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domingo, junho 19, 2011

Discos Voadores


Discos voadores
IVAN ANGELO - REVISTA VEJA – SP
Faz tempo que não se ouve falar de aparecimento de novos discos voadores. Passou a moda? Os ETs não nos querem mais? Enjoaram-se de nós? Cansaram-se da paisagem NatGeo do planeta e foram rodopiar em outras galáxias? Ficaram aborrecidos com alguma coisa? Terão achado que os pintamos feios demais? Ou nós é que simplesmente desistimos deles?
Cresci no auge da boataria. Começou com um piloto norte-americano de caças contando que havia visto nove estranhos discos voadores brilhantes evoluindo perto de um monte, no estado de Washington. Era 24 de junho de 1947, Guerra Fria, e a onda começou: seria coisa dos russos ou de outro planeta. Venceu a hipótese de naves vindas do espaço sideral, bem mais sensacional e perturbadora.

Outras formas de objetos voadores não identificados foram engrossando a onda: pratos, charutos, triângulos, esferas... Dois repórteres da revista O Cruzeiro forjaram fotos de discos voadores: um lançou pratos girando no ar na Barra da Tijuca, o outro fotografou, a revista publicou e o Brasil entrou na rota dos tais discos. Eu lá, menino, no meio da boataria. Antes, não se via. Cronistas de reinos passados, gênios das navegações, Leonardos, historiadores, cientistas, malucos beleza, folhetinistas, jornais, cronistas dos primeiros 400 anos da imprensa não falam de discos, pratos ou charutos voadores, nem de pessoas que os tivessem avistado. Ninguém foi abduzido de 1950 para trás.
As religiões não nos deixavam sequer pensar em outros mundos, quanto mais em outros seres. Pois, se Deus houvesse criado outros seres em outros mundos, teria contado para os profetas. Portanto, não havia. Minto. O profeta Ezequiel, de 600 anos antes de Cristo, relata que viu grandes rodas luminosas girando no ar, subindo e descendo, e havia seres lá dentro. Melhor pensar que eram anjos. Antes da boataria, só deuses e anjos desciam até a superfície da Terra; e diabos subiam.
Pouco antes dos discos voadores, éramos nós, terráqueos, que nos aventurávamos pelo espaço, nas histórias em quadrinhos e no cinema dos anos de 1930/40: Buck Rogers, Flash Gordon (desenhado pelo grande Alex Raymond), Brick Bradford. Tão cedo quanto 1902, o cineasta francês Georges Meliès deu um tiro de foguete tripulado no olho da Lua. Mais tarde vieram planetas proibidos, guerras nas estrelas, humanos perdidos no espaço. Nós nos enturmamos na galáxia.
Em obras de ficção, sim, havia ETs na Terra. Raros, na verdade. Voltaire criou um no século XVIII, Micromegas, para dar lições de humildade aos homens. Famosos mesmo ficaram os marcianos do escritor inglês H.G. Wells, de 'A Guerra dos Mundos' (1898), que invadem a Terra em busca de sobrevivência, após exaurir seu planeta. Foi adaptada para o rádio (numa versão assustadora feita por Orson Welles) e para o cinema.
Depois que aquele piloto relatou ter visto discos voando sobre o estado de Washington, pessoas começaram a ver ETs pelo planeta. Diz-se que assombração sabe para quem aparece: extraterrestres também sabem.

O cinema se habituou a representá-los como monstros apavorantes interessados em destruir a humanidade. Que eu me lembre, só recebemos um visitante bonzinho, o Klaatu de 'O Dia em que a Terra Parou', e o tratamos mal. Até que Steven Spielberg nos deu o seu frágil ET queridinho.
O Super-Homem, na minha opinião, é o mais queridinho dos ETs. Tão gente boa que nem é visto como extraterrestre, e sim como um de nós. Profissional sério, namorado fiel, bom filho, discreto, bem-arrumado, incorruptível, da paz... — e pronto para resolver qualquer parada duríssima. Quem nos dera se, no próximo dia mundial dos discos voadores, uma revoada deles deixasse por aqui uma brigada desses ETs do bem. Estamos precisados.

sábado, abril 09, 2011

A viagem do beijo


A viagem do beijo
IVAN ÂNGELO - Revista Veja SP
Gosto da ideia de que o beijo se espalhou pelo mundo na rota do cristianismo. A partir de costumes dos antigos judeus, gregos e romanos, costumes que se encontraram, se intercambiaram e se difundiram no Mediterrâneo, o beijo foi ganhando lentamente a Europa, a Ásia Menor, os mundos novos conquistados.
Os bárbaros europeus do leste e do norte, os aborígines do Atlântico Sul, do Índico e do Pacífico, os nativos das três Américas, os africanos — nenhum desses povos tinha o hábito do beijo, fosse como cumprimento social, fosse como gesto amoroso. A novidade espalhou-se por onde se espalharam a cultura mediterrânea e o cristianismo.
Ainda hoje há povos sem beijo: nossos índios do mato fechado (não os aculturados), os lepchas do Himalaia, pigmeus das ilhas ao sul da Índia, vietnamitas, somalianos, tribos de bantos da África Central, povos asiáticos nos escondidos do mundo — mas, aonde chegaram os costumes dos povos cristianizados, chegou o beijo.
Em diversas regiões do globo, havia agrados ligeiramente parecidos com o beijo, como cheiradinhas pelo rosto e esfregadinhas de nariz, não o boca a boca; lentamente, ele foi conquistando territórios cada vez mais longínquos.
No Japão, raros beijos em gravuras do século XIX mostram que os amantes mais escolados se beijavam entre quatro paredes de bambu, mas não havia o costume, e me garantem que os japoneses só ganharam uma palavra única para designar o beijo (kissu, que veio do inglês kiss) após a II Guerra Mundial e a ocupação americana. Nessa longa viagem pelo tempo e pela geografia, o beijo amoroso nunca teve, como agora, tanta liberdade e visibilidade. As artes e os meios visuais funcionaram como propaganda.
Não se busca mais o escondidinho próprio para o beijo, como eram o portão pouco iluminado das casas, a varanda, o carro, os bancos mais discretos da pracinha, o escurinho do cinema — porque os portões se tornaram grades de fortalezas, não há varandas senão para churrasco, carro parado em rua deserta é um perigo, praças foram tomadas por mendigos, cinema é para pipoca.
Não há lugares próprios justamente porque todo lugar se tornou próprio, e nada parece mais próprio hoje em dia do que as estações de bairro do metrô paulistano, ao anoitecer. Beija-se aí mais do que nos parques, acreditem. E não é que alguém esteja partindo, adeus, adeus, meu amor. Nada disso. É beijo bem beijado, de encontro marcado. As ruas tornaram-se perigosas; namorar ali é mais seguro.
Beijo é linguagem. Emite sinais diferentes em cada situação: amizade, respeito, submissão, interesse, compromisso, amor, licença para avançar, paixão, entrega, volúpia. Ultimamente, por estimular no organismo a produção de substâncias que provocam sensações agradáveis, o beijo entre os muito jovens tornou-se um fim em si mesmo. Basta beijar bastante, nem é preciso ir em frente.
Por que dizem que a mulher se lembra do primeiro beijo e o homem mal se lembra do último? Essa me vai parecendo uma ideia ultrapassada. É certo que ele era mais banal para os homens, porque as mulheres relacionavam os beijos ao amor e os homens os relacionavam à oportunidade. Em consequência, conseguiam beijar mais do que elas.
Eles inventaram o beijo roubado para atropelar a relutância romântica delas. Leis modernas transformaram em crime de assédio o beijo roubado, que enfeitou poemas, canções e folhetins de séculos passados. Na verdade, ele veio perdendo prestígio porque, também para elas, beijar se tornou uma questão de oportunidade. O beijo se libertou do amor.
Não me entendam mal. O beijo se libertou do amor, mas o amor não se liberta do beijo.

Skoob

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