roupa. Um grupo itinerante, como o de Jesus, precisaria de alguém que se ocupasse destas atividades.
E bem podiam ter sido essas as tarefas delas. Mas vemos que muitas destas funções eram feitas pelos homens . Assim, os discípulos aparecem servindo a comida (Mc 6, 41), recolhendo as sobras (Jn 6, 12), comprando alimentos (Jn 4, 8). No evangelho de Marcos, a palavra “servir” não significa fazer tarefas domésticas, senão anunciar o Evangelho. Ao falar de sua missão neste mundo, Jesus disse que não veio “para ser servido, senão servir e dar sua vida” (Mc 10, 48). Ou seja, servir, na linguagem evangélica, significa dar a vida pelos irmãos, mas cumprindo uma missão evangelizadora. Essa, diz Jesus, é a missão de todo discípulo (Lc 12, 35-48; 17, 7-10). Inclusive a perfeição cristã é obtida com o serviço (Mt 25, 44).
Em outras palavras, se estas mulheres “serviam” Jesus é porque de alguma maneira pregavam o Evangelho, curavam doentes, expulsavam demônios e realizavam as mesmas funções dos demais discípulos, não porque cumprissem tarefas de cozinha e de limpeza.
Por último, Marcos diz que elas “ subiram a Jerusalém com Jesus”. Isto é, não eram mulheres locais, que ao inteirar-se de sua morte se reuniram espontaneamente para contemplar o macabro espetáculo, senão mulheres da Galileia que haviam viajado com Jesus e seus discípulos a Jerusalém para celebrar a Páscoa. Fizeram, pois, a longa viagem relatada em Mc 10, 1 - 11, 11.
OUTROS NOMES PARA A MESMA FUNÇÃO
Se Jesus teve durante sua vida pública, além dos Doze, um grupo de mulheres que o acompanhavam em suas viagens e em sua missão, por que Marcos não falou sobre elas em seu evangelho, mencionando-as somente no final? Talvez, porque sua presença no grupo de Jesus era um dado escandaloso para os leitores. Por isso preferiu não falar sobre elas. Mas o fato de que elas estivessem presentes durante sua morte, e inclusive durante sua ressurreição, era tão conhecido que Marcos já não pôde ficar calado.
Mas Marcos não é o único evangelista que as menciona. Elas são mencionadas em Mateus também, quando relata a morte de Jesus, acrescenta: “ Ali havia muitas mulheres, olhando de longe, aquelas que seguiram Jesus desde a Galileia para servi-lo. Entre elas estavam Maria Madalena, María a mãe de Santiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu” (Mt 27, 55-56).
Mateus, assim como Marcos, dá o nome de três delas. Somente muda o da terceira mulher. Enquanto Marcos cita Salomé, Mateus fala da mãe dos filhos de Zebedeu (isto é, a mãe de Santiago e João). Talvez, Mateus tenha feito isso porque não sabia quem era Salomé. Em compensação, sabía que a mãe dos Zebedeus esteve seguindo Jesus durante sua vida; de fato, ela é mencionada em uma cena (Mt 20, 20). De qualquer maneira, ele fala a mesma coisa que Marcos: seguiam o Senhor e o serviam.
EMBORA PREJUDICASSE SEU MARIDO
Lucas também menciona as mulheres discípulas no final da vida de Jesus (Lc 23, 49; 23, 55). Mas este autor nos depara uma surpresa, pois fez algo que nenhum outro evangelista fez: menciona-as como acompanhantes de Jesus “durante” sua vida pública.
Segundo Lucas, em certa ocasião, Jesus ia para a Galileia: “Percorria as cidades e povoados, proclamando e anunciando o Reino de Deus; acompanhavam-no os Doze discípulos e algumas mulheres que foram curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual sairam sete demônios; Joana, mulher de Cusa, um alto funcionário de Herodes; Susana, e muitas outras que o serviam com seus bens” (Lc 8, 1-3).
Observemos como o evangelista coloca tanto os Doze como as mulheres num mesmo nível, já que une os dois grupos com a conjunção “e”, que serve para igualá-los. Também nos diz que eram mulheres de boa posição econômica, já que ajudavam economicamente o movimento de Jesus com seu próprio dinheiro.
Mas sobretudo resulta interessante ver os nomes que aparecem na lista, especialmente o de uma tal Joana. Dizem que estava casada com Cusa. Ele era nada menos que um funcionário de Herodes Antipas, governador da Galileia, com quem Jesus se levava tão mal. A tensão entre ambos se devia a que Antipas mandara degolar João, o Batista, por considerá-lo seu inimigo.
Que terá dito Antipas, ao inteirar-se de que a esposa de um de seus homens mais importantes andava deambulando atrás de Jesus, um Mestre revolucionário radical e ex- discípulo de João, o Batista? Para piorar as coisas, em certa ocasião o próprio Jesus criticou publicamente Antipas, chamando-o de “raposa”, por seu temperamento pérfido e cobiçoso (Lc 13, 31-32). Tudo isto, deve ter feito perigar o posto de Cusa? Será que o governador ficou bravo e o expulsou do seu trabalho? Não sabemos. O que sim sabemos é que Joana, apesar de ter colocado em risco a carreira de seu marido, nunca abandonou o Mestre e o seguiu até o final (Lc 24, 10).
AS LIÇÕES FEMININAS
O fato de que os evangelhos mencionem nada menos que em cinco oportunidades um grupo de mulheres que seguiam Jesus é, sem dúvida, um indício de que estamos diante de um valioso depoimento histórico. Mas falta responder umas perguntas: estas mulheres também escutavam os ensinamentos privados de Jesus, ou não? Estavam, também nesse sentido, no mesmo nível que os discípulos homens?
A questão é importante porque na época de Jesus, os judeus não permitiam que as mulheres estudassem a Palavra de Deus. Pensava-se que elas estavam em condições intelectuais inferiores e que era perigoso ensinar-lhes algo tão sagrado pelos erros que podiam extrair das Escrituras. Sabemos, por exemplo, que os rabinos diziam: “É preferível queimar o Livro da Lei, antes que mostrá-lo para uma mulher”. Outro mestre judeu, Rabí Eliezer, no século I d.C. comentava: “Quem ensina a Lei para sua filha, ensina-lhe obscenidades”. Também diziam os rabinos: “Todos os males que existem no mundo entram, durante o tempo que os homens perdem falando com as mulheres”. Diante deste clima adverso à educação das mulheres, como é que Jesus agiu?
Os evangelhos não nos dizem nada. No entanto, quando elas vão a sua tumba, na manhã de Páscoa e a encontram vazia, São Lucas conta que apareceram dois anjos e lhes dizem: “Por que procuram entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou. Lembrem-se como lhes falou quando ainda estava na Galileia, dizendo: ‘É necessário que o Filho do Homem seja entregue nas mãos dos pecadores e seja crucificado, e no terceiro dia ressuscite’”. E Lucas continua: “Elas, então, recordaram suas palavras” (Lc 24, 5-8). Nesta passagem se repete duas vezes a palavra “recordar”. Ou seja que, segundo Lucas, as mulheres escutaram os ensinos privados que Jesus dera na Galileia sobre os últimos acontecimentos de sua vida e que nos evangelhos aparecem como transmitidas somente par aos homens (Lc 9, 18-27). Marcos (16, 6-7) também dá a entender que elas participaram desses ensinamentos.
UMA OUSADIA ESCANDALOSA
Durante sua vida, Jesus configurou um novo tipo de discipulado itinerante. Mas sua atitude mais inovadora e audaz foi a de ter admitido mulheres nesse grupo, que viajavam com ele, compartilhando essas instruções.
Em sua época, as mulheres não gozavam de tais liberdades. Não era bem visto que tivessem tratamento direto com homens que não fossem seus próprios familiares (Jn 4, 27). E, quando iam ao templo , com motivo de uma festa religiosa, não podiam ingressar no pátio onde estavam os homens, devendo permanecer num claustro exclusivo. Também quando iam rezar nas sinagogas, permaneciam separadas dos homens.
Afastadas dos problemas sociais, excluídas da vida pública, separadas dos debates religiosos, sem concorrência em questões políticas, eram as grandes perdedoras na sociedade judia dos tempos de Jesus. Sua função se reduzia ao cuidado da casa e dos filhos. Por isso não deixa de surpreender a ousadia do Mestre de Nazaré.
A ATITUDE DO CORAÇÃO
Se normalmente as pessoas criticavam Jesus, dizendo que era um comilão e um bêbado, amigo de pecadores (Mt 11, 19) e de prostitutas (Lc 7, 39); denominavam-no de louco (Mc 3, 20-21) e endemoninhado (Jn 8, 48). Mas vê-lo, além disso, acompanhado por um séquito de mulheres sem maridos, algumas das quais eram antigas endemoninhadas, que o sustentavam economicamente e que viajavam com ele pelas zonas rurais da Galileia, escutando e aprendendo seus ensinamentos, deve ter sido algo escandaloso e, sem dúvida, deve ter aumentado a desconfiança de sua pessoa. As pessoas certamente deveriam perguntar como era possível que um mestre afamado como ele admitisse pessoas que a tradição judia considerava não capacitadas para o estudo e para o serviço religioso. Mas a resposta de Jesus, ao aceitá-las em seu grupo, foi que toda pessoa é apta para o serviço de Deus.
Nas mãos de Jesus, no grupo de Jesus, na escola de Jesus, todos somos valiosos e importantes. Mais ainda, todos somos necessários. Daquelas mulheres, que a sociedade da época não considerava, Jesus soube extrair enormes riquezas e descobrir um potencial impressionante. Porque nosso valor como pessoas não depende da aceitação dos demais, nem de que os outros nos reconheçam ou aprovem. Depende do chamado de Jesus para cada um. Isso é o que torna alguém extraordinariamente importante. E ele ainda continua, chamando-nos a fazer coisas grandiosas. Todos. Basta escutá-lo e perguntar-lhe: aonde nos quer levar?
Ariel Álvarez Valdés. Doutor em Teologia Bíblica, Santiago del Estero, Argentina. Artigo publicado na revista Mensaje, www.mensaje.cl
Autor: Ariel Álvarez Valdés Fonte: Mirada Global
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