quarta-feira, junho 16, 2010

Dep. Cidinha Campos noticia instauração de sindicância contra Luiz Zveiter

Entre o sonho e a realidade

Entre o sonho e a realidade
Merval Pereira – O Globo

Ao contrário de Barack Obama nos Estados Unidos, que desafiou o sistema político tradicional por dentro do Partido Democrata e conseguiu vencer a favorita Hillary Clinton, viabilizando uma candidatura com a mobilização do eleitorado, especialmente a juventude, a candidata do Partido Verde à Presidência da República, Marina Silva, teve que sair do governo e do PT para viabilizar sua candidatura.
Com uma estrutura partidária incipiente, pouquíssimo tempo de propaganda na televisão e uma plataforma eleitoral que vende sonhos que alcançam uma parcela limitada de eleitores, enquanto a grande massa está anestesiada por políticas assistencialistas e uma sensação de bem-estar que, embora real, não tem bases estruturais que garantam sua permanência, ela tenta ser uma alternativa viável à polarização entre PT e PSDB.
Quando não se concorda com ela, é difícil criticá-la, tanto pela maneira suave, mas firme, com que defende suas ideias, como pela inequívoca seriedade com que as expõe. Suas teorias são ótimas, mas nada indica que sejam viáveis.
A ex-senadora Marina Silva se propõe a fazer política com transparência, pensando mais em um projeto de futuro para o país do que em manter o poder político à custa da estagnação dos avanços institucionais, que é o que detecta no nosso momento político.
Ela admite que as reformas necessárias para um avanço estrutural - da Previdência, tributária, trabalhista, política - são de difícil consecução, e se dispõe a viabilizar uma Constituinte para tratar desses temas espinhosos.
Com essa decisão, se exime, pelo menos neste momento da campanha, de explicitar quais são seus pontos de vista sobre cada um desses assuntos.
Mas convocar uma Constituinte, sem dar a ela parâmetros, pode resultar em uma falsa solução, com todos os movimentos sociais e lobbies interferindo no resultado final, sem que se chegue a um consenso.
Aliás, sempre que o assunto é polêmico, Marina Silva encontra no plebiscito uma saída.
Sobre o aborto, reafirmou que é contrária, mas defendeu um plebiscito sobre o tema, assim como sobre a descriminação do uso de drogas.
Mas voltou a reafirmar que é contrária ao casamento de homossexuais, apesar de reconhecer o direito deles de ter "uma união civil de bens".
Mesmo quando lida com dificuldades de sua biografia recente, como a demora para deixar o PT diante de escândalos como os do mensalão em 2005, Marina encontra uma maneira de se explicar sem os subterfúgios tradicionais dos políticos profissionais.
As questões éticas a abalaram, mas é sincera ao admitir que não foram preponderantes na sua decisão de sair do partido, pois acredita que elas existam em todos os partidos.
Poderia permanecer no PT lutando por dentro para tentar corrigir essas falhas. "Inclusive no meu partido, o Partido Verde (PV), eu tenho que lutar dentro dele para combater os problemas éticos, porque nenhum partido é perfeito. Eu mesma não sou perfeita", comentou a certa altura do programa "Roda Viva" de segunda-feira.
O que a convenceu a deixar o PT, depois de 30 anos de militância, foi a convicção de que não conseguira que a questão do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável fosse central para o partido e o governo.
Mas admitiu que o rompimento demorou, e comparou o processo ao fim de um casamento longevo, sem esconder a dificuldade que teve.
Sobre política de energia, aliás, ela vê falta de planejamento tanto no atual governo quanto no anterior, de Fernando Henrique, embora admita que houve avanço na área energética, após a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
"Tivemos ameaça de apagão no governo do presidente Fernando Henrique. No governo do presidente Lula, a gente sofre o tempo todo essa ameaça de apagão. Isso tem um nome: falta de planejamento", afirmou, numa crítica que atinge diretamente sua adversária Dilma Rousseff.
Ela também foi claramente contra a utilização da energia nuclear: "É uma fonte insegura e cara".
Uma de suas utopias é governar com uma maioria no Congresso que una o PT e o PSDB e setores de outros partidos, até mesmo o PMDB, para tentar fugir do fisiologismo que tornou seus antecessores reféns de uma política "pragmática" e não "programática", como deveria ser.
Ela quer preparar o país do futuro, mantendo os avanços alcançados nos governos Fernando Henrique e Lula. Ela quer discutir uma visão que antecipe os desafios do futuro, e é muito objetiva nesse aspecto: se o país não se preparar com pesquisas tecnológicas e a melhora da qualidade do ensino, não conseguirá assumir o papel que pode vir a ter num mundo multipolar em transformação.
Mas não consegue convencer da viabilidade de seu projeto, nem parece ter a força necessária para promover uma mobilização social que amplie seu eleitorado para além dos 10%, 12% com que aparece nas pesquisas.
Está literalmente emparedada por um sistema político que privilegia o assistencialismo e o fisiologismo, sem conseguir angariar apoios políticos que lhe permitam ampliar sua audiência.
A tentativa de sua equipe está em repercutir suas ideias através dos novos meios tecnológicos da internet: blogs, Twitter e sites de relacionamento social, como o Orkut e o Facebook.
Tudo na esperança de transformar os sonhos de Marina em uma onda junto aos jovens eleitores que possa ser amplificada para outros setores da sociedade.

Fandangos Suicidas

Concordo, CALA BOCA GALVÃO!!!

Reflexão - Entrevista - Páginas Amarelas – Revista Veja, 5 de novembro, 2008

"O filósofo francês Raymond Aron disse que o marxismo é o ópio dos intelectuais. 
Isso porque lhes oferece a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim da história. 
É natural que uma ideologia que afirme isso os seduza"



Demétrio Magnoli. Sociólogo e doutor em geografia humana, Magnoli integra o Grupo de Análises da Conjuntura Internacional, da Universidade de São Paulo, e é autor de mais de uma dezena de livros didáticos.

Fernandes, para Diário do ABC


Padre Vieira, um diplomata desastrado

Padre Vieira, um diplomata desastrado

Escolhido para negociar com os holandeses, que ocupavam o Nordeste brasileiro na década de 1640, o sacerdote quase levou Portugal a perder suas colônias na América

por Vasco Mariz - É historiador e diplomata aposentado. Ex-embaixador do Brasil no Equador, Israel, Chipre, Peru e Alemanha, é autor de Villegagnon e a França Antártica (Nova Fronteira, 2000), entre outros livros     - Revista História Viva


O jesuíta (ao centro) se esforçou para convencer seus compatriotas da importância de fazer as paz com os Países Baixos em virtude da fraqueza de Lisboa.

Em fevereiro de 1647, um misterioso personagem começou a circular pelas ruas de Haia, na Holanda, ao lado do embaixador português, Francisco de Sousa Coutinho. Vestido de escarlate e ostentando um belo bigode, essa intrigante figura se movia sob a proteção de uma capa e uma espada. Naquele momento ninguém sabia, mas a eminência parda havia chegado aos Países Baixos em missão secreta, como emissário direto do rei D. João IV de Portugal. Seu objetivo: negociar a devolução das áreas então controladas pelos holandeses no Nordeste do Brasil. Sua identidade verdadeira: padre Antônio Vieira.
Célebre por sua atuação em defesa dos indígenas na América e pelo seu talento como orador, o sacerdote jesuíta teve uma meteórica, desastrada e pouco conhecida carreira diplomática durante os dez anos que passou na Europa, na década de 1640. Tudo começou em 1641, quando ele foi convidado a integrar a comissão baiana encarregada de levar as congratulações do Brasil ao rei D. João IV, que havia acabado de assumir o trono português depois de mais de 60 anos de domínio espanhol.
Então com 33 anos, ele logo fascinou o monarca com seu talento de orador e passou a ser convidado para debater os problemas nacionais com o soberano. Um dos temas que mais preocupava os dois era a delicada situação do reino diante da dupla ameaça representada pela Holanda e pela Espanha. Em 1640, Portugal havia proclamado sua independência em relação ao vizinho ibérico, mas Madri não estava nem um pouco disposta a aceitar essa situação, e D. João IV precisava de cada homem e de cada navio para defender sua autonomia política. Nessa situação, como poderia se dar ao luxo de dispersar recursos militares para defender o Brasil e tentar recuperar o Nordeste, ocupado, desde 1630, pelos holandeses? Diante do impasse, o sacerdote e o monarca chegaram à mesma conclusão: como Portugal não tinha meios para combater os dois inimigos ao mesmo tempo, era preciso negociar a paz a qualquer preço com a Holanda para se concentrar nos combates pela independência com a Espanha.
Sermão traduzido para o holandês publicado em Antuérpia em 1646


Uma vez definido o objetivo, os dois bolaram um plano para alcançá-lo: o projeto inicial consistia em tentar comprar dos holandeses a metade do Brasil já ocupada. Caso os estrangeiros se recusassem e insistissem em ficar com Pernambuco, o que era mais provável, então o rei estaria disposto até mesmo a reconhecer os direitos dos holandeses sobre aquela riquíssima região em troca de um tratado de paz firme e duradouro, além da promessa de apoio a Portugal em disputas com a Espanha, também inimiga dos batavos. Em 1646, o monarca enviou Antônio Vieira em uma primeira missão diplomática para avaliar a verdadeira situação política da Holanda. Ele deveria confirmar as informações que a corte de Lisboa recebia do embaixador português em Haia, Francisco de Sousa Coutinho.
Após essa primeira viagem, Vieira deu dois conselhos ao monarca. O primeiro: acrescentar aos 2 milhões de cruzados previstos para a compra das terras no Brasil uma soma adicional para a “compra da compra”, ou seja, o suborno dos delegados holandeses com voto nos Estados Gerais, a assembleia das Províncias Unidas dos Países Baixos. A segunda recomendação foi criar duas companhias comerciais, no estilo das grandes empresas mercantes holandesas, que se ocupariam uma do comércio com o Brasil e Angola, e outra com o Extremo Oriente. Para isso era indispensável obter apoio financeiro dos ricos judeus portugueses que haviam fugido para a França e a Holanda para escapar da Inquisição. Na defesa de sua tese, Vieira chegou até o extremo de combater qualquer tipo de auxílio da metrópole aos patriotas luso-brasileiros, que haviam se organizado bem e se propunham expulsar os holandeses de Pernambuco.                                 
O soberano confiou então ao padre uma missão secreta junto ao embaixador português em Haia para tentar negociar com os holandeses. Foi assim que, em fevereiro de 1647, Vieira desembarcou nos Países Baixos com status de embaixador adjunto, onde ficaria até julho daquele ano, circulando disfarçado sob trajes escarlate, capa e espada.

O Tratado de Münster selou a paz entre a Espanha e a Holanda, complicando a situação de D. João IV: agora, os dois países poderiam atacar Portugal juntos.


Aos 39 anos, ele estava no auge de sua forma como orador. O magnetismo pessoal e a extraordinária lábia do sacerdote convenceram facilmente os judeus portugueses expatriados nos Países Baixos a ajudar com sua influência regional e suas riquezas, antevendo polpudos negócios a curto prazo. O desafio de convencer as autoridades holandesas da proposta de D. João IV, no entanto, era muito grande, e as negociações conduzidas pelo embaixador residente, Sousa Coutinho, e por seu misterioso ajudante, foram um grande fracasso.
O revés não desanimou o monarca português e D. João IV lançou uma nova investida, dessa vez atuando em duas frentes: agora os portugueses pretendiam negociar ao mesmo tempo com a França, inimiga dos holandeses e espanhóis, e com os Países Baixos.
A estratégia em relação à Holanda permanecia a mesma, com um ponto adicional: a fim de ganhar tempo para os revoltosos no Brasil, Sousa Coutinho chegou a propor que Portugal e Holanda criassem uma espécie de protetorado conjunto no Nordeste brasileiro. Essa “republicazinha”, como escreveu ele, seria gerida por funcionários dos dois países, sob a direção administrativa da Companhia das Índias Ocidentais.
A novidade dessa segunda rodada de negociações foi a inusitada proposta que D. João IV apresentou à França: casar o herdeiro do trono português, o jovem D. Teodósio, com a filha do duque de Orléans, irmão do rei de França. De acordo com o projeto, elaborado pelo padre Vieira, o soberano lusitano abdicaria em favor do duque de Orléans, que assumiria a regência até a maioridade de D. Teodósio. O plano previa, portanto, entregar Portugal a um príncipe francês por cinco anos e propunha, muito antes de 1808, a transferência de parte da família real para o Brasil. A ideia era que D. João IV se estabelecesse em Salvador ou no Maranhão e passasse a reinar somente na colônia. Vieira acreditava que, com essa manobra, Portugal e Brasil estariam a salvo, pois os franceses os protegeriam dos holandeses e dos espanhóis.
O primeiro-ministro francês, cardeal Jules Mazarin, que Vieira tentou converter em aliado.

Se a proposta fosse aceita, o Brasil se separaria de Portugal como um reino independente e os dois provavelmente não voltariam a reunir-se. Mas como conceber o modestíssimo Brasil de então, uma estreita faixa de terra com pouco mais de 100 quilômetros de largura, como um país independente? Se o Nordeste era rico, o sul era ainda muito pobre em meados do século XVII.
Apesar de absurdo, o projeto foi levado adiante e o sacerdote tomou o caminho de Paris, em 1647, para negociar com o todo-poderoso cardeal Jules Mazarin, primeiro-ministro que governou a França durante a regência da rainha Ana da Áustria. O embaixador português em Paris, o marquês de Niza, ficou boquiaberto com a missão de Vieira. Mostrou-se tão horrorizado com esse projeto secreto que, terminadas as negociações, mandou queimar todos os documentos que mencionavam aquelas conversações com os franceses. Por isso temos poucos pormenores das negociações em Paris.
Mais uma vez, no entanto, os planos do padre Vieira e de D. João IV foram por água abaixo. Mazarin e a regente Ana da Áustria recusaram prontamente a oferta do modesto rei de Portugal. “Que pretensão!”, teriam dito os arrogantes franceses. Esqueciam-se os lusos de que a rainha da França era espanhola e não gostava nada de Portugal. Além disso, a Coroa lusa valia pouco sem o Brasil. O que teria a França a ganhar com essa complicada barganha? Como ponderou o historiador português Hernâni Cidade: “A entronização de um rei no Brasil seria fechar para a França as perspectivas que ela de há muito visionava nesta colônia. Na emergência, defendeu melhor os nossos interesses o cardeal francês do que o jesuíta lusitano”.
D. João IV, o rei que restaurou a independência de Portugal se encantou com os talentos de orador de Antônio Vieira e quase perdeu o Brasil
Após o novo fracasso diplomático, a situação de D. João IV começou a se complicar. As grandes potências europeias haviam iniciado as negociações da paz de Vestfália, que encerrariam a Guerra dos Trinta Anos e reorganizariam as políticas de alianças no continente em 1648, e a Espanha ameaçava retirar-se das conversas se Portugal, que ela continuava a não reconhecer como país independente, fosse admitido nas reuniões. Segundo o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, diante desse impasse o cardeal Mazarin teria aconselhado o marquês de Niza, embaixador português na França, a “agir rapidamente cedendo Pernambuco a fim de evitar que os holandeses continuassem a fazer todo o mal que já haviam feito em Münster às pretensões portuguesas. Embora não houvesse garantia de que aceitassem a restituição em troca da inclusão de Portugal na paz de Vestfália, era provável que o fizessem, dado o empenho que tinham na reaquisição dos territórios perdidos no Brasil e as enormes despesas em que teriam de incorrer para reconquistá-los pelas armas”.
Por um triz, todo o Nordeste, do Maranhão ao rio São Francisco, quase foi cedido aos holandeses em troca de um duvidoso tratado de paz. Com essa jogada, aparentemente de mestre, D. João IV deixaria de lutar em duas frentes e poderia reforçar a fronteira com a Espanha, sempre desejosa de reconquistar Portugal. Mazarin chegou a mencionar nas conversações com Vieira e com o marquês de Niza a possibilidade de o Rio de Janeiro ser cedido à França, como parte de eventual acordo.
A situação de Portugal piorou ainda mais quando a Holanda assinou um acordo de paz com a Espanha que reconhecia sua independência, em 1648. O fim das hostilidades entre os dois países abriu a possibilidade de ambos se juntarem para atacar Portugal, na Europa e em suas colônias. D. João IV chamou, então, o padre Vieira de volta a Lisboa. Nessa época, o sacerdote começou a cair em desgraça, pois era unânime em Portugal e no Brasil a reprovação das negociações em Paris e Amsterdã. Nessa altura ele e Sousa Coutinho já eram chamados de “Os Judas do Brasil”.
Quando tudo parecia perdido, chegou a Lisboa a notícia da vitória luso-brasileira sobre os holandeses na Batalha de Guarapes (retratada na imagem), saudada por Vieira como um milagre

Acuado, Vieira redigiu a pedido do rei um notável memorando, que ficou conhecido como o “Papel Forte”, para defender o tratado junto aos Conselhos de Estado de D. João IV. Sua argumentação era bastante convincente. Ele comparou a penosa situação de Portugal com a da próspera Holanda, comentando: “Damos-lhes por vontade o que nos hão de tomar pela força. Mas Pernambuco não é doado, senão vendido pelas conveniências da paz, e não vendido para sempre, para o tornarmos a tomar com a mesma facilidade, quando nos virmos com melhor fortuna. (...) Restituída a região à Companhia [das Índias Ocidentais holandesa], ela passará a ter todo interesse em cultivar a amizade com Portugal, em vez de incorrer nos riscos e gastos de nova conquista do Brasil”.
O curioso é que, quando as coisas estavam realmente mal paradas e a perda do Brasil parecia inevitável, chegou a Portugal a surpreendente notícia da vitória dos luso-brasileiros na primeira Batalha dos Guararapes, em abril de 1648, que obrigou os invasores a passar para a defensiva. O padre Vieira viu naquilo uma intervenção dos céus: “A Providência divina determinara fazer em Pernambuco um milagre, que ninguém imaginou e todos reconheceram como tal”.
No entanto, se os brasileiros haviam conseguido encurralar os holandeses na Paraíba e no Recife, o comércio marítimo com a metrópole continuava um completo desastre. Nada menos que 220 naus portuguesas haviam sido capturadas pelos holandeses, e os luso-brasileiros não podiam mais enviar o seu açúcar para vendê-lo em Lisboa, nem receber armamentos ou ajuda militar de Portugal.
No fim de 1648 o rei D. João tinha realmente de tomar alguma medida drástica ou abandonar de vez Pernambuco, afirmou o historiador britânico Charles R. Boxer. O monarca aceitou o conselho de Vieira e mandou organizar a Companhia de Comércio do Brasil utilizando o capital judaico português no exílio, que passava a ficar isento de confisco pelas autoridades eclesiásticas da Inquisição, mesmo se o investidor fosse culpado de heresia. Segundo Boxer, a estratégia foi acertada, pois “graças à cooperação da armada da Companhia do Brasil, os patriotas de Pernambuco foram finalmente capazes de expulsar os holandeses do Nordeste em janeiro de 1654”.

O religioso retratado no final de sua vida: nesse período Vieira escreveu a maior parte dos sermões que se tornariam patrimônio da língua portuguesa
Com a vitória dos luso-brasileiros na segunda Batalha dos Guararapes, em fevereiro de 1649, o domínio holandês no Nordeste brasileiro foi ferido de morte e os invasores ficaram apenas com Recife. Ainda sem condições de tomar a cidade, os luso-brasileiros tiveram de esperar pela guerra naval anglo-holandesa, que eclodiu em 1652, para que D. João IV ousasse autorizar a captura do último bastião holandês. O apoio do monarca à resistência contra a ocupação, aliás, sempre foi um tema controverso entre os historiadores. O britânico Charles R. Boxer e o português João Lúcio de Azevedo sugerem que o rei nunca teria dado o seu consentimento expresso à insurreição pernambucana e apenas acompanhara a trama de revolta para talvez desautorizá-la depois, em caso de fracasso. Evaldo Cabral de Mello, por outro lado, afirma que o soberano sempre teria apoiado os revoltosos, mas muito discretamente. Seja como for, os holandeses deixaram o Nordeste em 1654, ano da capitulação do Recife.
Com a retomada de Pernambuco, os acordos que o padre Vieira tentou negociar perderam completamente o sentido. O sacerdote ainda seria enviado a Roma em uma última missão diplomática, em janeiro de 1650. Mais uma vez, porém, a coisa terminaria mal. Depois de se envolver indevidamente na política local, foi obrigado a fugir da Itália em julho do mesmo ano.
De volta ao Brasil, em 1652, o sacerdote se estabeleceu em São Luís do Maranhão, onde se destacou pela defesa dos indígenas contra a ganância dos colonos portugueses. A partir desse período, Antônio Vieira começou a ganhar fama por seus sermões, que se tornariam um dos maiores patrimônios da língua portuguesa. Foi assim que o Brasil ganhou um dos oradores e escritores mais brilhantes de sua história e perdeu um dos diplomatas mais desastrados do Império Português.

PARA SABER MAIS
O negócio do Brasil. Evaldo Cabral de Mello. Topbooks, 2003
O império marítimo português (1415-1825). Charles R. Boxer. Companhia das Letras, 2002
História de Antônio Vieira. João Lúcio de Azevedo. Alameda, 2008
Padre Antônio Vieira. Hernâni Cidade. Editorial Presença, 1997
A great Luso-Brazilian figure – Padre Antônio Vieira, S.J. (1608-1697). Charles R. Boxer. Hispanic & Luso Brazilian Councils, 1957

Homenagem a um grande compositor e cantor - Johnny Alf

Johnny Alf interpreta seu maior sucesso. Eu e a Brisa. 




BOM DIA: Se pecamos, pecamos. E ponto.

BOM DIA: Se pecamos, pecamos. E ponto.
Pr. Israel Belo de Azevedo

Um parlamentar, meses depois de ter sido filmado enchendo de notas de dinheiro de propina a parte inferior do corpo onde a maioria das pessoas usa meias, renunciou. Ao comunicar sua saída voluntária (e possivelmente temporária) da política, admitiu que errou e que foi vítima do sistema. Quem renuncia não pode ser cassado e, assim, ficar proibido de disputar novas eleições por vários anos.
O comportamento é emblemático da natureza humana e pode nos incluir.
Primeiro, erramos, mas, muitas vezes, só admitimos o erro quando somos descobertos. É como se o pecado se tornasse pecado só quando descoberto.
Até pedimos desculpas, mas caímos atirando, ao pormos a culpa no sistema (todo mundo faz) ou nos outros.
Pedimos desculpas, esperando que sejamos premiados (com elogios por termos tido a coragem de pedir desculpas ou perdão).
O pedido de perdão verdadeiro é filho do arrependimento verdadeiro. Pecamos. Ponto.
Fora disso é manipulação. Nossa e dos outros.
COMENTÁRIO: Excelente reflexão. O problema deve ser enfrentado, jamais escondido.

J. Bosco para O Liberal


Humor - Oscar Filho usando controle remoto universal na Argentina

Rancho Cavalos - Argentina - Fotografia por Solages de Patricia

Homens e cavalos descansam perto de El Calafate, uma cidade um pouco além do lago no sul da Patagônia, Argentina. Com sua deslumbrante vista dos picos dos Andes, a cidade é um dos maiores turísticos do país.

Cultivo da coca dispara no Peru enquanto as autoridades priorizam repressão ao tráfico

Cultivo da coca dispara no Peru enquanto as autoridades priorizam repressão ao tráfico

The  New York Times - Simon Romero - Tingo Maria (Peru) - 15/06/2010

Ocultivo da coca está disparando mais uma vez nos remotos vales tropicais deste país, em um fenômeno que faz parte de uma grande modificação na estrutura do tráfico de drogas andino, e que está fazendo do Peru um concorrente da Colômbia, capaz de superar esta última como o maior exportador de cocaína do mundo. Os cartéis mexicanos e colombianos estão expandindo as suas ações no Peru, onde duas facções do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso já estão competindo pelo controle do tráfico de cocaína.
Os traficantes – fortalecidos pela constante demanda por cocaína nos Estados Unidos, no Brasil e em partes da Europa – estão frustrando os esforços para combater a ressurgência da droga aqui, e fazem com que aumentem as perspectivas de uma onda de violência ainda maior em um país que ainda se encontra traumatizado por anos de guerra. 
“A luta contra a cocaína é algo que lembra uma tentativa de tentar conter o vento”, diz o general Juan Zarate, que comanda as campanhas de erradicação da coca no país. O aumento da oferta no Peru faz com que seja possível perceber um dos aspectos mais embaraçosos da guerra contra as drogas na América Latina, uma iniciativa que é financiada pelos Estados Unidos, e que teve início quatro décadas atrás. Quando as forças de combate ao narcotráfico têm sucesso em um determinado local – conforme aconteceu recentemente na Colômbia, que recebeu mais de US$ 5 bilhões (R$ 9 bilhões) em auxílio financeiro norte-americano nesta década –, o cultivo da coca é transferido para outras áreas dos Andes. 
Foi isso o que aconteceu na década de noventa, quando o cultivo da coca foi transferido para a Colômbia, após a implementação bem sucedida de projetos de erradicação no Peru e na Bolívia. Mais recentemente, os cultivadores de coca mudaram-se para dezenas de novas áreas no interior da Colômbia, depois que as autoridades pulverizaram plantações localizadas em outras áreas. Os especialistas na guerra contra o narcotráfico andino chamam isso de “efeito balão”, já que para eles esta guerra faz lembrar um balão de gás que apresenta um aumento de volume em um dos seus lados quando o lado oposto é apertado. “A política de Washington caracterizada pela intervenção nos locais responsáveis pela oferta da droga faz com que, inevitavelmente, cresça a eficiência e a habilidade empresarial dos traficantes”, explica Paul Gootenberg, que escreveu o livro “Andean Cocaine” (“Cocaína Andina”).
O efeito balão – e as suas consequências – pode ser presenciado neste momento nos vales cobertos pela selva da região central do Peru, que é o centro da indústria da cocaína.  Em abril passado, uma facção do Sendero Luminoso, o grupo rebelde responsabilizado por dezenas de milhares de mortes no país de 1980 a 2000, durante a sua guerra contra o governo peruano, matou dois erradicadores de plantações de coca e um policial aqui nesta área. Esta mesma região experimentou a primeira onda de produção de cocaína no século 19, depois que químicos alemães desenvolveram a fórmula para a fabricação da droga a partir das folhas da coca, o que gerou um comércio legal de cocaína que seguia para os Estados Unidos e a Europa. Sigmund Freud foi um dos primeiros usuários da cocaína. 
Mas na década de setenta, quando a cocaína já era ilegal aqui e após o governo peruano ter proibido grande parte das novas plantações de coca no país, os chefes do narcotráfico colombiano criaram uma outra onda de narcotráfico, exportando folhas de coca peruana para laboratórios de cocaína do outro lado da fronteira. Mais tarde grupos de guerrilheiros do Sendero Luminoso passaram a proteger os cultivadores de coca na região, o que fez com que o Peru se consolidasse como o maior produtor da matéria prima para a fabricação da cocaína. 
Na década de noventa, o presidente Alberto Fujimori militarizou a região a fim de esmagar o Sendero Luminoso, reduzindo a magnitude do cultivo da coca. Mas atualmente muitos cultivadores estão plantando coca novamente. “A coca nos permite alimentar os nossos filhos”, afirma Jacinta Rojas, de 45 anos, que cultiva coca perto de Tingo Maria, explicando que a coca pode ser colhida até cinco vezes por ano, enquanto o cacau só proporciona uma ou duas colheitas anuais. 
A ressurgência do tráfico de cocaína no Peru está evidente em Tingo Maria, uma cidade movimentada que viveu maus momentos depois que o cultivo da coca despencou durante a década de noventa. Agora, uma grande quantidade de mototáxis circula pelas ruas, e pequenos hotéis e restaurantes atendem a fazendeiros ricos.  Nos clubes noturnos apresentam-se conjuntos peruanos que interpretam a cumbia, a música folclórica que veio da Colômbia, com letras que celebram e lamentam a trabalho árduo dos cocaleros, como são chamados os cultivadores da coca.  “Cocalero, as suas penelas estão vazias; cocalero, a sua mulher está chorando”, diz o trecho de uma música cantada por um grupo local de cumbia. “Mas continue plantando mais coca, e assim o dinheiro vai brotar”.
O aumento do cultivo da coca na região central do Peru contrasta com a situação na Colômbia, onde o cultivo caiu 18% desde 2008, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). No Peru, o cultivo aumentou 4,5% naquele ano, culminando a tendência de uma década na qual as áreas plantadas com coca aumentaram 45% a partir de 1998. O cultivo está crescendo também na Bolívia, embora aquele país continue sendo o terceiro na lista geral dos maiores produtores. 
Chamando atenção para os minguados esforços no sentido de reprimir essa cultura no Peru, especialistas em combate ao narcotráfico em Lima afirmam que o Peru pode já ter ultrapassado a Colômbia no que se refere à exportação de cocaína. Uma análise das apreensões de cocaína na Colômbia e no Peru feita por Jaime Antezana, um analista de segurança da Universidade Católica do Peru, revelou que na Colômbia, que ainda cultiva mais coca e produz mais cocaína do que o Peru, as autoridades apreenderam cerca de 198 toneladas da droga em 2008, contra apenas 20 toneladas no Peru. Isso possibilitou que os traficantes peruanos tivessem capacidade de exportar 282 toneladas de cocaína, ou cerca de 50 toneladas a mais do que a capacidade estimada de exportação de cocaína da Colômbia, diz Antezana. “Se a atual tendência de cultivo continuar, nós poderemos superar a Colômbia como o maior produtor mundial de folhas de coca em 2011 ou 2012, o que nos fará regredir para a posição que ocupávamos na década de oitenta”, adverte Antezana.
O mais graduado assessor de políticas de combate a drogas do presidente Barack Obama, R. Gil Kerlikowske, anunciou em maio último um plano de combate aos entorpecentes que enfatiza a prevenção e o tratamento dos viciados nos Estados Unidos. Mas o governo norte-americano pouco modificou o financiamento dos projetos de erradicação das culturas da coca nos Andes, apesar de muita gente duvidar que tal medida seja capaz de reduzir drasticamente o suprimento de cocaína ou de provocar um aumento significativo do preço da droga nos Estados Unidos no longo prazo. 
O auxílio norte-americano para o combate ao narcotráfico no Peru é de US$ 71,7 milhões (R$ 130 milhões) por ano, uma quantia ligeiramente maior do que os US$ 70,7 milhões (R$ 127,7 milhões) investidos no ano passado. As autoridades norte-americanas da área de combate ao narcotráfico operam em uma base policial peruana recém-ampliada aqui em Tingo Maria, supervisionando equipes peruanas que atuam nos vales próximos cortando manualmente os arbustos de coca.  “Nós vemos o tráfico de drogas no Peru como parte de um fenômeno regional e global”, afirma Abelardo A. Arias, o diretor do departamento de questões relativas a narcóticos da Embaixada dos Estados Unidos em Lima. “Em uma resposta à pressão policial em uma área, os cultivadores e os traficantes de drogas transferem as suas operações para novos territórios”. O Peru utiliza parte da ajuda norte-americana para comprar capacetes e trajes especiais para proteção contra minas terrestres instaladas nesta região pela facção do Sendero Luminoso, que está competindo com uma outra facção guerrilheira pelo controle das áreas de plantação de coca, segundo oficiais militares peruanos. Uma outra parte do auxílio norte-americano vai para empresas contratadas como a DynCorp, que presta serviços de manutenção dos helicópteros que operam a partir de Tingo Maria. 
A bordo de um desses helicópteros, o general Horacio Huivin, diretor da polícia antidrogas peruana, observou os campos de coca, a alguns minutos de voo de Tingo Maria. “Nós caímos em um círculo vicioso porque estamos erradicando plantações de coca nos mesmo locais em que nós fizemos tal erradicação no ano passado ou em anos anteriores”, conclui o general.
*Andrea Zarate, em Lima, contribuiu para esta matéria
FOTO:Soldado perto de um carro pichado pelo grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, no Peru

Skoob

BBC Brasil Atualidades

Visitantes

free counters