terça-feira, maio 11, 2010

O risco do tempo

O risco do tempo
SERGIO BESSERMAN - O Globo - 07/05/2010

Não é incomum a suposição de que os ambientalistas transmitem mensagens apocalípticas sobre o futuro do planeta, excessivamente zelosas das responsabilidades humanas para com a natureza, enquanto os economistas, mesmo os mais próximos aos temas da crise ambiental, teriam preocupações mais realistas e, portanto, menos intensas.

Nada mais equivocado. É verdade que alguns ambientalistas sinceros muitas vezes cometem o mesmo equívoco de desenvolvimentistas alienados e superestimam as forças da humanidade. Acreditam que a natureza do planeta está sob risco e que temos a responsabilidade de salvá-la da destruição causada por nós mesmos. Mas a grande maioria dos ecologistas sabe que não é essa a questão. A natureza não está sob risco.
Ela não pagaria um centavo por uma apólice de seguro.
Quanto aos economistas, é verdade que ainda são raros os que estudam a sério os números da crise de sustentabilidade, especialmente os relativos à mudança climática, mas, de um modo geral , quando o fazem são acometidos de um justificável senso de prioridade e urgência com relação ao tema. Isso porque são treinados na forma correta de entender o problema: a análise de risco.
A humanidade não pode fazer mal à natureza do planeta. Suas forças são insuficientes para representar uma ameaça real. A ilusão de que seja possível aos homens destruir a vida na Terra decorre de um equívoco compreensível: o desprezo por uma das dimensões da realidade, o tempo.
São tempos dramaticamente diferentes.
Nós vivemos 80 anos, Jesus esteve entre nós há pouco mais de dois mil anos, a civilização tem sete milênios, a agricultura algo como doze milênios. A vida está presente na Terra há pelo menos 3,6 bilhões de anos. A maravilhosa biodiversidade que nos cerca tem cerca de 650 milhões de anos.
Se projetados em um relógio de 24 horas, esses tempos significam que a humanidade só se fez presente nos últimos segundos. Nas 23 horas, 59 minutos e muitos segundos anteriores, o planeta passou por problemas incomensuravelmente maiores do que qualquer coisa que possamos sonhar em fazer um dia.

É dessa forma que damos nome às eras geológicas: paleozoico, quer dizer, era da vida antiga. Foi encerrado com um apocalipse, uma enorme extinção da vida, a humanidade não teria chances de sobreviver. Veio então o mezosoico, era da vida média. Novamente encerrado por uma grande extinção à qual sobreveio o cenozoico, a era da vida recente.
Nós estamos presentes a partir dos últimos duzentos mil anos do cenozoico.
Temos uma grande capacidade de dilapidar e degradar a natureza do nosso tempo, aquela da qual fazemos parte. Se continuarmos no caminho em que estamos, o máximo que podemos fazer é contribuir para mais uma grande extinção, à qual a humanidade, ou, ao menos, a civilização como a conhecemos, não poderia sobreviver. O que o registro fóssil informa é que, após um episódio desse tipo, entre 5 a 10 milhões de anos depois uma nova biodiversidade estaria recomposta. Seria a era da vida recentíssima. Sem nós.
Se a natureza do planeta não tem, no seu tempo longo, motivos para preocupação, a humanidade tem razões de sobra para, no seu tempo curto, mudar de comportamento e comprar várias apólices de seguro.
Estamos submetidos aos riscos dos impactos diretos previsíveis das diversas dimensões da crise ambiental, especialmente a mudança climática; aos riscos dos inevitáveis conflitos sociais, políticos e militares que decorrerão da disputa por recursos crescentemente escassos e aos riscos associados à vasta extensão da nossa ignorância sobre a natureza e, consequentemente, à possibilidade de ocorrência de impactos não previstos e potencialmente devastadores, como a liberação do metano aprisionado no solo congelado da Sibéria, acelerando o aquecimento global, ou a degradação não linear dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica, incrementando expressivamente a elevação do nível do mar.
O grau de exposição ao risco da civilização já é muito maior do que aquele que as pessoas admitem no seu cotidiano ou os empreendedores utilizam nos seus negócios. Deus pediu a Adão que desse nome aos seres e às coisas. Nós nos autoatribuímos a nada modesta denominação de Homo sapiens sapiens. Está na hora de descobrirmos se a merecemos.
SERGIO BESSERMAN é presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável da prefeitura do Rio de Janeiro e foi presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas.

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