domingo, agosto 08, 2010

O QUE PRETENDEM AFIRMAR AS POLÍTICAS AFIRMATIVAS

O QUE PRETENDEM AFIRMAR AS POLÍTICAS AFIRMATIVAS
André de Almeida

A questão das cotas no ensino superior tem sido o centro das atenções de um conjunto de políticas, gestadas ou implementadas, voltadas à segmentação da sociedade brasileira em duas categorias: “brancos” (ou seja, não-negros) e “negros” (composta por pretos e todo o restante da diversidade cromática brasileira). Recorrendo a termos alternativos como raça, cor ou etnia, mas mantendo a essência de sua inspiração original – os EUA -, estas políticas são referenciadas como afirmativas.
Sendo assim, antes de nos perdermos em questões que, de fato, não se encontram em discussão - como a inexistência de raças entre os homens, o sistema de “mérito” para a ocupação de espaços sociais ou a repercussão acadêmica da entrada de grupos sociais previamente determinados - seria interessante que tentássemos refletir sobre as afirmações implícitas nas políticas com este recorte. Porque estas, como qualquer outra política, partem de determinadas representações da realidade e procuram atender a interesses específicos. Sem entende-las neste contexto, não poderemos avaliá-las em perspectiva histórica, nem tampouco procurar extrapolar o seu impacto no desenvolvimento da sociedade brasileira.
A primeira destas afirmações é que a sociedade brasileira é racista, ou seja, deliberadamente segrega a parcela da população de “raça negra”. Mesmo reconhecendo que este racismo nunca foi institucionalizado, como na matriz inspiradora, teria organizado de fato a estruturação da sociedade. E é precisamente este racismo que, mesmo velado, camuflado ou envergonhado, impossibilita a ascensão social da população negra. Esta afirmação busca a sua legitimação a partir da confrontação, direta, de dados estatísticos oficiais - renda, escolaridade, taxa de mortalidade, etc - entre “brancos” e “negros”. Trabalhados neste nível de agregação, as médias produzidas aparentam respaldar a afirmação.
Tomando, então, o racismo como um dado essencial da realidade e considerando o possível efeito na valorização social da população “negra” surge a segunda afirmação: a necessidade de construir uma identidade negra. Para tanto, os termos de conotação étnica adquirem especial importância, emergindo assim os “afro-descendentes” e “afro-brasileiros”. Para fortalecer o caráter étnico desta identidade, construída a partir da idéia de uma homogeneidade africana, recorrentemente são produzidos, para efeito de comparação, outros grupos “étnicos” brasileiros; é quando surge um Brasil multi-étnico, formado por italianos, japoneses, alemães, árabes, etc. A partir desta representação de uma sociedade fragmentada, os “negros”, conscientes do pertencimento ao seu grupo de iguais em confronto com os diversos outros, estariam preparados para enfrentar, de verdade, a luta contra o racismo.
A terceira, e última, dimensão desta construção simbólica aparece na vinculação causal entre identidade (africana), escravidão e racismo. Desta tríade é lançada uma culpa atávica sobre toda a população “branca” que estaria por exigir mecanismos para reparação e compensação. Na atual conjuntura, ponderado o nível de aceitação social, estes mecanismos convergem para a focalização de políticas públicas. Daí a afirmação de que é necessário reservar espaços sociais a serem ocupados apenas por “negros”.
Em poucas palavras estes são os principais argumentos que se articulam na formação do suporte ideológico para a reinvindicação de políticas afirmativas que, no momento, têm o seu impulso inicial com a implementação de cotas no ensino superior e a aprovação do estatuto da igualdade racial, mas que, a longo prazo, apontam para uma ação de estado baseada numa visão de sociedade fragmentada nestes termos.
Este conjunto de argumentos – que procurei expor como eles são defendidos – apresenta, entretanto, diversos problemas. O primeiro deles diz respeito ao tipo de agregação e à interpretação oferecida aos dados estatísticos usados como suporte científico. Ao não considerar tanto o caráter de classe da estrutura social brasileira como o da sua dinâmica determinada pelos movimentos do capitalismo, parte para uma simplificação ao tipificar grupos homogêneos de brancos e negros. Por exemplo: entre os brancos se encontra, seguramente, aquele percentual diminuto da sociedade brasileira que se apropria da fração expressiva da renda (e da riqueza) nacional; ao serem agregados ao restante da população branca - e pobre – deturpam qualquer média de indicadores sociais. Ao mesmo tempo, estes argumentos desconsideram deliberadamente toda agregação de dados que, partindo dos pobres como um segmento social representativo, aparentam mostrar não haver diferença estatística significativa no desempenho social.
Um segundo problema se encontra na questão da identidade negra. Qual seria esta identidade particular, para além da cor da pele? A origem africana, parece ser a resposta sugerida. Neste ponto, duas questões se colocam. A primeira diz respeito a qual África se está referindo, visto que tanto histórica, sociológica como culturalmente sempre existiram e existem muitas áfricas. A própria origem dos escravos que para cá vieram é bastante diversificada. A outra questão é que grande parte deste diversificado aporte cultural já está plenamente incorporado à cultura brasileira e, portanto, constitui uma marca de identidade para toda a população. Esta mesma constatação coloca em dúvida a própria afirmação de um racismo estrutural, uma vez que fica difícil imaginar mecanismos sociais, amplamente difundidos, que ao mesmo tempo segregam e incorporam os elementos culturais dos segregados.
Um outro aspecto deve, também, ser problematizado. É a idéia implícita na associação entre reparação e culpa por processos históricos. Na realidade a referência à História, nestes casos, é meramente instrumental, visto que este tipo de concepção é fundamentalmente a-histórica. Um processo histórico é sempre o resultado de múltiplas determinações. E assim foi também a escravidão. Diversos agentes - indivíduos, populações, nações e Estados – e variados interesses conduziram à sua operação. A historiografia recente tem apresentado inúmeras evidências da participação de indivíduos (alforriados) e populações negras (outras etnias ou grupos) neste processo. Para o bem ou para o mal, a História não se presta ao modelo hollywoodiano de pensar o mundo como a luta de mocinhos contra bandidos. Se há culpa e reparações necessárias, devemos encontra-las no presente. Nesta sociedade profundamente desigual e excludente onde, ao sabor da onda neoliberal, contingentes cada vez maiores da população (de todas as cores!) são arrastados para a indigência social.
Por último deveríamos refletir sobre o resultado alcançado por este tipo de política na sociedade que lhe deu origem: a sociedade estadunidense. Lá, ao mesmo tempo em que foi se constituindo uma classe média de “afro-americanos” – tão conservadora como o conjunto da classe média – a maioria da população negra foi conduzida às prisões, aos guetos e a um padrão social bem inferior às médias nacionais. O racismo, para além dos numerosos grupos organizados, continua a existir e a determinar grande parcela das interações sociais. Como se pode observar, as políticas afirmativas não operam no sentido de reverter as injustiças sociais. Pelo contrário, como toda política social que focaliza ações ao invés de universalizá-las, se enquadra perfeitamente na ordem de interesses do capital. Não por outra razão encontramos as suas Fundações (Ford, Rockfeller, etc.) entre os principais financiadores dos movimentos que reivindicam a sua implementação.
Mas não deixa de ser intrigante constatar como, em nome da justiça social, se opta por adotar este modelo, quando em um outro país - de colonização primário-exportadora, abolição tardia, e origem latina como o nosso – as políticas de universalização de direitos sociais levaram a uma efetiva ampliação da igualdade social. Existe racismo em Cuba, mas é uma percepção de foro individual que não interfere na estruturação e na dinâmica de sua sociedade. Que razões, então, existiriam para a realização social alcançada por Cuba tornar-se invisível a este debate? Talvez a resposta se encontre junto ao porquê destas políticas terem ganho impulso no Brasil na seqüência dos governos FHC e Lula, quando desenvolveu-se claramente os contornos neoliberais para as políticas públicas.
Para concluir é forçoso reconhecer que existe racismo no Brasil, como, também, preconceito contra judeus, homossexuais, nordestinos e, principalmente, contra pobres. Mas há de se reconhecer ainda que, por mais que se olhe para o mundo, não se encontra experiência mais avançada do que a nossa forma de socializar a diferença, seja racial, étnica, de cor ou que outro qualificativo se encontre. Esta incrível mestiçagem brasileira já é, por si só, uma confirmação. O racismo envergonhado, de que somos acusados de possuir, nada mais é do que o resultado do constrangimento social construído, silenciosamente, contra o racismo. Não devemos, então, procurar modelos. Nós somos o modelo a ser seguido; é a partir do patamar que alcançamos que devemos aprofundar e avançar. No entanto, nós temos que admitir que não somos uma democracia racial. O problema central, todavia, não se encontra no adjetivo; é para o substantivo, democracia, que devemos voltar nossa reflexão. Nenhuma sociedade tão desigual, na distribuição da renda e da riqueza, pode se acreditar democrática. Não pode existir democracia em convívio com tamanha injustiça social, com a cotidiana criminalização da pobreza. Este é o problema a ser enfrentado, mas, certamente, não será fragmentando “racialmente” a sociedade que o faremos. Ao contrário, efetivada esta fragmentação, estaremos legando um problema adicional para o futuro. E é a necessidade desta clivagem social, que as políticas com este corte tentam afirmar, que nós precisamos, urgentemente, negar.

André de Almeida  Prof. Associado - DEQ – IT – UFRRJ  Fonte: http://noracebr.blogspot.com/

Bessinha

Ética - Reflexão




O nascimento da ética do político

 nascimento da ética do político

Renato Janine Ribeiro - O ESTADO DE S. PAULO

Há cerca de 5 séculos, O Príncipe marca o imaginário social

 

Em milênios de filosofia, só dois filósofos quebraram as fronteiras da academia para que seus nomes gerassem adjetivos conhecidos de todos, até de quem não sabe quem eles foram: Platão e Maquiavel. Todos ouvimos falar em amor platônico ou em pessoas maquiavélicas. Não interessa que os especialistas se irritem porque Maquiavel não foi maquiavélico; o fato é que ele, como Platão, deixou uma marca no imaginário social.

O Príncipe, que em breve completará 500 anos, tem características notáveis. Primeira: é livro facílimo de ler. Segunda: apesar disso, não há acordo sobre o que quer dizer. Lemos com facilidade e não temos certeza do que ele pretende. Talvez porque, terceira característica, parece contradizer o resto da vida e obra do autor. Maquiavel foi um dos chefes da República de Florença, passou anos escrevendo uma grande obra republicana - os Discursos - mas somente se tornou um dos maiores pensadores da história devido a um livro curto que redigiu em poucas semanas, banido da cidade, com o fim de agradar aos novos senhores de uma Florença monárquica. Por isso nos perguntamos o que é O Príncipe: é um livro de apologia à monarquia ou uma sátira cáustica? Sustenta que os fins justificam os meios ou mostra a essência da política? Contradiz o político e pensador republicano ou nutre, com ele, uma secreta harmonia?

Vamos às questões principais do Príncipe. Concentro-me em duas. A primeira é a convicção de Maquiavel, segundo a qual metade - por assim dizer - do que nos sucede depende da fortuna. "Fortuna" inclui aqui o infortúnio - a sorte, o acaso, em suma, o que não está em nossas mãos. O máximo que conseguiremos, com muito empenho, será controlar a outra metade. Para isso, teremos de mostrar valor, que ele chama virtù. Usamos a palavra italiana, que significa "virtude", justamente porque é o contrário do que costumamos chamar de virtude. Sua virtù nada tem de moral. Aqui começa o problema. Enquanto estávamos só na estatística, no fifty-fifty fortuna vs. ação planejada e deliberada, tudo bem. Mas quando Maquiavel diz que, para reduzir o quinhão da fortuna, o homem tem de ser um autêntico "vir" (a palavra latina para varão, macho), ele conclui que não poderá seguir a moral cristã.

Passemos à segunda questão. Muitos, diz o autor, trataram de Estados ideais e reis justos, mas tais entes não existem ou não subsistem. Para tratar de "coisas que prestem", falará dos Estados reais e de como funcionam. Seu capítulo 15 é citado como a certidão de nascimento da ciência política: em vez de discutir como as coisas deveriam ser, pensar como realmente são. Não é fortuito que seja Fernando Henrique Cardoso - cientista político, que por coincidência já foi chamado de príncipe da nossa sociologia - quem redija o prefácio, ao qual se segue uma introdução de Antony Grafton, que tem por única falha, a meu ver, ignorar a ótima bibliografia que não foi escrita em inglês: Max Weber, Merleau-Ponty, Claude Lefort e, dos brasileiros, Newton Bignotto. De toda forma, essa tradução fluente há de concorrer com a edição, muito bem cuidada, que temos do Príncipe pela editora Martins Fontes.

Para o leitor, não haveria problema em Maquiavel afirmar que muito de nossa vida escapa a nosso controle, nem que pretenda fazer ciência e não moral. O começo de cada uma de suas duas teses é tranquilo. O que choca são as consequências. Primeira: como controlar o máximo possível de nossa vida política? Será que "os fins justificam os meios"? Consultei o Google: só em português, essa expressão aparece 16.500 vezes junto a seu nome. O curioso é que Maquiavel nunca disse isso.

Daí a segunda consequência: ele teria aconselhado os príncipes a mentir, fazer o mal, faltar à palavra, sistematicamente. Contudo, diz ele, o príncipe deve fazer o bem sempre que possível, e usar do mal só quando necessário. O que dá a Maquiavel a fama de amoral é essa dupla ressalva: não fazer o bem sempre, mas quando possível. Sua análise do poder, que é uma festa para a ciência, é uma preocupação para a moral - a tal ponto que em inglês um dos nomes do diabo, Old Nick, derivaria de seu prenome Nicolau.

Como controlar nosso destino, como reduzir o quinhão da fortuna? Não há questão mais atual. No penúltimo e vital capítulo do livro, o autor explica. Há dois tipos de homem, o cauteloso e o impetuoso. Certas épocas requerem cautela (rispetto), outras, impetuosidade. O ideal seria o homem adaptar-se à conjuntura. Este seria o homem prudente: na época se dizia que "o homem sábio (vir sapiens) dominará os astros", isto é, a fortuna. Isso se lê na medalha de Afonso V de Aragão. O "vir sapiens" é o homem prudente com virtù. Maquiavel exorta o príncipe: deve ser plástico, mutável, bom quando possível, mau se necessário, mas, sobretudo, cauteloso ou açodado conforme a ocasião. Se Cesar Borgia perdeu, foi porque não soube mudar quando os tempos assim o exigiram. O problema é que essa plasticidade do príncipe é quase impossível. Daí, um horizonte trágico: por mais que tentemos governar as circunstâncias, podemos perder.

Maquiavel está na origem da "ética do político", diferente da ética do cidadão privado, que FHC citava tanto na presidência da República e que foi teorizada por Weber. Mas o notável no pensador florentino é que, sabe ele, essa ética não é a dos resultados, a do sucesso. Pode resultar em fracasso - como no caso de Cesar Borgia. Nem por isso a política é menos nobre. Ser político não é só vencer. É saber fazê-lo com virtù - capacidade, ação deliberada e, também, uma certa honra. Talvez O Príncipe seja o mais belo elogio da política.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da USP

Evasão também é alta nas universidades públicas

Evasão também é alta nas universidades públicas
Levantamento aponta índice de 14% entre as universidades públicas; motivo inclui falta de informação sobre curso e dificuldade em acompanhar as aulas


 A pesquisa realizada pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) indicou uma evasão recorde de alunos nas instituições de ensino superior privadas em 2008. Realizado com base no Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o levantamento apontou um índice de 20,7% de evasão nas instituções privadas brasileiras; de 21,10% no Estado de São Paulo e de 24,21%, se for considerada apenas a região metropolitana de São Paulo. Todos os dados se referem às instituições privadas no ano de 2008.
Nas instituições de ensino superior privadas da Região Metropolitana de São Paulo, que é considerada como reveladora de tendência nacional, a elevação foi recorde desde o ano 2000, quando a pesquisa passou a ser realizada, passando de 15,17% para 24,21%  de evasão.
Para o presidente do Semesp, Hermes Figueiredo, o crescimento da oferta de vagas, a queda dos valores das mensalidades e a inclusão das classes C e D na educação superior explicam o cenário de 2008.
"À medida que cresce a oferta de vagas do setor privado, a mensalidade média cai também para a inclusão das classes C e D com menor poder aquisitivo. Mesmo com os programas de financiamento estudantil, a falta de uma política para manter esse aluno de baixa renda na universidade, além da dificuldade de acompanhamento que esse jovem encontra, provocada pela deficiência no ensino básico, são alguns dos fatores que contribuem para o crescimento da evasão", analisa.
A pesquisa também apontou, na capital, o crescimento do número de ingressantes (3,3%) e de concluintes (10%). Os três cursos mais procurados em números de matrículas na Região Administrativa de São Paulo - composta por 39 cidades - foram administração (112.742), direito (57.815) e pedagogia (41.579).
Ainda entre as instituições particulares de ensino superior, o levantamento também detectou a participação de trancados, desligados e tranferidos na evasão. Em 2008, 11,6% dos alunos se desligaram da instituição, 8% trancaram a matrícula, e 1% foram transferidos (veja tabela acima). Do total de 20,7% de evasão nas instituções privadas, 11,1% acontece no primeiro semestre do ano e 9,6% ocorre no segundo semestre.
Entre os Estados que apresentaram maior evasão nas instituições particulares estão Tocantins (26,9%), Alagoas (26,7%), Ceará (26,3%) e Sergipe (25,9%).Cruzados, os dados traçam o perfil das estratégias possíveis de serem desenvolvidas pelas instituições, e que  comprovam a necessidade de dar mais atenção aos alunos no começo dos cursos e de forma diferenciada em cada semestre do ano.
Mas o problema não está apenas no âmbito das instituições particulares, já que nas universidades públicas esse índice alcançou 14,4% de evasão em 2008, um número ainda mais assustador quando o fator financeiro não é um agravante. A evasão total, incluindo públicas e privadas, foi de 19,1%.
"Nas universidades públicas, os fatores predominantes são a falta de informação sobre os cursos e a dificuldade de acompanhar as aulas por ter realizado um ensino médio de fraca qualidade. Isso é mais sentido principalmente nos cursos que exigem mais cálculos, estatísticas e melhor conhecimento nas matérias exatas", explica Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp.
Rodrigo cita ainda a incompatibilidade de conciliar horários entre aulas e trabalho e a decepção com o curso oferecido como causas para a evasão, já que ele acaba ficando muito distante daquilo que o aluno imaginava fazer antes de entrar na universidade pública.
Enquanto nas instituições particulares o aluno que abandona o curso no primeiro ano provoca, em média, uma perda de receita futura de R$ 13 mil a R$ 16 mil, na Universidade de São Paulo (USP), quase 40% da evasão se dá no primeiro ano e atinge muito mais os cursos de exatas e humanas, por exemplo, dos que os da área de biológicas.
Pesquisa realizada há quatro anos pela própria USP mostrou que o custo para formar 100 alunos em quatro anos de curso era exatamente o mesmo se apenas a metade, 50 deles, chegasse ao final do mesmo curso.
Roberto Leal Lobo, do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia, acredita que esse é um problema crônico. "A evasão no ensino superior não é um problema só do Brasil, mas internacional. As perdas de alunos que iniciam e não terminam seus cursos são desperdícios sociais, acadêmicos e econômicos. Constituem-se em uma fonte de ociosidade de professores, funcionários, equipamentos e espaço físico", reflete. 
Na avaliação de Lobo, as perdas são para os dois lados. "No setor público, o alto índice de evasão significa uma grande quantidade de recursos públicos investidos sem o devido retorno, enquanto no setor privado ela se transforma em uma importante e perigosa perda de receita". (R.C.B)

Definindo a largada

Definindo a largada
Merval Pereira

Esta será uma semana decisiva para os candidatos à Presidência da República, de definição de posições para a largada da fase final de propaganda eleitoral pelo rádio e televisão, que é a que decide realmente a corrida. O candidato tucano José Serra terá a última chance para começar a campanha pela televisão empatado ou à frente da candidata oficial Dilma Rousseff, como planejado inicialmente.
Com a repercussão do primeiro debate, e as entrevistas dos três principais contendores na bancada do Jornal Nacional a começar de amanhã, a pesquisa do Ibope da próxima sexta-feira definirá a posição de largada dos contendores.
O fato de que os dois ficaram nos mesmos patamares da semana anterior nesta segunda pesquisa semanal divulgada sexta-feira indica uma estabilidade que é boa para Serra, embora ele continue atrás cinco pontos.
A sinalização de que a tendência no momento é a candidata petista ser considerada a favorita da disputa é o fato de que se esperava que ampliasse a diferença.
Ou até mesmo que se confirmassem os números de pesquisas do Vox Populi, dando Dilma oito pontos à frente, ou do Sensus, que mostrou a candidata petista com dez pontos de vantagem.
Eram expectativas de quem esperava que o crescimento de Dilma fosse irreversível.
Não ter acontecido isso já pode ser contabilizado como um ponto positivo para Serra, que tem a seu favor a percepção generalizada de que foi melhor no debate da Bandeirantes, embora não tão melhor que neutralizasse o favoritismo de Dilma.
Ganhou por pontos, já escrevi aqui. Mas, numa disputa acirrada como a que está se desenhando, com outros quatro debates anunciados — RedeTV, SBT, Record e TV Globo — e as entrevistas nos telejornais da Globo, especialmente o Nacional, Serra espera difundir a imagem de mais preparado para o cargo e reduzir a diferença até superá-la, acumulando pontos nos embates diretos sem par tir para um confronto agressivo que pode assustar.
O mesmo raciocínio pode ser feito para a estreia de Dilma Rousseff na arena de debates.
Não se confirmando a hipótese de um desastre completo que exibisse em cadeia nacional, mesmo de baixa audiência, sua incapacidade de dirigir o país, apregoada pelos adversários, ela pode se considerar vitoriosa.
E com todo o treinamento que vem recebendo, deve continuar evoluindo, acostumando-se com o estresse do debate político.
Esse estresse, aliás, deve ter sido grande para ela, que foi a primeira a deixar o auditório da Bandeirantes logo depois do debate, alegando cansaço.
Os demais candidatos permaneceram no palco, dando entrevistas, sendo gostosamente assediados por todo tipo de pessoas, desde os cômicos do CQC até jornalistas de verdade mesmo.
A alegria exibida por Dilma no dia seguinte ao debate dá a dimensão do peso que ela tirou dos ombros.
O problema é que Dilma é daquelas que vão sendo treinadas “on job”, e no decorrer da campanha ela tem que se arriscar cada vez mais, se expor ao eleitorado, sujeita a escorregões que podem ser fatais.
Numa empresa, geralmente os que recebem esse tipo de treinamento não trabalham nos setores sensíveis, onde um erro pode ser fatal.
Dilma está tentando aprender as artes da política em plena campanha para o cargo mais importante do país, e tem uma dose maior de risco nessa tarefa.
Não tem se saído tão mal quanto torcia a oposição, mas certamente demonstra a cada dia que ainda não estava madura para disputar o cargo.
Falta-lhe o jogo de cintura que uma vida parlamentar, ou mesmo o exercício da política sindical, dá aos que nelas atuam.
Mas sobra-lhe o apoio do presidente Lula, com sua popularida de intocada pesquisa após pesquisa, e uma conjuntura econômica favorável.
O PSDB vive hoje o drama do PT em 1994 com o Plano Real, e Lula parece ser o Plano Real do PT.
Nesse sentido, se se confirmar que a capacidade de transferência de votos de Lula ainda não se esgotou, a escolha de Dilma como candidata não terá influência na decisão do eleitorado.
Assim como se dizia no tempo do Plano Real que o candidato poderia ser qualquer ministro do governo Itamar, e não necessariamente o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, também agora o que importaria é a figura de Lula, e não o personagem que disputa a eleição em seu nome.
Na época do Plano Real, o presidente Itamar Franco chegou a escolher o então ministro da Previdência Social Antonio Britto, do PMDB, para ser o candidato oficial, mas Britto acabou não querendo disputar.
A questão é tão delicada que Serra tenta se equilibrar entre ser contra o governo, mas não contra Lula, ser contra Dilma, mas não contra seu criador.
Se, no entanto, a campanha tucana conseguir descolar Dilma de seu ambiente artificial sustentado exclusivamente pela energia lulista, e deixá-la exposta ao eleitorado com seus erros e seus acertos, sem se colocar como o antiLula, Serra poderá ser beneficiado.
Ao contrário do que escrevi na sexta-feira, pesquisas de opinião mostram que os senadores José Agripino Maia, do DEM, e Garibaldi Alves, do PMDB, são os favoritos para ocupar as duas vagas em disputa para o Senado, ficando a ex-governadora Wilma Faria, do PT, como a terceira opção.

Sophie Milman - Beautiful Love

Os gastos ocultos do Planalto

Os gastos ocultos do Planalto
Mais de 98% das despesas com cartão corporativo para atender Lula e família não são detalhadas
Regina Alvarez BRASÍLIA

No ano eleitoral, a Presidência da República reforçou a caixa preta que mantém em sigilo os gastos do gabinete presidencial com cartão corporativo.
A regra de contabilização desses gastos foi alterada, e apenas 1,8% das despesas realizadas para atender às demandas do presidente Lula, de sua família e assessores próximos está detalhado no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), com nome e CPF do funcionário que a executou, e a forma de pagamento: saque em dinheiro ou fatura. De um total de R$ 3,259 milhões gastos este ano pelo gabinete até julho, apenas R$ 5,7 mil estão detalhados.
Sobre os outros R$ 3,254 milhões (98,2% do total), o registro no Siafi se limita à forma de pagamento (saque ou fatura), sem informar qualquer outro dado do gasto. No Portal da Transparência do governo, aparece a justificativa: “informações protegidas por sigilo, nos termos da legislação, para garantia da segurança da sociedade e do Estado”.
A lei, de fato, permite que gastos relativos à segurança do presidente da República e de sua família sejam mantidos sob sigilo, mas o fato é que, com a mudança na forma de contabilização dessas despesas em 2010, o percentual de gastos considerados sigilosos aumentou substancialmente em relação aos anos anteriores.
De janeiro a julho de 2009, os gastos do gabinete presidencial com cartão corporativo chegaram a R$ 4,684 milhões, mas R$ 2,042 milhões (43,6%) estão detalhados no Siafi com o autor da despesa e a forma de pagamento.
No mesmo período de 2007 e de 2008, praticamente todos os gastos do gabinete de Lula foram registrados no Siafi com as informações do funcionário que executou a despesa, chamado de ecônomo, e a indicação de como foi usado o cartão corporativo para o pagamento das despesas.

Diretor de ONG: sigilo injustificável
De janeiro a julho de 2008, o gabinete presidencial realizou gastos no valor de R$ 2,225 milhões e apenas R$ 18,4 mil (0,8% do total) não estão com esse nível de detalhamento.
No mesmo período de 2007, foram realizadas despesas no valor de R$ 2,5 milhões, 100% detalhadas no Siafi.
Com a mudança nas regras de contabilização, em 2010 sumiram do Siafi e do Portal da Transparência informações sobre despesas realizadas por ecônomos que ficaram conhecidos no passado recente por terem efetuado saques de grandes quantias em dinheiro para pagar despesas do presidente Lula e da primeira-dama, Marisa Letícia.
Em 2008, quando descobriu-se que ministros do governo Lula usavam o cartão corporativo para pagar despesas pessoais — escândalo que resultou na queda da então ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas da Igualdade Racial — também ganharam evidência alguns ecônomos responsáveis pelas despesas do casal presidencial.
É o caso de Maria Emília Matheus Evora, que atendia à primeira-dama; e Clever Pereira Fialho, responsável pelas despesas do presidente Lula, especialmente em viagens.
No ano passado, Maria Emília continuava recordista entre os ecônomos lotados no gabinete presidencial, com despesas de R$ 866 mil de janeiro a julho. Fialho aparecia em segundo lugar, com despesas de R$ 332 mil até julho.
Na opinião do diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, é injustificável catalogar todas as despesas do gabinete presidencial como sigilosas.
Ele não vê motivo para considerar secretas, por exemplo, despesas com alimentação: — Para que a despesa seja secreta é preciso justificativa fortíssima.
Os critérios para definir quais despesas podem afetar a segurança do presidente e de sua família são muito vagos, na visão de Abramo, abrindo espaço para ocultação de gastos de outra natureza.
Uma portaria do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, de 2008, define o que seriam gastos do gabinete que precisam ser mantidos em sigilo: são os relativos “à segurança das autoridades presidenciais e respectivos familiares, dos titulares dos órgãos essenciais da Presidência e, quando determinado pelo presidente da República, de outras autoridades ou personalidades”.
A portaria inclui nessa lista despesas relativas “à manutenção das instalações, bens e serviços das residências oficiais do presidente e do vice-presidente da República, bem como dos escritórios regionais em apoio aos respectivos familiares, sempre que possa afetar a segurança e segurança de saúde e alimentar das autoridades presidenciais”.
Em fevereiro de 2008, no auge da crise provocada pelo uso indevido dos cartões corporativos por autoridades, o presidente Lula saiu em defesa desse instrumento. Na ocasião, Lula definiu o cartão corporativo como a forma mais séria e transparente de cuidar dos gastos públicos: — O que precisamos é, a partir da deficiência, fazer as correções necessárias e continuar colocando na internet para que a população tenha acesso. Acho que todo mundo tem de mostrar corretamente aquilo que gastou todo santo dia.
Fonte: O Globo

UM PAI QUE PASSA VALORES AOS FILHOS

UM PAI QUE PASSA VALORES AOS FILHOS
Isaltino Gomes Coelho Filho
Hoje é o dia dos pais, data sem o brilho do dia das mães. A figura da mãe é ímpar, mística, em nosso meio. É mais terna e romântica. O pai leva desvantagem na nossa cultura. Em muitos lares, ele fica com a disciplina dos filhos. Chega em casa, à noite, cansado, e a esposa diz: “Dá um jeito nesse menino!”. Ou: “Dá um jeito no seu filho!”. E o garoto pensa: “Chegou o pai, chegou a bronca!”.
A mídia ocidental massacra o homem. Há muitos livros tipo “Mulheres que amam, e maridos que (alguma coisa ruim)”, “Por que as mulheres fazem isso (algo bom) e os homens (algo ruim)”, ou “Mulheres são isso assim-assim (algo bom) e os homens são assim (algo ruim)”! Os homens estão mal na foto…
E há o desmanche da autoridade. Nas novelas e filmes, os pais são falsos, e os jovens, idealistas. Filhos dão broncas homéricas nos pais, figuras patéticas. Os jovens têm todos os direitos e nenhum dever. Os pais têm todos os deveres e nenhum direito. Os pais nada sabem. Os jovens sabem como tudo deve ser. Pais nao prestam. Mas a Bíblia mostra que o pai, além de provedor, era referência para os jovens. Assim, valho-me de dois vultos bíblicos para pensarmos sobre o pai.
Um é Davi. Deus o chamou de “o homem segundo o meu coração”. O maior rei de Israel, grande guerreiro, líder e administrador, poeta sensível. Péssimo pai. Sua família foi um caos. Há um caso de incesto e um de fratricídio. Dois filhos, Adonias e Absalão, tentaram depô-lo. Falhou como pai! Vemos a razão na forma de criar filhos: “E nunca seu pai o tinha contrariado, dizendo: Por que fizeste assim? E era ele também muito formoso de parecer; e Hagite o tivera depois de Absalão” (1Rs 1.6). Ele não corrigiu o filho. Mimou-o. Há pais que não corrigem e sempre acobertam os filhos. Nunca vêem seus erros. Pais devem orientar e fixar padrões de vida.
O outro é Simão Cireneu (Mc 15.21), que levou à cruz à força. Jesus saía para o Calvário e ele vinha do campo. Era manhã. Passara a noite trabalhando. Era de Cirene, na África. É chamado de “Simão Níger”, “Simão, o Negro” (At 13.1). Tornou-se um dos pastores da igreja. Tinha dois filhos, Alexandre e Rufo. Paulo falou de Rufo e de sua mãe, esposa de Simão: “Saudai a Rufo, eleito no Senhor, e a sua mãe e minha” (Rm 16.13). A esposa de Simão foi uma mãe para Paulo.
Simão não se queixou da cruz. “Só porque sou negro, escravo, me puseram nas costas uma cruz que nem é minha depois que trabalhei a noite toda!”. Levou-a à força. Depois, assumiu-a. Passou-a para a esposa e para os filhos: os dois, pastores; ela, uma mãe para Paulo. Ele passou valores espirituais para toda a família.
O pai cristão deve ter uma fé contagiante. Se exibe a cruz de Jesus em sua vida, os filhos vêem que vale a pena, e a tomam também. Quando o pai assume a cruz, ensina e motiva o filho a levá-la também com satisfação. Se isto não suceder, o pai terá cumprido sua missão.
Ser pai é muito bom. Ser pai cristão é mais, ainda. E ganhar os filhos para Cristo e vê-los servindo a Jesus é fantástico. Seja pai como Simão, não como Davi.

Vídeos STF - Saiba Mais - Síndrome da alienação parental

A alienação parental é uma situação que pode ser punida. Ela acontece quando casais se separam e os pais falam mal um do outro para os filhos. Veja o que diz a advogada Cláudia Azevedo Araújo no quadro "Saiba Mais".

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