segunda-feira, outubro 18, 2010
A carne é forte
A carne é forte
Sergio Britto – O Globo - Revista
Há poucos dias, acordei pensando em meu irmão, Hélio, e na mulher dele, Nena.
Os dois viveram juntos por 40 anos. Todas as vezes em que eu os encontrava, eles estavam de mãos dadas, abraçados, agarrados, fisicamente próximos. Uma vez, e olha que eles já estavam juntos há décadas, Hélio me contou que eles faziam amor todo dia. Nena morreu de câncer e, logo antes de morrer, pediu ao marido: — Hélio, não fica sozinho, você precisa arranjar uma mulher.
Para mim, foi uma das maiores provas de amor já presenciadas: o reconhecimento do outro como ele realmente é — no caso do meu irmão, uma pessoa muito sensual, ou sexual. E ela não queria que ele estivesse só.
Tenho vivido em cena um personagem impotente. A impotência dele, mesmo que não seja discutida abertamente pelo texto, é como se fosse uma névoa pairando todo o tempo, envolvendo os personagens. Aquele casal, junto há cinco décadas, ainda vive o rescaldo, o resto de um sopro de paixão, a lembrança do tesão que envolveu os dois na juventude. Essa perda do poder, da potência, é a espinha dorsal da amargura desses dois septuagenários — ele, com raiva; ela, com ressentimento. Eles se lembram do carinho, têm uma afeição que sobrevive ao tempo e à decadência física; só que a amargura e a sensação de aprisionamento são muito fortes.
Tesão, carinho, cumplicidade, amizade, respeito, admiração. Ou, simplesmente, amor. Amor, para mim, é uma grande mistura de tudo isso, um blend que traz sentimentos diferentes, em diversas proporções.
Há momentos na vida de um casal em que predomina um desses elementos, e isso é um processo natural. Mas, numa longa relação, quando o tesão diminui, ou o carinho, digamos, tira umas férias, manter a chama do amor é um desafio a ser superado.
E quando algum desses elementos vai embora de vez — e a coisa mais comum é que o tesão mude de mala e cuia, porque paixão física em geral acaba mesmo —, a gente precisa repensar os caminhos.
O amor físico pode ficar banal, repetitivo, mas, apesar disso, pode ser base de um relacionamento, por que não poderia? O sexo pode não ser tudo, mas significa tudo, tem um sentido que está presente em todos os níveis de um relacionamento amoroso. E entendo isso em relação a qualquer tipo de casal, não importa o sexo.
Eu poderia dizer que nunca fui fiel, mas prefiro dizer que nunca fui infiel — só que, a cada vez que me chegou um novo apelo, não via motivo para resistir, para não ir em frente. Naturalmente que o tempo acalma a urgência de tudo, traz uma tranquilidade, até mesmo um distanciamento.
Mas ainda hoje, aos 87 anos, sinto a força do amor físico e atendo a esse chamado com menos intensidade, mas atendo.
Veja a melhor cena da história do cinema
Chaplin é como sempre um vagabundo.
Marcelo Migliaccio – Jornal do Brasil
Mas ele se encanta por uma florista cega e passa a ajudá-la. Conhece um milionário que só é seu amigo quando está bêbado e a florista o toma como um ricaço.
A duras penas, antes de ser preso, o vagabundo consegue dinheiro e dá à jovem para que faça uma cirurgia.
Os dois nunca mais se encontram até esta cena, a última do filme:
Com a franqueza de ex para ex-presidente
Com a franqueza de ex para ex-presidente
Wilson Figueiredo - JORNAL DO BRASIL (online)
Coube a um ex-presidente lembrar ao presidente que, em dois meses e picos, estarão finalmente nivelados pela condição de quem deixou de ser. Acabou. Mas não é tão simples. Falando de ex para ex, em plano de igualdade, batem de frente dois egos explosivos, mas – o mineiro com a vantagem de portador de mandato de senador novo em folha – Itamar Franco encarregou-se de alertar o presidente Lula sobre o desconforto de ficar sem os berloques do mandato. Avisa que, sem a veleidade de atenuar o choque com a franqueza, que é sua marca, o presidente vai aprender que “o poder não é eterno”, “um dia tudo acaba” e “vai ver o que é bom depois de deixar o poder”. A ordem dos fatores não altera o produto.
Entrevista de Itamar Franco não costuma ser o que Marques Rebelo definiu como “tricô de vácuo”, que é dizer o óbvio para aproveitar o microfone oferecido pelo repórter. E Lula especializou-se, depois que o mensalão derrubou a estrutura da Casa Civil na metade do primeiro mandato, em usar o microfone como quem faz psicanálise. Não deixa de ser uma terapia aberta. Aliás, escancarada. Segundo os lulistas mais próximos, o acidente de percurso – o mensalão – ocorreu antes que fosse tarde. Do ponto de vista da oposição, apanhada no contrapé, foi cedo demais. Estava despreparada para tirar proveito do espetáculo que não estava no programa. Ainda fumegam as cinzas do incêndio que lavrou na casa de comando operacional do primeiro mandato e chamuscou agora a própria candidatura da que viria a ser a maior beneficiária: Dilma Rousseff. Quem pagou a conta da despesa que não foi exclusivamente dele foi José Dirceu. Uma coisa levou à outra: Lula bateu de frente com a resistência ao terceiro mandato, contornada com um desvio (o empréstimo do quadriênio a Dilma Rousseff, sem reeleição) e fez da Dilma sua peça. Mais uma vez, o preterido foi José Dirceu.
Trata-se de assunto eterno, no molde resolvido definitivamente entre o escultor Pigmalião e sua obra-prima, com a interferência da deusa Afrodite. Celibatário por princípio e desgostoso com o padrão feminino vigente na ilha de Creta, Pigmalião se propôs esculpir a imagem da mulher perfeita e, terminada a obra, sucumbiu aos seus encantos. Recorreu então à deusa Afrodite, que atendeu ao seu pedido e deu vida à escultura. É o que, em psicologia, se chama de efeito Pigmalião, que vem a ser a maneira humana de se comportar em relação às nossas expectativas. Pelo menos no modo de dizer, Pigmalião encaixou as expectativas na realidade, de acordo com os seus desejos.
Desde o começo, Lula vive, em relação à candidatura Dilma Rousseff, o problema de Pigmalião, mas, para cima, não tem a quem apelar. Apelou para baixo, e a campanha eleitoral, com Dilma no papel da escultura, se enrolou em assuntos marginais, como aborto, retalhos metafísicos e matéria de que não se cogitava em Chipre.
O episódio de Pigmalião foi adaptado ao teatro por Bernard Shaw, mas no figurino dos tempos modernos: o personagem Henry Higgins, um professor de linguística, preferiu trabalhar com uma jovem de origem popular (Eliza Doolittle), que se exprimia em gíria estridente, e a transformou em mulher da sociedade inglesa, com pronúncia perfeita. Lula, no papel de Pìgmalião, podia ter aproveitado a deixa (que o cinema popularizou no musical My fair lady) e agregado à sucessão um toque sofisticado de esquerda. A crer nas pesquisas, aceitou o risco de ficar para outra oportunidade, que não há de faltar.
A não ser, claro, que a própria Dilma Rousseff, com a ajuda de Afrodite. se habilite à tentação de dar uma dentada no segundo mandato que, no caso de ser bem sucedida agora, deixará a maçã ao alcance de seu gesto.
Voltando ao Brasil, o senador Itamar Franco vocalizou com veemência, enquanto é tempo de prevenir, tudo que os demais, na mesma situação de ex-presidentes, mesmo estando de acordo, deglutem com dificuldade. Ele, Itamar, porém, optou pelo contrário. Movido pela indignação cívica, o ex-presidente rasgou o verbo: entende que não pode mais ser condescendente com o personagem que saiu do texto. E, aproveitando a oportunidade, declara-se enfarado com Dilma Rousseff, que é candidata de uma nota só, e fala sem convicção, como se tivesse decorado o texto de autoria alheia.
Itamar proclama: “Lula não é um democrata!”... “Nunca antes neste país...”.
Nunca mesmo se viu tanto desrespeito ao exercício do mandato presidencial. Tudo é ele. Ninguém faz nada, ele faz tudo, principalmente o que não devia. Só Lula sabe o que é bom para este país? Que se ouçam as urnas, porque s pesquisas não dizem tudo.
Eles estão surdos
Eles estão surdos
FERNANDA TORRES
Candidatos fecham o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo numa massa sonora sem relevância
HORÁCIO, o amigo confidente de Hamlet, passa toda a tragédia de Shakespeare servindo de ouvido para as angústias do príncipe. No fim, recebe a incumbência de contar às futuras gerações a história do herói, mas a peça termina antes que possa fazê-lo.
Preencher os longos momentos de silêncio, testemunhando todos os dias as mesmas palavras, é exercício fino de atuação. Horácio conduz a poesia por meio de sua atenção e ajuda a fazer a ponte entre Hamlet e o espectador.
O ator Pedro Cardoso costuma dizer que o mundo é feito de monólogos. Segundo ele, ninguém presta realmente atenção no que o outro está dizendo. O ouvinte, no fundo, só espera a pausa do interlocutor para sair falando o que pensava enquanto o parceiro gastava o verbo.
O virulento debate entre os dois candidatos que restaram é um exemplo típico da teoria do Pedro.
Com apenas dois lutadores na arena, a necessidade de contrapor as diferenças triplicou. É forçoso impedir que o recado do oponente chegue ao eleitor. Cada um enaltece sua versão absoluta da realidade e despreza a do concorrente. Qualquer possibilidade que não seja a própria vitória é apresentada como uma catástrofe de proporções bíblicas.
Como sofro de pessimismo crônico e desconfio das vacas gordas, tendo a concordar com as previsões funestas.
A descrição de José Serra do que será o Brasil nas mãos de Dilma Rousseff, tomado por barganhas políticas de cargos nos setores estratégicos e perseguido pela execução sumária dos opositores, me causa arrepios.
Da mesma maneira, tremo quando Dilma prevê o fim da justa distribuição de renda pelas mãos do PSDB ou recorda o processo de privatização no reinado tucano.
Meu impulso é sair estocando comida, água e papel higiênico para me preparar para o dilúvio eminente.
Eu sei que é ingenuidade achar que uma corrida eleitoral acontece na gentileza, mas estou com dificuldade de discernir o real do imaginário, a justiça da calúnia, e me preocupa a falta de perspectiva de diálogo futuro entre os dois oponentes.
Nas edições compactas do debate da Band na internet, o vírus da incomunicabilidade se mostra mais agressivo.
A montagem que favorece Dilma é extraordinária. Editaram apenas o início das respostas de Serra ao final de cada uma das assertivas intervenções da petista. Dilma desanca a suposta intenção de privatização da Petrobras por parte do opositor e Serra responde lacônico: "Sempre voltam a essa questão."
Ponto. E Dilma cai novamente de sola em cima do passivo adversário.
O corte é tão cirúrgico que consegue fazer com que Serra concorde com todas as acusações de Dilma.
O vídeo exemplifica a maneira como os candidatos preparam a escuta na corrida eleitoral. Ao contrário do que se exige do ator que encarna Horácio, o candidato deve fechar o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo, também para o eleitor, em uma massa sonora sem relevância.
Como dizia o rei Roberto: eles estão surdos!
FERNANDA TORRES é atriz
A universidade do futuro é dos velhos
A universidade do futuro é dos velhos
GILBERTO DIMENSTEIN - FOLHA DE SÃO PAULO - 17/10/10
A bomba da aposentadoria é mais um daqueles temas, que está passando longe do discurso dos candidatos
COM BASE EM UMA investigação realizada nos últimos 20 anos com americanos acima de 50 anos de idade, cientistas da Universidade de Stanford, especializados em estudos da longevidade, sustentam que a aposentadoria prejudica a memória e, portanto, acelera a decadência do indivíduo. A razão: a falta de uso tiraria o vigor do cérebro. Semelhantes conclusões são encontradas em pesquisas realizadas em outros 12 países europeus.
Esses dados foram divulgados na semana passada, no mesmo dia em que o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou uma projeção sobre o envelhecimento da população brasileira- defendendo que o país deveria mudar urgentemente sua visão sobre o que é ser velho. Num futuro breve, a idade média do nosso trabalhador será de 45 anos. Na apresentação dos dados, os pesquisadores daquele instituto relacionaram a aposentadoria como mais um estímulo de problemas como a depressão e o alcoolismo.
A bomba da aposentadoria é mais um daqueles temas que estão passando longe, por motivos óbvios, dos discursos dos candidatos à presidência. No entanto, ficará- na marra- na agenda do país.
Para ser mais preciso, quando isso aparece no debate eleitoral é uma ilusão, para dizer o mínimo. José Serra promete um reajuste de 10% no valor das aposentadorias e mais um aumento do salário mínimo dos brasileiros, para R$ 600,00. Todos os especialistas consultados por esta coluna me informam que, apenas na previdência, essas medidas custariam por baixo mais R$ 11 bilhões -o equivalente a todo o valor do programa Bolsa Família. Isso representaria mais uma pancada num deficit da previdência projetado, para o próximo ano, de R$ 41 bilhões.
Lembremos que ele já tinha proposto duplicar o Bolsa Família, dando-lhe, além disso, um 13º.
Some-se o buraco provocado pelas aposentadorias dos servidores, estimado em R$ 27 bilhões.
Dilma Rousseff fica espertamente calada diante das promessas de seu concorrente, José Serra, embora saiba que essa conta não fecha. Até porque está longe do topo das prioridades do PT mexer em interesses corporativos. O PT, afinal, é um dos responsáveis pelo buraco da aposentadoria dos servidores federais, por deixar de aprovar lei aprimorando sua contribuição.
Somos um país em que quase ninguém se escandaliza com o fato de que professores universitários se aposentam ainda jovens. Entre nas grandes universidades americanas, incubadora da maioria dos vencedores do Prêmio Nobel, e veja o número de mestres e pesquisadores ainda trabalhando com mais de 80 anos de idade.
Há uma discussão ainda mais complexa do que as questões fiscais, embutida na projeção do IPEA- de que, em breve, a idade média do trabalhador será de 45 anos- e é uma discussão essencialmente educacional.
Isso significa que haverá bem menos jovens e que as empresas terão de saber lidar com empregados mais velhos. Serão demandados programas ainda mais intensos de reciclagem profissional. Não se vai poder mais parar de estudar.
As boas empresas vão se assemelhar a escolas, com investimentos crescentes em universidades corporativas.
Já há sinais palpáveis desse movimento. Além da disseminação das chamadas universidades corporativas, nada cresce mais no Brasil do que ensino a distância, cujos alunos, em média, têm nota mais alta do que a dos cursos exclusivamente presenciais. A explicação: são alunos mais velhos e responsáveis.
Outro sinal é a propagação da matrícula no período noturno. Em São Paulo, uma universidade está oferecendo cursos de madrugada: as aulas começam às 23h e acabam quase às 2h.
Estamos vivendo na era da aprendizagem permanente. Estuda-se o resto da vida nos mais variados lugares. Daí que, podem apostar, a universidade do futuro, nas quais não se vai mais distinguir o virtual do presencial, será dominada pelos velhos.
PS- Para mim, esse sonho da aposentadoria é um pesadelo. É o que indica aquelas pesquisas sobre a memória. Deveríamos ensinar à criança, desde o berço, que a vida só se torna uma bela aventura, com sentido, se não pararmos de ter curiosidade, de aprender e de criar. Fazer planos para não fazer nada é a morte.
Lula superou a loucura cambial tucana
Lula superou a loucura cambial tucana
Desde o início do mês o dólar está abaixo do valor real que tinha em 1998, durante delírio do tucanato
ELIO GASPARI – O Globo
DESDE O DIA 30 de setembro, quando o dólar caiu abaixo de R$ 1,70, a turma do Comitê de Politica Monetária do Banco Central conseguiu quebrar a marca do câmbio tucano. A taxa efetiva do dólar, descontado o diferencial das inflações brasileira e americana, está poucos pontos percentuais abaixo do valor de 1998. Nosso Guia não conseguiu empurrar o país para o cotidiano da República Velha, quando se consumia manteiga francesa, mas a marca Président (sem ironia) já é vendida a R$ 5,50, contra R$ 4,15 de um bom produto nacional.
O dólar a R$ 1,66 corrói a produção brasileira. Revendendo algumas compras, sai mais barato passar o feriadão em Miami do que em Salvador. A deusa da fortuna botou essa coincidência aos pés de José Serra no auge da campanha eleitoral. Velho adversário dos juros altos e do dólar baixo, até hoje o tucano mal tocou no assunto. Será difícil para Dilma Rousseff insistir em que o câmbio chegou a esse ponto porque recursos externos estão entrando no Brasil. Afinal, centenas de milhões de dólares vêm para Pindorama porque aqui canta um sabiá chamado NTN-B. Trata-se de uma papel que remunera o investidor com a taxa da inflação, mais 6,15% ao ano. No mercado americano o Fed oferece 1,18%, a seco.
A discussão da taxa de juros brasileira e dos poderes extraconstitucionais que o Copom tem tornou-se um assunto tedioso, velha de 15 anos. Ela bem que poderia ser reaberta a partir de uma proposta simples: os nove sábios do Banco Central passam a preservar os áudios de suas reuniões, obrigando-se a divulgá-los num prazo de cinco anos. Assim cada um deles fica responsável pelo que diz e faz. Uma medida dessas aproximaria o Copom da instituição que gostaria de ser. O Federal Reserve Bank, seu equivalente americano, divulga suas discussões depois de um embargo de cinco anos.
Graças a esses áudios estudam-se hoje alguns erros cometidos durante o mandarinato de Alan Greenspan no Fed.
LEI DE MARCO
O humor seco do ex-vice-presidente Marco Maciel ("As consequências vêm depois") ajuda a racionalizar a ansiedade de quem acompanha pesquisas eleitorais. Com ele aconteceu o seguinte: reunido com um marqueteiro, ouviu:
- Nosso candidato está em segundo lugar, em ascensão. O adversário lidera, mas está em queda.
Ao que Marco Maciel perguntou:
- Na sua opinião a intersecção das duas linhas ocorrerá antes do dia da eleição?
MADAME NATASHA
Madame Natasha :) de redes sociais, mas fica :( com o mau uso do idioma. A senhora concedeu uma de suas bolsas de estudo ao gerente para o Brasil do Facebook, Julio Vasconcellos, pela seguinte parolagem:
"Não acredito que a solução governamental seja adequada, mas sim que ocorra uma mudança comportamental do próprio ecossistema financeiro. A alocação do capital-semente dentro de grandes fundos de investimentos pode ser uma boa forma de alimentar o "pipeline" para investimentos futuros." Ela acha que o doutor quis dizer o seguinte: "A solução proposta pelo governo é ruim." ;)
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota, acredita em tudo o que as autoridades dizem, mas sempre precisa que lhe expliquem direito. Ele não entendeu uma declaração de Paulo Vieira de Souza, ex-diretor de engenharia da Dersa, a estatal Desenvolvimento Rodoviário de São Paulo, à repórter Andrea Michael.
"Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro." O doutor ocupou o cargo de 2006 a abril deste ano e foi acusado por Dilma Rousseff de ter sumido com R$ 4 milhões arrecadados por conta própria com empreiteiros.
NOTURNO DA LAPA
Um lance de criatividade iluminou as noites do coador de macarrão da Catedral do Rio de Janeiro, transformando-o num lindo espetáculo. A instalação permite o uso de sete cores (verde e amarelo em dia de eleição, azul celeste no dia de Nossa Senhora).
Com todo o respeito, como diria Ancelmo Gois, as melhores roupas da catedral talvez sejam o azul e vermelho, juntos. Com elas, reencontram-se a igreja e aquele pedaço do Rio cantado por Manuel Bandeira:
"Lapa -Lapa do Desterro- ,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria.
Que graças angelicais!)"
SERRA ATRASADO
Contumaz retardatário, José Serra conseguiu bater todas as suas marcas. Chegou com 46 anos de atraso à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que juntou 200 mil pessoas no centro de São Paulo manifestando-se contra o governo de João Goulart.
A "Marcha da Família" foi a maior manifestação popular de 1964. Doze dias depois de sua realização, Goulart foi deposto.
Segundo o cônsul americano na cidade, "quase todas as famílias das classes médias e alta estavam representadas, com pequena participação das classes mais baixas".
Quem deu musculatura à manifestação foram organizações religiosas e líderes políticos. Anos depois, as senhoras que lideraram a marcha tornaram-se um estorvo para os generais.
A ANEEL QUER NOVOS MEDIDORES DE ENERGIA
A Agência Nacional de Energia Elétrica decidiu ouvir a patuleia em audiência pública para decidir a substituição dos atuais medidores de consumo por novos modelos. Pelo projeto, quando a decisão for tomada, as distribuidoras de eletricidade terão 18 meses para usar os equipamentos em novas instalações, bem como na substituição dos modelos antigos. Num prazo bem maior, estimado em dez anos, seriam substituídos todos os 63 milhões de relógios existentes no país.
Os novos medidores são mais eficientes e versáteis e, segundo a literatura oficial, não terão custo para a choldra. Não existindo almoço grátis, fica difícil entender como existirá boca livre para medidores. Cada relógio custará entre R$ 200 e R$ 400 contra R$ 50, no máximo, dos modelos atuais. Estimando-se que a rede nacional demande 2,5 milhões de novos medidores a cada ano, o negócio custará em torno de R$ 722 milhões anuais. A substituição gradativa de todos os medidores do país sairá por R$ 18 bilhões, o custo da hidrelétrica de Belo Monte.
Até aí, tudo bem. O risco de curto circuito começa quando se sabe que o equipamento para fabricar os medidores será importado, provavelmente da China. Como a audiência pública permitirá o debate, será possível saber porque a Aneel quer impor ao mercado do interior de Roraima os mesmos padrões de Curitiba e Salvador. Em São Paulo e no Rio, as concessionárias já usam medidores sofisticados e passam bem, obrigado.
A cidade que não dorme
A cidade que não dorme
MARTHA MEDEIROS – O Globo - Revista
Estive em Nova York pela primeira vez em 1992. Gostei, mas não me apaixonei pela cidade, então retornei agora, 18 anos depois, para dar uma segunda chance a nós duas. De novo, não houve química.
Não sou maluca de desprezar a capital do mundo: é um lugar magnético. Mas como toda pessoa exuberante e segura de si, ela custa a permitir um envolvimento, o que de certa forma confirma um dos aspectos da sua modernidade: quem quer se envolver hoje em dia? Pois pertenço ao reduzido grupo de nostálgicos que ainda gostaria. Estando com os dois pés cravados em Manhattan, me senti distante de tudo o que prezo: contemplação, prazer, intimidade. E fiquei com a incômoda sensação de que o planeta inteiro está avançando para um estilo de vida muito parecido com o do nova-iorquino, ainda que eu não concorde que o verbo “avançar” aqui se aplique.
Entre outras coisas, me incomodou o impulso de consumir. Não é obrigatório, claro. Pode-se passar os dias meditando sobre a grama verde do Central Park, caso se tenha vocação para hare krishna. Mas, quando viajamos, é praxe trazer alguma lembrança, comprar algo que não existe em nosso país (ainda que tudo exista no nosso país desde que inventaram os sites de venda), bisbilhotar livrarias, descobrir algum lançamento em cosméticos, enfim, cada um escolhe o suvenir que fixará a viagem na memória.
Consumir por consumir não é pecado mortal, mas o discernimento é jogado no lixo assim que se aterrissa no aeroporto John Kennedy. Você tem que comprar um lençol de 500 fios na Century 21, tem que comprar cashemere barato na Uniqlo, tem que comprar algum eletrônico na megaloja da Apple, tem que reservar uma mesa no Spice Market, tem que ver a última mostra do MoMA, tem que assistir ao musical que todo mundo está comentando. Qual o problema, sua provinciana? Isso não é animador? É animador e um pouco aflitivo. Até o lazer, em Manhattan, parece business.
A integração com a cidade se dá através do máximo que se puder fazer/comer/assistir em um dia. Parece que estão todos sendo regidos por uma agenda imaginária que precisa ser cumprida para que se alcance um índice de produtividade decente.
Se você está surpreso com essa minha visão da cidade, toque aqui: também estou. Nunca tive essa reação em outros lugares do mundo, mas em NY eu senti desse jeito. Deve ser algo que colocaram na minha água.
A Big Apple tem espetáculos sublimes, museus espetaculares, lojas charmosas e preços encantadores.
E também milhões de solitários se relacionando intimamente com seus iPods, iPhones e iPads, ruas escuras e cinzentas porque a altura dos prédios impede a entrada do sol, excesso de gente, pouca classe e nenhum relax. A cidade nunca dorme e se orgulha disso: como é que caímos nessa conversa de que desenvolvimento se mede pela urgência, pela pressa, pelo ritmo insone da vida? Já tive mais compatibilidade com tudo isso.
Mudou o mundo ou mudei eu. Voltei tinindo por uma praia.
Email: martha.medeiros@oglobo.com.br
A moral especulativa
A moral especulativa
GAUDÊNCIO TORQUATO – O Estado de São Paulo
"A identidade de ideias não liga no Brazil os homens, mas sim a identidade de interesses, donde resulta que a moral predominante é a especulativa." A frase é do dr. Jaguaribe e o z do País mostra a grafia antiga, mais precisamente de 1889, e está impressa em seu livro Homens e Ideias. O pensamento abre este texto porque explica muito bem o clima do segundo turno desta que é uma das mais contundentes campanhas eleitorais da História e, ainda, porque o autor defendeu, em 1874, na Faculdade do Rio de Janeiro, uma tese em Medicina versando sobre temas relevantes para a época, entre os quais, "aborto criminoso e fraturas complicadas".
Após 120 anos, o alerta sobre as consequências do aborto feito pelo cearense Domingos Jaguaribe, fundador de entidades científicas e culturais, entre as quais o Instituto Histórico de São Paulo, passa a figurar na agenda dos candidatos à Presidência da República. Uma citação de Sêneca ao final de sua obra parece até vaticínio: "Os vícios dos tempos antigos passam a ser costumes de hoje." Basta conferir a estatística: uma brasileira morre a cada dois dias em consequência do que se chama de "aborto inseguro". No ano passado, mais de 183 mil mulheres sofreram complicações por aborto e curetagem.
Desde o final do século 19, como se pode aduzir, a questão do aborto faz parte da pauta da saúde pública no País. Desconsiderar a gravidade da situação por que passam milhares de brasileiras ou tentar escamotear o tema, deixando-o à margem das questões nacionais, constitui um gesto de desonestidade cívica, só explicável sob a régua da "moral especulativa" que guia a identidade de interesses dos nossos atores políticos. Nas últimas semanas, o assunto virou tabu. Quem se dispuser a discorrer sobre ele - mesmo inserindo-o na política de saúde pública - pode ser mal interpretado e até vir a ser considerado uma "pessoa contra a vida". A verdade é que de uns tempos para cá o aborto ganhou um foro extremamente emocional, e mais, passou a ser pautado por uma ótica exclusivamente religiosa. Os limites entre Estado laico e religião não resistem às pressões dos exércitos que atuam na retaguarda dos credos. A questão está mal posta.
Para início de argumento, nenhum ser humano, negando sua própria condição, pode ser contrário à vida. A defesa de princípios dogmáticos e morais, por seu lado, não deve impedir que uma temática, por mais polêmica, seja abordada de modo objetivo.
A lei brasileira, aprovada por 71% da população, segundo pesquisas, permite o aborto apenas nos casos de gravidez resultante de estupro e ante a ameaça de a mãe correr risco de vida. Ser favorável a este estatuto não significa, como se tem difundido nos subterrâneos da campanha eleitoral, aprovação de "mortandade de criancinhas". Uma coisa é defender políticas públicas de apoio à saúde da mulher, outra coisa é procurar disfarçar o debate franco e objetivo em torno da questão com apelos e mensagens subliminares que induzem o eleitor a imaginar determinados candidatos como a encarnação de Belzebu.
O mesmo argumento serve para desfazer o mito sobre o conceito da privatização. Um dos maiores feitos do Brasil contemporâneo, como qualquer pessoa poderá comprovar, bastando teclar o celular, foi o da privatização das telecomunicações, levado a cabo pelo governo Fernando Henrique. Hoje o País conta com 187 milhões de linhas de celular. Quem pode ser contra esse extraordinário avanço?
Portanto, cada coisa no seu devido lugar. Se algum político muda sua visão a respeito do escopo da privatização ou do aborto, curvando-se ao sentimento maior da população, deve ser aplaudido. Ortega Y.
Gasset ensinava: "Só os imbecis não mudam porque nascem com uma deficiência congênita." Pontos de vista contundentes, declarações que extrapolam o bom senso, ataques virulentos por meio de redes sociais, envolvimento de religiões com candidatos e partidos constituem, como se sabe, um arsenal à disposição da artilharia do marketing eleitoral.
Uma campanha, mesmo ferrenha e caracterizada por embate entre os grandes ajuntamentos partidários, há de obedecer a um mínimo regramento ético, sem o qual o eleitor será submetido a uma guerra sanguinolenta. Vencidos e vencedores serão responsabilizados pela extinção da chama ética e por esvaziamento das fontes morais. Casos escabrosos, versões estapafúrdias e até piadas de extremo mau gosto não podem tomar o lugar dos programas. Quando o destempero transborda do caldeirão eleitoral, todos acabam perdendo.
O eleitor precisa, é claro, conhecer a opinião dos candidatos sobre os mais variados temas. Mas a tática da emboscada, usada de maneira despudorada para desmoralizar perfis, tende a ser desastrosa. O teor de educação política de um povo depende também do grau civilizatório dos pleitos. O ciclo do sufrágio tem o condão de alargar o conhecimento do eleitorado, tornando-o mais envolvido nas soluções para suas demandas.
Parcela do acervo negativo, vale lembrar, é de responsabilidade do marketing. Engessados pelos marqueteiros, os candidatos, recitando mantras e refrãos, perdem autonomia e naturalidade, tornando-se peças de uma engrenagem. Encaixam-se em formatos gastos, que se desenvolvem desde os tempos exacerbados de Collor, quando a vida presidencial era um palco espalhafatoso. De lá para cá o que se tem visto é uma cobertura plástico-cosmética canibalizando conteúdos. Os debates, que deviam privilegiar grandes temáticas, acabam dando lugar ao estilo "tudo ou nada".
Afinal de contas, que desenho se extrai da paisagem eleitoral? Além dos aspectos pontuais voltados para o cotidiano - saúde, educação, segurança, assistência aos carentes, habitação, etc. -, poderemos ter esperança na reforma da política?
Continuaremos a conviver com alta carga de impostos? Poderemos acreditar numa reforma da Previdência? E na seara do trabalho, haverá semente nova capaz de mudar a feição da nossa burocracia sindical, sob a qual vegeta o neopeleguismo? Questões que permanecem no ar.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO
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