sábado, setembro 04, 2010

Erro estratégico

Erro estratégico
Merval Pereira

O comando da campanha presidencial tucana cometeu um erro estratégico ao tentar impugnar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a candidatura situacionista de Dilma Rousseff, dando margem a que seus adversários aleguem que toda gritaria em torno da quebra dos sigilos fiscais tem o objetivo único de “melar” a eleição que, segundo as pesquisas, a candidata de Lula vence com larga margem sobre José Serra, o candidato do PSDB.
A mesma reação teve o presidente Lula quando disputava a reeleição em 2006 e aconteceu o episódio dos “aloprados”. Lula partiu para o ataque dizendo que a oposição estava querendo “melar o jogo” ou “ganhar no tapetão”, o que na gíria futebolística tanto ao gosto do presidente significa querer ganhar nos tribunais os pontos perdidos em campo.
Usaram a tática de atacar para se defender mesmo que todas as evidências chegassem, como hoje, bem próximas ao Palácio do Planalto e à campanha de reeleição de Lula, com assessores pessoais envolvidos na tramoia, como Freud Godoy, ex-segurança transformado em assessor especial.
Acusado de ser o planejador da compra do dossiê contra os candidatos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra, Freud desapareceu de cena e ressurgiu no início deste ano, sempre envolvido em espionagem e contrainformação, presidindo a Caso Sistemas de Segurança.
Hoje, quando se repete a revelação do uso de métodos ilegais na campanha petista, a alegação é a mesma: por que interessaria ao governo perturbar uma eleição que parece tão tranquila, com Dilma mais de 20 pontos à frente de Serra? Acontece que, quando o sigilo de Verônica Serra foi quebrado, em setembro do ano passado — fato que só foi revelado agora, na esteira da investigação dos demais sigilos quebrados — quem estava na frente das pesquisas era José Serra.
O mais grave é que o jornal “Estado de S. Paulo” teve acesso a documentos que provam que a Receita Federal descobriu que o sigilo da filha de Serra fora quebrado há mais tempo, mas escondeu o fato.
Mesmo que a direção da Receita nada tenha a ver diretamente com a espionagem de pessoas ligadas ao candidato do PSDB, não tendo controle sobre os “aloprados” que atuam nas agências a serviço do partido, estaríamos diante de uma clara utilização de órgão do governo para pelo menos proteger a campanha da candidata oficial de notícias potencialmente prejudiciais.
Mas era previsível que a Justiça Eleitoral não aceitaria as evidências para iniciar um processo, assim como não tomou providências quando laços muito mais explícitos ligavam os “aloprados” de 2006 à campanha de reeleição de Lula.
A não aceitação da denúncia, no entanto, não transforma o malfeito — na definição de Dilma Rousseff — em bem-feito, nem reduz a gravidade da situação.
Embora sem chances de eleger seu candidato à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, nem de fazer uma bancada que tenha expressão numérica, o PSOL pretende continuar pautando sua atuação no Congresso pela prática da política independente. Deve eleger Heloísa Helena para o Senado, o que será garantia de protagonismo político naquela Casa.
Dentro dessa estratégia, a eleição mais importante, a essa altura, é a dos Legislativos.
Segundo o deputado federal Chico Alencar, candidato à reeleição, o PSOL não aceita “ficar no ‘gueto’ dos ‘nanicos ideológicos’: valorizamos os espaços institucionais, defendemos uma radicalização da democracia, combinando a representativa (tão débil hoje) com a participativa”.
Para Alencar, uma hegemonia completa dos setores fisiológicos, de mandatos de clientela —a maior parte hoje vinculada à hegemonia lulista, como antes gravitavam em torno de FHC — será um desastre para o país, e o balcão de negócios, isto é, a corrupção política, aumentará, junto com a degradação total do próprio Parlamento, que já é pouco relevante em termos de projetos estratégicos e fiscalização efetiva dos governos.
A visão de Alencar é pessimista caso essa hegemonia clientelista se confirme: “A reforma política ficará enterrada, definitivamente, até que o desencanto total com o atual sistema produza turbulências sociais (como aconteceu em muitos dos nossos vizinhos latino-americanos)”.
O PSOL também repudia, segundo Alencar, “a cooptação dos movimentos populares, sindicais — e até estudantis — que partidos ditos de esquerda, da base do governo, praticam, contínua e exitosamente”.
Ele admite que a bancada do partido, nos estados e no Congresso Nacional, será “bem pequena”, mas garante que terá independência crítica frente ao provável governo Dilma e aos governos estaduais: “com autonomia para cobrar, criticar, exigir, denunciar.
Mas não na linha conservadora e incoerente da oposição demo-tucana, que, ao que tudo indica, ficará menor do que hoje”.
Chico Alencar prevê, no entanto, que o PSOL terá “autoridade moral e política para questionar”, enquanto parte da oposição de direita “irá aderir: não terá contradições fundamentais com os possíveis futuros governos e não consegue viver tanto tempo longe de seus benefícios, inclusive para a reprodução de mandatos”.
No balanço que publiquei em recente coluna sobre os governos estaduais e a campanha para senador, não citei dois prováveis vencedores das eleições de 3 de outubro: Simão Jatene (PSDB), no Pará, e Omar Aziz (PMN), no Amazonas.
No Pará, coloquei Valéria Pires (DEM) como provável senadora eleita, quando ela não é nem candidata.
No estado, o líder das pesquisas é Jader Barbalho, que tem agora uma difícil luta no Supremo para manter o provável mandato, já que foi considerado “ficha-suja” pelo TRE e pelo TSE.
Os outros dois candidatos mais votados são: Paulo Rocha (PT) e Flexa Ribeiro (PSDB).

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