sexta-feira, agosto 27, 2010

Bello, hoje na Tribuna de Minas

A oposição, pronta pra perder

A oposição, pronta pra perder
Sandro Vaia
 Há poucas dúvidas sobre quem vai ganhar a eleição presidencial. A candidata oficial, segundo todas as pesquisas, está mais de 20 pontos na frente do principal candidato da oposição. Dificilmente perderá.
Esse é um motivo de júbilo para os que acreditam que a democracia se expressa no pensamento da maioria. E, de fato, essa é a essência da democracia - a reiteração da vontade expressa da maioria, que aprova o governo e lhe concede salvo-conduto para que ele continue executando a política que as urnas estão prontas para ratificar e consagrar.
Por que, então, esse incômodo com a situação que as urnas estão prontas a legitimar? Se o povo quer que essa situação continue, quem tem legitimidade para se opor?
Essa é a leitura rasa da democracia: um não quer, mas dois querem. Dois são mais do que um, e portanto ganha quem tem mais. Opor-se à vontade da maioria seria uma tentativa golpista de anular a sua vontade e sobrepor a ela a vontade da minoria.
Não é tão simples.
Claro como água que a vontade da maioria deve se impor. Sobre isso, não há dúvidas. A candidata escolhida pela maioria prevalecerá e ninguém vai impedir que ela forme seu governo e execute a plataforma que defendeu durante a campanha eleitoral.
O problema é mais sutil.
A democracia é um regime que se fundamenta no sistema de check and balances, uma formalização sistemática da imposição dos pesos e contrapesos, cuja principal finalidade é evitar que a prevalência da vontade da maioria signifique o esmagamento da expressão política da minoria.
Ou seja: a maioria fica legitimada pelo voto a aplicar o seu programa de governo, mas nem por isso está autorizada a esmagar e anular a expressão da vontade da minoria, com quem deve interagir através de alguma forma de diálogo e de concessões democráticas, exatamente em nome desse equilíbrio.
Esse é, claro,um pressuposto de democracias maduras. Seria muito otimismo acreditar que estejamos prontos a aplicar essa práxis no nosso incipiente estágio de evolução democrática.
É mais fácil acreditar que os vencedores estejam preparados a tripudiar sobre os vencidos do que a conceder-lhes o crédito por pressupostos universais, politicamente válidos para ambos os lados.
O fato é que a oposição política brasileira está gostosamente pronta para perder as eleições porque não se preparou intelectualmente nem programaticamente para ganhá-las. Não conseguiu contapor nenhuma Ideia fundamentalmente mais sólida às idéias hegemonicamente impostas pela situação.
Não soube avançar nem um passo sequer além do triunfalismo inconseqüente do governo e não conseguiu propor nenhuma idéia mais sólida do que o assistencialismo e o paternalismo que se impuseram como política oficial.
Como alternativa para um Bolsa Família, a oposição não conseguiu formular uma proposta melhor do que um Bolsa Família e meia. Para um discurso de Lula, não soube apresentar mais do que um discurso de um Lula e meio. A oposição se preparou com muito empenho para uma derrota, e está pronta para colhê-la, por não ser capaz de propor uma alternativa melhor. Vai perder, e não lhe falta merecimento para isso.
Só lhe resta, agora, lutar para não permitir que desapareçam as salvaguardas que evitem a sua extinção total, embora não tenha conseguido fazer por merecê-las.
 Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez.. E.mail: svaia@uol.com.br  Publicado no Blog do Noblat

Um ou dois murrinhos

Um ou dois murrinhos

LUIZ GARCIA - O GLOBO - 27/08/10


Por tudo que a gente tem lido nos jornais a disputa pela Presidência da República até parece que já acabou, ou estaria perto disso.
Não faz muito tempo, não era o que se via.
Afinal de contas, o Serra vem de governar o estado mais rico do país — a riqueza não tem nada a ver com os ibopes da vida, mas a opinião pública presta mais atenção em São Paulo do que — pelo amor de Deus, sem desdouro — no Piauí ou no Amapá.
Serra fez bom governo e tem tarimba; faz política desde o tempo de estudante.
Já Dilma, por mais que o Lula a elogie, não tem sua imagem ligada, de forma ostensiva e direta, a nenhum dos carroschefes do governo. Seu grande trunfo, para valer mesmo, é o fato de que o presidente mais popular da história recente do país garante que ela fará um governo igualzinho ao dele. E tem uma porção de gente acreditando nisso. Os macacos velhos da arquibancada sabem que nunca é bem assim. Há quem diga, por exemplo, que a moça pode ter sido tudo que Lula diz — mas quem garante que a Dilma terá uma Dilma para ajudá-la? Pelo menos em parte, o título de herdeira caiu-lhe nas mãos porque, ao longo dos últimos oito anos, a maioria dos petistas históricos saiu do páreo por ter ficado com nome sujo na praça. Se os chamados quadros históricos do partido tivessem se comportado melhor, é bem possível que ela não estaria hoje nos palanques que tem frequentado.
Tudo bem, eleição é assim mesmo.
Vale a biografia — ou , em alguns casos, a folha corrida —, mas muitas vezes é tudo uma questão de estar no lugar certo na hora certa.
No momento, a candidata do PT parece ter possibilidades reais de ganhar o páreo já no primeiro turno. Em parte, graças à popularidade do padrinho.
Também porque ela não deu, pelo menos até agora, qualquer passo em falso.
E há outro fator, que ninguém parecia esperar: como é ruinzinha a campanha de Serra! Ou, como preferem os cérebros de sua propaganda, o Zé, coisa que ele nunca foi. Inclusive porque não tem a menor cara de Zé. O apelido inventado cai sobre seus ombros com o peso de um cobertor encharcado. Pesa muito e não tem calor algum.

Há quem ache que Dilma pode até ganhar no primeiro turno. São os que gostam dela e serristas pessimistas, que preferem abreviar o sofrimento. Na verdade mesmo, a coisa talvez ainda não esteja tão feia quanto parece. Serra pode ficar um pouco menos bonzinho e um tanto mais enfático — o que não é o mesmo que falar alto e dar murro na mesa — tanto na propaganda quanto nos debates que faltam antes do primeiro turno. Enfim, mais Serra e menos Zé. Pensando bem, um, dois murrinhos na mesa podem não fazer mal algum.
E há um dado que o candidato não pode esquecer: há enorme diferença entre primeiro e segundo turnos. Se ele sobreviver à primeira votação, isso obviamente terá peso considerável no desempenho da oposição em todas as eleições regionais. E, na briga do segundo turno, tudo pode ser diferente.

Paixão, em Gazeta do Povo

Aparelhamento desafia o Estado – Editorial / O Globo

Aparelhamento desafia o Estado – Editorial / O Globo


O que era um vazamento identificado na delegacia de Mauá, na Grande São Paulo, da Receita Federal se transforma num transbordamento de grandes proporções. Embora já seja inconcebível e grave crime um único desvio de informações privadas sob a guarda do Estado, o escândalo da invasão de arquivos da Receita para a captura de declarações de imposto de renda do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, ganha ainda maiores proporções com a descoberta de que outros tucanos também foram atingidos pelo aparelho instalado naquela delegacia.
A invasão dos arquivos de dados fiscais do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações de FH; Ricardo Sérgio, diretor do Banco do Brasil na mesma época em que Mendonça de Barros conduzia a privatização das telecomunicações; e de Gregório Marin Preciado, marido de uma prima do candidato José Serra, denuncia a intenção da empreitada: encontrar algo para fragilizar o PSDB. Os contornos da patranha ficam ainda mais claros ao se constatar que o roubo dos dados ocorreu no final do ano passado, às portas de uma campanha eleitoral, àquela altura já antecipada pelo presidente Lula, e tudo no mesmo dia, num espaço de quase 20 minutos.
E sempre por meio do computador da servidora Adeilda Ferreira dos Santos, com a senha de Antônia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, chefe daquela sucursal do Leão.
Em maio, a Veja noticiou que assessores contratados para o comitê da candidata Dilma Rousseff tentavam montar uma usina de dossiês contra Serra, além de outros tucanos, Eduardo Jorge entre eles. No mês seguinte, a Folha de S.Paulo revelou que dados fiscais de Eduardo Jorge circularam nesse bunker dilmista. Fecha-se a degradante e perigosa história perigosa para a sociedade. Em sua defesa, o PT lembra ter pedido, já no início do escândalo, que a Polícia Federal entrasse no caso. Tem razão, é mesmo acertada medida. Também está certo Eduardo Jorge em não confiar na lisura do trabalho de corregedoria da Receita. Aliás, o alcance da quebra de sigilo só foi conhecido porque o tucano conseguiu, por via judicial, que a Receita lhe entregasse os resultados da investigação. Foi possível, então, saber a dimensão do crime: mais de cem arquivos de contribuintes não residentes na jurisdição da delegacia de Mauá foram invadidos.
Entre eles, alguns da família Klein, das Casas Bahia; e da apresentadora do programa da TV Globo Mais você, Ana Maria Braga.
O assunto é muito sério, pois alerta para a fragilidade em que se encontram o estado de direito e a segurança institucional. Quando grupos utilizam postos na máquina burocrática para atacar adversários e ajudar aliados, a necessária impessoalidade do Estado é revogada.
O Brasil se aproxima, em alguma medida, do modelo de Estado a serviço de interesses de esquemas, em voga no Leste da Europa até a queda do Muro de Berlim, na década de 80. Até hoje, a Rússia, por exemplo, padece do problema. É imprescindível, portanto, que defesas do Estado sejam acionadas para preservar o regime republicano, abalado devido à infiltração de aparelhos político-sindicais em áreas que têm de prestar serviços com estrita isenção ideológica. A Justiça começa a fazer a sua parte. Falta a PF demonstrar o mesmo. Este caso é um divisor de águas; não pode haver impunidade.

Uma lição prática de economia

Uma lição prática de economia

Luiz Carlos Mendonça de Barros

FOLHA DE S. PAULO
Os ganhos sistêmicos com a maior penetração de importações são muito superiores às perdas
A evolução da economia ao longo dos mandatos de FHC e de Lula é uma lição prática sobre o funcionamento de uma economia de mercado. Esse período de 16 anos permite ao analista mais cuidadoso confrontar ensinamentos teóricos com o desenrolar de fatos reais dentro de nossa sociedade.
Uma primeira lição, que não é contestada hoje nem mesmo por aqueles que a negaram por muitos anos, está relacionada com o controle da inflação. Ela é a base inquestionável para que uma sociedade possa se desenvolver e levar o cidadão a níveis de bem-estar econômico crescentes.
Mas o controle da inflação é apenas uma condição para que o desenvolvimento possa ocorrer. Para chegar ao pleno potencial de geração de renda para o cidadão, um longo caminho precisa ser trilhado, principalmente quando se parte de uma situação de crise como era o caso do Brasil em 1994. É o que vem acontecendo ao longo de todos estes anos.
Uma das últimas etapas desse verdadeiro caminho de São Tiago está ocorrendo agora com o aprofundamento da abertura da economia às importações.
Sei que é um tema polêmico mesmo no universo de meus leitores da Folha. Mas estou convencido de que os ganhos sistêmicos da sociedade com a maior penetração de importações são muito superiores às perdas pontuais que possam ocorrer. Principalmente se o governo seguir uma política eficiente no enfrentamento dos problemas microeconômicos que nos afligem.
Vou tratar neste nosso encontro da evolução de uma cadeia produtiva importante -a indústria automobilística- e de como ela foi afetada positivamente pela abertura econômica.
Até bem recentemente, o mercado de automóveis no Brasil era um dos mais fechados entre os de bens de consumo duráveis. Uma vigorosa barreira tributária faz com que um automóvel, entre o porto de origem e o consumidor brasileiro, tenha seu preço multiplicado por dois.
Com essa proteção não havia estímulo para que ganhos de produtividade ocorressem ao longo da cadeia produtiva e chegassem ao consumidor. Os preços dos automóveis produzidos no Brasil ficavam sempre ligeiramente abaixo daqueles dos importados, refletindo uma política racional de uma empresa privada em uma economia de mercado com proteção elevada.
Essa estrutura, que permaneceu por várias décadas, começou a ruir com o aumento do poder aquisitivo dos brasileiros e o alongamento, pelos bancos, dos prazos de financiamento da compra de bens duráveis.
Mesmo com preços elevados, a participação dos importados começou a crescer à medida que sua qualidade superior passou a pesar no comportamento do consumidor brasileiro. Nos primeiros momentos desse processo, essa mudança não foi devidamente percebida, inclusive porque a indústria brasileira trabalhava a plena carga.
Mais recentemente, outro fenômeno começou a ocorrer nesse mercado. A indústria brasileira de aço -que também goza de proteção tarifária- iniciou um processo de elevação de preços com o claro objetivo de aumentar a parcela de seus lucros em um momento de excitação de demanda.
Afinal, isso já havia acontecido várias vezes no passado. Só que agora, pressionada pelas importações, a indústria automobilística não podia repassar ao consumidor esse aumento de preços.
Como os produtores de veículos no exterior usam em suas cadeias de produção um aço que custa entre 30% e 40% menos do que seus concorrentes no Brasil, a batalha pelo consumidor ficou mais acirrada.
Nessas condições, de forma racional, as montadoras decidiram usar o aço mais barato -mas de mesma qualidade- que estava disponível no exterior. As siderúrgicas brasileiras não tiveram alternativa senão reduzir seus preços e alinhá-los com os praticados no exterior.
Uma vez quebrado o padrão anterior, daqui para a frente o preço do aço no Brasil seguirá mais perto os praticados no exterior. E o grande ganhador com isso será certamente o consumidor brasileiro.

Nick Brandt

Jorge Camargo - A Felicidade

Bruno, para o Vale Paraibano

Ayres Britto libera o humor na eleição

Ayres Britto libera o humor na eleição
Ministro do STF concede a liminar pedida pela Abert e suspende censura à sátira política na campanha
Fabio Brisolla e Luiza Damé

RIO e BRASÍLIA. O ministro Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu ontem à noite liminar suspendendo a censura ao humor na campanha eleitoral. O texto da liminar suspende os efeitos do trecho da Lei Eleitoral que se refere às restrições aos programas de humor na TV e no rádio. O ministro atendeu a uma ação de inconstitucionalidade proposta pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert). O caso agora ainda será julgado pelo plenário do STF.
Com a decisão, Ayres Britto reconheceu a inconstitucionalidade do inciso número 2 do artigo 45 da lei, que proibia o uso de trucagens, montagens ou qualquer recurso de edição que pudesse ser considerado como uma difamação ao candidato, partido ou coligação. A restrição atingia diretamente as sátiras políticas realizadas por programas de humor na TV.
A ação da Abert também reivindicava a suspensão do inciso 3 do artigo 45, que diz respeito à proibição de críticas diretas a candidatos pelas emissoras. Em relação a este inciso, o ministro manteve o o texto, deixando a interpretação para caso a caso, de acordo com a interpretação da Constituição. O advogado Gustavo Binenbojm, da Abert, explicou a decisão em relação ao inciso 3: — Isso significa que fica assegurado o direito da crítica jornalista, vedando-se apenas favorecimentos (a candidatos) que descambem para a propaganda eleitoral.
Em sua decisão, Ayres Britto escreveu: “Se podem as emissoras de rádio e televisão, fora do período eleitoral, produzir e veicular charges, sátiras e programas humorísticos que envolvam partidos políticos, pré-candidatos e autoridades em geral, também podem fazê-lo no período eleitoral.
Até porque processo eleitoral não é estado de sítio (art. 139 da CF), única fase ou momento de vida coletiva que, pela sua excepcional gravidade, a nossa Constituição toma como fato gerador de “restrições à inviolabilidade da correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações e à liberdade de imprensa, radiodifusão e televisão, na forma da lei” (inciso III do art. 139).
A decisão de Ayres Britto é provisória. Ainda está sujeita a uma confirmação pelo plenário do STF, onde será realizado o julgamento final da ação de inconstitucionalidade.
A liminar concedida por Ayres Britto, no entanto, resulta numa imediata suspensão das restrições que limitavam os programas humorísticos.
Na Rede Globo, a trupe do “Casseta & Planeta” havia cancelado as imitações dos presidenciáveis. Na Rede TV, o “Pânico” deixou de tratar das eleições. E, na Band, o “CQC” suavizou o tom das perguntas a candidatos durante a campanha eleitoral.
Em outro trecho da liminar, Ayres Britto escreveu: “A liberdade de imprensa assim abrangentemente livre não é de sofrer constrições em período eleitoral. Ela é plena em todo o tempo, lugar e circunstâncias.
Tanto em período não eleitoral, portanto, quanto em período de eleições gerais”.
O ministro entende que o exercício da liberdade de imprensa permite ao jornalista fazer “críticas a qualquer pessoa, ainda que em tom áspero, contundente, sarcástico, irônico ou irreverente, especialmente contra as autoridades e aparelhos de Estado”. Mas a liminar alerta que o jornalista responderá “penal e civilmente, pelos abusos que cometer, e sujeitando-se ao direito de resposta”.
O ministro escreveu ainda que o humor é um estilo de fazer imprensa. “Programas humorísticos, charges e modo caricatural de pôr em circulação ideias, opiniões, frases e quadros espirituosos compõem as atividades de imprensa, sinônimo perfeito de informação jornalística”, afirmou.
Ação na Justiça e protesto contestaram censura Na terça-feira, a Abert protocolou no STF a ação direta de inconstitucionalidade contra as restrições impostas aos programas de humor pela legislação.
A ação de inconstitucionalidade, proposta pelo advogado Gustavo Binenbojm, também contestou o trecho que impedia a difusão de “opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes” em programas de TV ou rádio. Pelo documento, os dispositivos da lei atual “inviabilizam a veiculação de sátiras, charges e programas humorísticos envolvendo questões ou personagens políticos durante o período eleitoral”.
No domingo, humoristas promoveram uma passeata na orla da Praia de Copacabana. O protesto chamou a atenção para a censura no período eleitoral. Para cumprir as exigências da lei, os programas de humor tiveram roteiros alterados nas últimas semanas. Fonte: O Globo

EUA reforçam medidas protecionistas

EUA reforçam medidas protecionistas
Alex Ribeiro, de Washington – Valor Online

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, decidiu ontem reforçar as suas ferramentas protecionistas contra importações oriundas sobretudo da China, num momento em que o seu Partido Democrata enfrenta uma difícil disputa eleitoral para o Congresso.
As 14 medidas anunciadas ontem pelo secretário de Comércio, Gary Locke - na foto, têm como alvo principal as importações vindas da China, vistas por muitos americanos como uma das causas das altas taxas de desemprego no país, que está em cerca de 10%, percentual bastante alto para um país com benefícios assistenciais restritos, como os EUA.

O objetivo principal é facilitar as punições contra importações tidas como desleais de países que, pelos critérios americanos, não têm economia de mercado, caso da China e Vietnã. Na prática, por exemplo, será adotada uma fórmula mais simples e direta para calcular subsídios e dumping (venda de produtos abaixo do preço de mercado) dessas economias. Mas isso afeta também para países considerados economias de mercado, como o Brasil, que ficam mais vulneráveis a retaliações americanas.
O governo americano já vem intensificando a abertura de processos antidumping e medidas compensatórias (combatem subsídios). Em 2009, o Departamento de Comércio iniciou 34 novas investigações antidumping, alta de 79% em relação ao período imediatamente anterior. A China é alvo de boa parte dessas investigações, e vem respondendo com medidas semelhantes contra produtos americanos.
Estados Unidos e China também travam uma disputa em torno da subvalorização da moeda chinesa. Há dois meses, a China soltou um comunicado anunciando que valorizaria sua moeda, mas seus movimentos são muito lentos. Há pressões do Congresso americano para aplicar medidas punitivas, como sobretaxas, ao que eles chamam de manipulação da moeda pelos chineses.
A economia dos Estados Unidos cresce num ritmo mais lento do que o inicialmente calculado para este ano, e alguns economistas dizem que, em parte, isso ocorre porque as exportações estão mais fracas que o esperado, e as importações, mais fortes.
Ontem, ao anunciar as medidas, Locke disse que elas são desdobramento de uma iniciativa maior lançada há alguns meses pelo governo do presidente Barack Obama para dobrar as exportações nos próximos cinco anos. Outras frentes de trabalho incluem o reforço na promoção comercial, novos acordos de livre comércio e ampliação dos financiamentos para as empresas exportadoras.
Algumas práticas antidumping dos Estados Unidos são acusadas de protecionistas e vem sendo questionadas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Um dos pontos de disputa é um mecanismo chamado "zeragem", considerado um artifício contábil para achar dumping e subsídios onde não há, que já foi condenado pela OMC.
Há grandes chances de, em setembro, a União Europeia receber autorização para aplicar retaliações contra os Estados Unidos por causa do uso do mecanismo de "zeragem". O Brasil tem uma disputa na OMC com os Estados Unidos por causa da aplicação da "zeragem" sobre o suco de laranja.

Continuísmo

Continuísmo

Dora Kramer - O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva não se aguenta: morre pela boca, mas nunca deixa passar uma excelente oportunidade de ficar calado.
Na quarta-feira teve duas chances e aproveitou as duas. Na primeira, contou em público uma versão mentirosa de um episódio ocorrido há oito anos, em que posou de vítima de preconceito por parte do diretor editorial do jornal Folha de S. Paulo. Isso apesar de as testemunhas estarem bem vivas para contestar.
Na segunda vez, discursava aos militares sobre a nova lei que reforça a estrutura do Ministério Defesa quando do coração lhe brotaram as palavras de lamento - sempre "em tom de brincadeira" - por não ter enviado uma "emendinha" propondo ao Congresso "mais alguns anos de mandato".
Note-se que não se referiu a disputa, mas a extensão.
O presidente Lula não se segura. De vez em quando externa o que lhe vai às profundas da alma, coisas que jamais esquece: a derrota da CPMF e a impossibilidade de ter aprovada a chance de alcançar um terceiro mandato sem traumas institucionais.
O problema com o imposto do cheque não é o dinheiro. Isso não faz falta ao governo. Lula não se conforma é com a derrota política que o fez perceber a impossibilidade de aprovar a emenda do terceiro mandato no Senado.

Assuntos sobre os quais nunca cogitamos não vêm à tona assim sem mais nem menos.
Muito menos um tema como esse.
Ultimamente o presidente vem fazendo referências cruzadas a respeito. Lamenta o fim do segundo mandato, diz o quanto ficará saudoso do poder, insinua influência permanente no governo da "presidenta" que já considera eleita e ordena à tropa que empenhe todo esforço na eleição de uma bancada gigante de senadores.
De preferência derrotando todos aqueles que lhe fizeram oposição mais aguerrida. Não quer só maioria, quer vingança.
E para quê, se chega ao fim o seu tempo?
Aí é que está. Se realmente conseguir eleger Dilma a Lula parecerá que pode conseguir qualquer coisa. Maioria no Senado, voltar à Presidência em 2014, exercê-la de fato até lá com o beneplácito da "presidenta" de direito.

Por que tanta vontade de ter maioria no Senado, qual o projeto que indica essa necessidade?

No caso de Dilma não se aplica o preceito de que a criatura dá adeus ao criador tão logo assuma o poder. Ocorre quando o criador não tem o controle real das coisas, a começar pelo partido e pela figura que atua no imaginário popular.
Se ousar contra ele, a criatura sabe que a tempestade não lhe será leve.
Muito além. Não é (só) a liberdade dos humoristas que está sendo violada com as proibições impostas pela Lei Eleitoral. São as garantias de toda a sociedade, além da Constituição como fiadora da liberdade de expressão.

De onde é louvável a iniciativa da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão de entrar com ação direta de inconstitucionalidade contra o veto ao exercício da crítica política nos 90 dias que antecedem as eleições.

Lamentável é terem se passado 13 anos de (quase) total insensibilidade com a violência da lei, a despeito dos isolados reclamos.
Meta comum. Os caminhos são diferentes, mas o objetivo dos governos da Venezuela, da Argentina e do Brasil é o mesmo: tutelar a sociedade e assegurar trânsito livre de críticas aos respectivos projetos de poder, por intermédio do controle da informação.
O governo Lula ensaia, recua e insiste em manietar a imprensa por meio de instâncias colegiadas e sugestões corporativas. Os Kirchner alteram as leis para prejudicar os grandes grupos de comunicação.
Chávez é explícito. Hoje prende e arrebenta, mas nem sempre foi assim, embora caminhe nesse sentido desde o início. Os fascinados por "governos do povo" - os bem-intencionados, não os vendidos - é que não percebem o andar da carruagem do autoritarismo.
Só se dão conta e protestam quando suas vozes já não podem mais ser ouvidas.

Sonho verde

Sonho verde

Merval Pereira

O GLOBO
Daniel Cohn-Bendit, de 65 anos, o mítico líder dos estudantes franceses em maio de 1968 e hoje deputado em quarto mandato pelo Partido Verde no Parlamento europeu ele diz com indisfarçável orgulho que é o único político eleito por dois países, França e Alemanha tem um sonho em relação à eleição presidencial brasileira: quer a candidata do Partido Verde, Marina Silva, no segundo turno para debater diretamente com Dilma Rousseff, a candidata de Lula. Este é o debate que o Brasil realmente precisa ver, para escolher o melhor programa.
Ele diz que na Europa não se vê com grande emoção a eleição brasileira porque todos estão convencidos de que a candidata do presidente Lula vai vencer. Ao mesmo tempo, os europeus não veem muita diferença entre o PT de Lula e o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, que, aliás, foi um dos professores de Dany Le Rouge (por ser ruivo e socialista) naquele mesmo ano, na Universidade de Nanterre, onde a revolta estudantil eclodiu, depois se espalhando pelo país inteiro.
São duas vertentes da mesma social-democracia. É como se fosse o partido trabalhista inglês disputando com o partido francês.
Ele, aliás, ao fazer essa comparação revela uma crítica a partidos políticos dessa vertente, que considera culpados pelo fracasso da esquerda por não terem regulado o capitalismo.
Lula, por exemplo, CohnBendit considera o representante de uma esquerda atrasada, que esteve em voga há 30 anos na defesa do produtivismo a todo custo.
E ficou contente ao saber que Marina repetiu sua tese na quarta-feira em Porto Alegre, dizendo que Lula representava uma esquerda atrasada, que não dava a devida importância às questões do meio-ambiente.
Ele considera que o Brasil está fracassando na virada ecológica e pode pagar um preço alto por não compreender a natureza da mudança.
Por isso, acha que Marina seria a solução mais moderna para se contrapor às propostas da esquerda socialdemocrata que, acredita, Dilma e Serra representam.
A primeira vez em que vi a Marina, achei ela toda frágil, mas quando fala tem uma força danada. Nós somos diferentes, porque a Marina é religiosa, e eu não acredito em nada. Mesmo assim, temos visões comuns.
Daniel Cohn-Bendit não vive do passado, embora não renegue sua atuação política em maio de 68. Eu mudei porque o mundo mudou, diz ele, que lembra que naquele momento todas as utopias estavam abertas para a juventude, e muita coisa no mundo mudou justamente por causa da revolta dos estudantes.
Mas, hoje, está convencido de que os avanços dependem da estabilidade democrática, e não de revoluções.
Por isso não entende a esquerda latino-americana que ainda trata com reverência a revolução cubana, ou considera Hugo Chávez uma alternativa política válida.
É um crítico da política externa do governo Lula, que lhe parece movida mais por um sentimento antiamericano do que pela defesa dos valores democráticos, como os direitos humanos.
Na sua definição, Cuba representa um autoritarismo inaceitável, Chávez é o velho caudilhismo latino-americano e o Irã de Ahmadinejad, outro aliado político de Lula, o mais perigoso por ser o mais forte, com a possibilidade de ter a bomba atômica.
Cohn-Bendit acha que é até compreensível, pela história da região, um antiamericanismo, mas se espanta ao saber que Lula mantinha uma relação mais amigável com o expresidente George W. Bush do que com Barack Obama.
E também considera que, assim como o governo socialista da Espanha ajudou a libertar presos políticos em Cuba, o governo brasileiro poderia trabalhar para que os direitos humanos fossem respeitados nas ditaduras com as quais se relaciona.
Depois de se informar sobre a maneira como Lula escolheu sua candidata Dilma Rousseff, avalia que ele deve estar com intenções de tornar-se uma espécie de tutor da futura presidenta, da mesma maneira que o russo Putin escolheu para substituí-lo como primeiro-ministro Medvedev.
Mas ele não acredita que na política as coisas se passem tão linearmente: A missa não está terminada na relação de Putin com Medvedev, comenta Cohn-Bendit, numa expressão que mostra sua dúvida sobre se a relação dos dois não terminará em conflitos políticos como costuma acontecer entre criatura e criador.
Ele acha que, com Dilma eleita, Lula voltará a ser o líder sindicalista que tentará manter o poder: Vai almoçar três vezes por semana com a presidenta para influir no governo, comenta com uma ponta se sarcasmo.

Daniel Cohn-Bendit tem mandato no Parlamento Europeu até 2014, e está preparando o espírito para deixar de fazer política como atividade parlamentar depois de terminar seu quarto mandato.
Além da literatura, tema sobre o qual tem um programa na televisão suíça, ele quer se dedicar a fazer cinema, pois preciso ter outro interesse que não apenas a política, porque senão ficarei doido.
Um de seus projetos tem relação com a Copa do Mundo de futebol de 2014, que será realizada no Brasil: Gostaria muito de fazer um filme sobre o tema, porque acho que haverá um problema incrível. O que acontecerá se o Brasil perder a Copa? Cohn-Bendit diz que todos respondem que isso é impossível, e é por isso que eu acho o tema fascinante.
Racionalmente, diz ele, o Brasil tem cerca de 40%, 50% de chances de ganhar, não muito mais do que isso.
Não haverá 11 jogadores apenas, mas 130 milhões.
Qual é a estrutura psíquica, mental de um país que não aceita nada além da vitória como resultado final? Raramente há uma unidade dentro de um país, do mais pobre ao mais rico, todos convencidos de que o Brasil vencerá.
Um novo Maracanazo, como o de 1950 quando Brasil perdeu para o Uruguai no final da Copa, será cem vezes maior, diz Cohn-Bendit, que considera mais fascinante ainda a possibilidade de em 2014 o próprio Lula estar concorrendo novamente à Presidência.

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