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sábado, outubro 16, 2010

Cliente indesejado

Cliente indesejado
CELSO MING – O Estado de São Paulo
Os planos de saúde têm horror a associados com mais de 60 anos. Às vezes com um certo jeito, e outras com truculência, fazem de tudo para alijá-los do seu sistema.
A expectativa de vida da população está aumentando e os administradores de medicina de grupo parecem despreparados para enfrentar a transformação da pirâmide etária. Comprometeram-se a fornecer um pacote vitalício de serviços de saúde em troca de uma mensalidade previamente acertada, mas não estão entregando o contratado.
Há de tudo na história do setor. Há as empresas que cresceram como massa fermentada, sem planejamento estratégico e sem preocupação com alocar adequadamente seu patrimônio e depois quebraram. Há aquelas que fixaram as mensalidades em níveis relativamente baixos, apenas para arrebanhar associados e, depois, repassá-los para frente. E há outras que cresceram sobre bases atuariais relativamente sólidas, mas que, depois, foram apanhadas por essa surpresa demográfica, o rápido envelhecimento da população.
O fato é que as mensalidades dos planos deixam de caber no bolso à medida que os cabelos brancos do associado vão aparecendo. No modelo atual de cobrança, os planos individuais chegam a custar até seis vezes mais para uma pessoa acima de 60 anos. O reajuste - na ordem de 500% - foi autorizado pela Agência Nacional de Saúde (ANS), organismo criado há dez anos para colocar em ordem o setor.
Uma pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostra que as despesas com saúde para os sessentões chegam a ser seis vezes superiores às da primeira faixa etária (0-18 anos). Em geral, atingem uma população financeiramente enfraquecida, ou porque vive de aposentadoria ou porque não consegue (ou não tem) renda complementar. E isso piora tudo.
A questão do momento consiste em descobrir a saída para o impasse. O diretor da ANS, Maurício Ceschin, admite que a maioria das operadoras de planos de saúde enxerga o idoso apenas como problema. Para mudar essa percepção, adianta que a agência estuda um novo modelo para o atendimento dessa faixa. Consiste em desenvolver uma espécie de fundo de capitalização cuja mensalidade desde o princípio preveja cobertura para o custo do tratamento de saúde na idade avançada. Isso pode solucionar o problema para os novos associados, mas não os daqueles que já estão no sistema.
Investir em prevenção é quase um mantra no setor. Trata-se de evitar as doenças crônicas que aparecem com a idade ou, então, garantir qualidade de vida às pessoas que têm de conviver com elas por anos e anos. A pessoa mais velha não precisa de helicóptero para uma emergência, precisa de atendimento contínuo, aponta o especialista Renato Veras, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade da Uerj.
Mas isso não é tudo. Ceschin diz que este é o momento certo para que as operadoras comecem a pensar novas opções para atendimento específico dessa faixa do mercado. É também o que pensa Veras. Para ele, o erro das administradoras de planos de saúde é tratar todos os segmentos etários do mesmo jeito. O idoso precisa de mais cuidados, mais exames, remédios, consultas, etc. É necessário tratamento diferenciado, diz. Falta saber em que bases atuariais.

quarta-feira, julho 28, 2010

A competência contra a evidência

A competência contra a evidência

Thelman Madeira de Souza *, Jornal do Brasil

RIO - Infelizmente, em nosso país, os planos de saúde levam a lógica do lucro às últimas consequências. Para isso, contam com a medicina baseada em evidências.
  Essa modalidade de medicina nasce, na década de 70, sob os auspícios dos epidemiologistas britânico Archie Cochrane e canadense David Sackett. Inicia-se, assim, um movimento em busca de evidências orientadoras de condutas médicas. Com essa nova orientação, a medicina baseada na experiência do médico, no seu conhecimento científico e no respeito ao paciente, é descartada. Em seu lugar, e para o interesse da indústria farmacêutica e dos planos de saúde, entra a medicina por evidência, uma anomalia da prática médica. Esse novo caminho da ciência médica afasta-se da tradição hipocrática e desemboca no campo dos experimentos clínicos estatísticos e controlados, em que a análise do risco/benefício não passa pelo paciente mas pelos possíveis prejuízos de empresas prestadoras de serviços médicos. Essa criação substitui a experiência e a capacidade de observação do médico pelos diagnósticos e tratamentos padronizados com base em dados estatísticos.
Os brasileiros, esfolados por impostos que não se transformam em serviços públicos de qualidade, obrigam-se a buscar, fora da rede pública de saúde, uma assistência médica supostamente melhor que a oferecida pelo governo, mas tão precária quanto a outra: a disponibilizada pelos planos de saúde, que fazem dos usuários prisioneiros e vítimas. Desgraçadamente, as pessoas imaginam encontrar um atendimento de qualidade, em hospitais privados de ponta. Para a classe média, a obtenção deste “atendimento diferenciado”, por conta do seu alto custo, só pode se dar, via um plano de saúde. No entanto, se alguém paga, com o sacrifício de outras necessidades, um valor exorbitante por um plano de saúde, se depara com cláusulas contratuais desfavoráveis. Os contratos draconianos impostos por essas operadoras prometem aos seus consumidores o que não podem cumprir. Honrá-los significaria abrir mão de lucros escorchantes, e empresários inescrupulosos jamais fariam isso.
Em meio a esse contexto de lucro a qualquer preço, a medicina baseada em evidências cai como uma luva para os desígnios inconfessáveis dos planos de saúde. Com essa prática médica, apoiada em estudos estatísticos, onde se distorce o significado epistemológico de evidência, categoria fundamental da ciência, surge o menosprezo à experiência e ao conhecimento científico do médico. Segundo alguns críticos desta medicina, a falta de evidência de benefícios e a falta de benefícios não são a mesma coisa, e, quanto maior o número de dados, mais difícil se torna comparar os resultados dos pacientes apresentados pelo estudo com o particular paciente, cujo problema médico criou a necessidade da pesquisa dos dados. A medicina baseada em evidências contrapõe-se à medicina da competência, porquanto os resultados da primeira não podem generalizar-se indiscriminadamente a todos os segmentos da sociedade. Valoriza-se, então, a doença e transforma-se o doente em um número. A medicina que valoriza a clínica cede espaço às condutas médicas com base em protocolos. O doente deixa de ser tratado por um médico e passa ser tratado por um conjunto de regras e procedimentos, desconsiderando-se aquilo que caracteriza o indivíduo, que o distingue dos demais, que é a sua individualidade. Essa medicina da moda apresenta um forte viés de mercado. Por isso, os planos de saúde, por exemplo, a Amil Assistência Médica, são grandes defensores do método, porque almejam a padronização dos atendimentos para a redução de custos e controle sobre terapias e exames.
Com esse quadro desfavorável, muitos médicos começam a questionar a medicina baseada em evidências. Ora, se o conhecimento produzido por uma universidade deve ser submetido a uma análise crítica, pois envolve conflitos de interesses, imagine o produzido dentro de uma instituição voltada para o atendimento de convênios que exigem “protocolos” de conduta médica, além de velocidade na resolução dos casos. Se faltam instrumentos eficientes, para criticarmos a ciência médica nas condições normais, que dizermos das produzidas nas novas condições exigidas pelo “mercado da saúde”? O espectro da ganância e do desrespeito aos contratos ronda os usuários dos planos de saúde.
* Médico Aposentado  22:33 - 27/07/2010

Skoob

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