segunda-feira, agosto 16, 2010
Confissão inverossímil
Confissão inverossímil
Paulo Brossard - ZERO HORA (RS)
Houve tempo em que a benzedura era recurso de largo espectro, destinado a conjurar muitos senão todos os males, do mau-olhado às doenças contagiosas; com o tempo e os progressos da medicina e da farmacologia, o sortilégio perdeu prestígio e, ao que parece, saiu de moda; chego a supor tenha caído no esquecimento, repousa sob o véu da desmemória, indagar-se-á por que estou a lembrar-me do outrora valioso expediente. É que são tantas as coisas surpreendentes que têm acontecido e continuam a suceder, aqui e longe daqui, que, se a mezinha não tivesse sido revogada pela continuidade do desuso, seria levado a buscar a opinião dos doutos a respeito de sua suposta serventia, se é que ainda a possui. Pois a verdade é que, acredite ou não o penitente, em caso de necessidade, salve-se quem puder, seja lá a que preço.
Pois estou convencido de que atravessamos induvidosa superprodução de absurdos de todos os tipos, que, em tempos normais, seriam sérios infortúnios, mas que dia a dia passam a ser tidos como normais. E se é verdade que Octavio Mangabeira, com seu saber de experiência feito, dizia que se imaginasse um absurdo, por maior que fosse, havia precedente na Bahia, hoje o absurdo desmarcado parece ter-se expandido da Bahia para o Brasil inteiro.
O honrado presidente da República, cuja inteligência e intuição são reconhecidas até por seus mais radicais antagonistas, bastando notar que chegou à Presidência sem possuir diploma algum, até receber o que lhe dava acesso a ela, segundo sua pícara e expressiva observação, adotou um dos mais atrasados países, em todos os sentidos, para reformar a ONU e o que lhe estivesse próximo. E abraçou-se ao Irã, como se essa companhia pudesse dar seriedade à missão do novo arauto da renovação das organizações internacionais. A verdade é que o mau passo foi grande demais. Pouco antes, o fiasco em Cuba, quando, em pessoa, no dia de sua chegada à ilha, assistiu mudo ao sacrifício de Orlando Zapata, finado depois de 85 dias de greve de fome. Nenhuma palavra de clemência. Ao contrário, teve o mau gosto de equiparar os presos políticos do encanecido ditador com os que são condenados por crimes comuns, regularmente julgados, que cumprem pena em penitenciárias paulistas. A impressão causada foi penosa. Não demorou e se viu vítima da sua intimidade com o país dos aiatolás.
O inesperado aconteceu depois da reação mundial da inacreditável condenação. Já não falo da pena de morte nem desta em relação ao alegado adultério, mas da confissão depois de quatro anos de prisão. De repente, em TV do Irã, quarta-feira à noite, apareceu a condenada com o rosto coberto, vendo-se apenas o nariz e um dos olhos, para confessar não só o adultério como seu envolvimento no assassínio de seu marido. Nunca vi confissão menos verossímil. A meu juízo, ela é inaceitável, assim como a censura ao seu advogado, que teve de refugiar-se na Noruega! Houve quem afirmasse que ela foi torturada até submeter-se à confissão espontânea. Não duvido que esse procedimento seja adotado em regime totalitário. Contudo, desprezo esse dado. Tudo me soa falso no macabro episódio. Esse o país adotado pelo presidente do Brasil como companheiro às suas investidas internacionais. Como brasileiro, é o que mais me impressiona.
*Jurista, ministro aposentado do STF
A carta que Dilma não escreveu ao Brasil
A carta que Dilma não escreveu ao Brasil
GUILHERME FIUZA REVISTA ÉPOCA
Lula não tem culpa do poder político sobre-humano que adquiriu. A culpa é do Brasil. Na virada do milênio, Luiz Inácio da Silva era um problema para o PT. Derrotado em três eleições presidenciais, prisioneiro de um discurso anacrônico contra a política econômica que fundara o real, Lula se tornara um candidato de plantão, quase folclórico. Uma guinada histórica o transformou num Midas eleitoral, capaz de reeditar, com a invenção de Dilma Rousseff, o famigerado plano Celso Pitta - que parecia uma lição devidamente assimilada.
Boa parte do PT não queria Lula candidato à Presidência pela quarta vez, em 2002. Emergiam novas forças no partido, como Cristovam Buarque, que governara o Distrito Federal. Um passo adiante dos slogans genéricos contra o capitalismo ocidental, Cristovam rompera com o modelo do Estado paternal. Foi a primeira voz da esquerda a proclamar que a estabilidade monetária era boa para o povo. Governou com responsabilidade fiscal, resistindo ao bombardeio sindicalista e fisiológico de seus companheiros - que queriam, como sempre, o poder como seio materno.
Cristovam executara com sucesso o inovador programa Bolsa Escola. Apoiara o governo federal - ao qual era oposição - na luta contra a inflação e o descontrole das contas públicas. O PT tinha nele um governante moderno, potencial candidato à Presidência em 2002. Mas Lula, apesar de ultrapassado, ainda era uma lenda no partido. E conseguiu a candidatura após um arrastão comandado pelo deputado José Dirceu.
Esse Lula fraco e desgastado entrou na corrida presidencial com uma novidade. Por sensibilidade do próprio José Dirceu, a campanha dessa vez abandonaria o sectarismo estratosférico. O Brasil ia conhecer um PT mais pragmático, disposto a conversar com todos, e não apenas a rugir seus ideais imaculados - que seriam para sempre perfeitos, desde que não saíssem das assembleias partidárias e reuniões acadêmicas.
Por algum tempo, assistiu-se a um Lula híbrido, que seguia a moderação proposta por Dirceu, mas ainda vocalizava os instintos incendiários do partido: moratórias, xenofobia, ataques ao Banco Central e às metas de inflação, invasão de propriedades produtivas, intervenção na imprensa burguesa e todo aquele guevarismo de grêmio estudantil que o Brasil não queria. Lula foi então salvo por Pedro Malan.
Assistindo ao discurso totalflex do candidato da oposição - que trazia insegurança geral e uma recaída da inflação -, o ministro da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso indagou publicamente qual dos dois era o Lula verdadeiro. Daí surgiu o documento - articulado por Dirceu e por Antônio Palocci - que elegeu o candidato do PT: a Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula se comprometia com princípios como a responsabilidade fiscal, o cumprimento dos contratos e as bases da estabilidade monetária. Uma transição saudável no Planalto.
O Brasil deveria estar se preparando agora para mais uma transição saudável, se o sobrenatural não tivesse entrado em cena. Lula era um presidente normal até estourar o mensalão, o maior escândalo de corrupção da história da República. Pela primeira vez, o grupo político de um presidente criava um duto sistemático entre os cofres do Estado e seu partido. O enredo foi descoberto, seus protagonistas denunciados, e o país passou a mão na cabeça de Lula - não apenas preservando-o, mas passando a conferir-lhe taxas históricas de popularidade. Acima do bem e do mal, Lula virou mito.
Um mito com um cheque em branco na mão. Nesse cheque, escreveu o nome de Dilma Rousseff. A menos de dois meses da eleição, o Brasil ainda não averiguou se o cheque tem fundos. A maioria do eleitorado está dizendo que vai descontá-lo na boca do caixa. Se der dor de cabeça, azar. Será tarde demais para pedir a Dilma - a mãe ou a madrasta - que escreva uma bela Carta ao Povo Brasileiro.
Em livro, dissidente acusa premiê chinês de 'fingir' ser reformista
Em livro, dissidente acusa premiê chinês de 'fingir' ser reformista
Um livro que promete ser uma pedra no sapato do Partido Comunista da China, e em especial do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, chega nesta segunda-feira às livrarias de Hong Kong.
Traduzido livremente como "Wen Jiabao, o Melhor Ator da China", a obra do dissidente Yu Jie procura desfazer a imagem de Wen como um líder reformista, uma ideia corrente e reforçada pelo carisma e o apoio que o premiê tem entre a população chinesa.
"Não sou o primeiro a descrever Wen Jiabao como um ator. Acompanho o seu comportamento há muito tempo. Muitas das políticas de seu governo são diferentes da maneira como ele se comporta publicamente ou perante a imprensa. Muitas vezes, são até contraditórias", disse Yu em entrevista à BBC.
"Muitos são enganados por seus atos e gostam dele, acham que ele é um reformista - eu não acho."
Wen ganhou simpatia ao longo de seus sete anos como premiê demonstrando simpatia por chineses comuns e reagindo rapidamente a situações de emergência, como desastres naturais e caos no setor de transportes.
O correspondente da BBC em Pequim, Michael Bristow, disse que o líder goza de uma "imagem fantástica" na China e que, nas ruas da capital, "é difícil encontrar alguém que não goste" dele.
Yu, entretanto, acusa o premiê de não promover reformas liberalizantes no momento em que a China avança no cenário mundial e procura encontrar maneiras de se adaptar a essa nova ordem.
"A China está em um momento de mudança, em uma perigosa encruzilhada histórica", diz. "Se Wen fosse realmente um grande líder, com a coragem de um grande líder, tentaria promover reformas, mas não o fez."
Liberdade de expressão
Na China, segundo o correspondente da BBC, não somente os políticos não estão acostumados a serem criticados em público, como em geral são louvados nas obras que chegam às prateleiras das livrarias.
Desde 2004, os livros de Yu são proibidos na China continental, que opera uma rigorosa censura à circulação de ideias. Sua obra mais recente está sendo lançada apenas na ilha de Hong Kong, onde as leis editoriais são mais brandas.
No mês passado, o autor foi brevemente detido pela polícia quando contou aos amigos através da internet que a obra estava no prelo. Foi advertido a não publicá-la.
Ainda assim, o dissidente decidiu trazer o livro para a cena pública, afirmando que é preciso "desenvolver a ideia de liberdade de expressão" no país.
"Uma porta se abriu ligeiramente na China (em relação à liberdade de ideias), mas precisamos que todos dêem um empurrão para permitir que entre a luz do sol", disse o autor.
"A porta não vai se abrir automaticamente se ninguém fizer nada."
Para mais notícias, visite o site da BBC Brasil
© British Broadcasting Corporation 2006. Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem a autorização por escrito da BBC BRASIL.
Desejo sexual se perde na fumaça
Desejo sexual se perde na fumaça
O Estado do Paraná
O Estado do Paraná
Após o sexo, um cigarro para complementar o prazer. Aquela tradicional cena tantas vezes exibida no cinema, protagonizada por atores famosos, em que, após a relação sexual, fumar um cigarro demonstrava virilidade, status e glamour está, definitivamente, fora de moda.
Isso porque, segundo a medicina, entre todas as mazelas que o uso do cigarro traz, uma delas é o prejuízo ao desempenho sexual.
Está provado que a nicotina diminui o fluxo sanguíneo nos órgãos genitais, o que interfere negativamente na ereção masculina e lubrificação vaginal da mulher.
Outro fato comprovado é que o tabagismo está em decadência. Recente pesquisa do Ministério da Saúde revela que o número de fumantes vem caindo. De 2006 a 2009, o percentual de fumantes da população brasileira caiu de 16,2% para 15,5%.
Além de interferir na qualidade do ato sexual, o hábito de fumar também pode afetar a capacidade de concepção. mulheres que não fumam têm o dobro de chances de conceber, quando comparadas às fumantes.
"No caso dos homens os estudos sugerem que o tabagismo diminui o desejo sexual e afeta o número, a mobilidade e a morfologia dos espermatozóides", afirma André Malbergier, professor doutor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Impotência sexual
Estudos importantes apresentam a relação entre o tabagismo e disfunção erétil. Um dos mais recentes, um estudo do envelhecimento masculino realizado em Massachusetts, Estados Unidos, encontrou o dobro de chance de moderada ou completa em homens que fumam há aproximadamente 10 anos.
A tendência dos fumantes que ainda não estão motivados e preparados para parar de fumar é minimizar ou ignorar os dados que mostrem essa relação por meio de mecanismos de defesa psicológicos.
Porém, especialista acredita que esse fato pode ser um "gancho" para o tratamento e aumento da motivação dos fumantes. "Já para os motivados, esses dados podem servir como um incentivo maior para a abstinência", avalia Malbergier.
De acordo com a professora doutora Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), nas últimas décadas, com as mudanças de políticas públicas, incluindo a criação da lei antifumo, que proíbe que se fume em ambientes fechados de uso coletivo, há maior estímulo para mudanças de comportamento e procura por tratamento adequado.
Para ela, muitos fumantes ainda desconhecem o tabagismo como fator de risco para a disfunção erétil. "Por outro lado, a conscientização crescente da importância do problema e o surgimento de tratamentos mais eficazes são os grandes responsáveis pela mudança que já se percebe nesse cenário", reconhece a especialista.
Outra constatação se dá quando são analisadas as estatísticas disponíveis que confirmam a estreita relação entre tabagismo e impotência sexual. Se a ocorrência da disfunção erétil no homem não fumante gira em torno de 2,2%, em uma avaliação apenas com tabagistas esse índice sobre para 37%. Portanto, de cada 100 fumantes, 37 vão desenvolver algum problema no seu relacionamento sexual.
Melhora no desempenho
De acordo com os médicos, uma ereção normal requer um fluxo sanguíneo perfeito. No pênis, esse volume precisa chegar em quantidade suficiente ao que os médicos chamam de corpo cavernoso para que ele aumente o seu diâmetro e determine assim a ereção. Ocorre que, no fumante, esse fluxo está continuamente diminuído porque a nicotina - a mais famosa das 4.720 substâncias contidas na fumaça do cigarro - é um potente agente vasoconstrictor que atua diretamente na musculatura do vaso, produzindo uma importante redução no calibre da artéria cavernosa, responsável pela irrigação. Uma redução em 25% já é suficiente para provocar a disfunção erétil.
É importante lembrar que o consumo diário de cigarros, o tempo de tabagismo, bem como a associação com hipertensão arterial, e, principalmente, diabetes é quem vai determinar a precocidade da impotência sexual.
De acordo com Carmita Abdo, uma discreta melhora no desempenho sexual pode ser percebida imediatamente após deixar o hábito de fumar, devido à melhor oxigenação.
Porém, ganhos mais evidentes ocorrem ao longo do tempo e são tanto mais pronunciados quanto menos intensas tiverem sido as complicações produzidas pelo tabagismo.
Combate ao vício
Atualmente, o tratamento farmacológico do tabagismo inclui terapias com ou sem a reposição da nicotina, entre elas, a utilização da vareniclina, desenvolvido especificamente para o tratamento. O medicamento tem mecanismo de ação dupla: se liga aos mesmos receptores no cérebro nos quais a nicotina atua, eliminando o desejo pelo cigarro, e estimula parcialmente tais receptores, o que reduz os sintomas associados à falta do fumo, a chamada síndrome de abstinência. O medicamento é vendido sob prescrição médica.
Doenças e mortes prematuras causadas pelo tabagismo podem ser evitadas no momento em que se abandona o cigarro e se inicia uma terapia orientada pelo médico, acompanhada de mudança geral no estilo de vida, adequação dos hábitos alimentares e exercícios físicos. Além disso, o controle de outras doenças como diabetes e hipertensão arterial também é necessário.
Inimigos do sexo
Além do cigarro, outras drogas também comprometem o desejo e o desempenho sexual
* Maconha - O uso frequente consolida resultados negativos, com a baixa no nível de testosterona e do número de espermatozóides.
* Cocaína - Com o tempo, acaba com o desejo sexual nas mulheres e compromete a fase do orgasmo. Nos homens, afeta a manutenção da ereção.
* Crack - É a droga que destrói com mais rapidez o usuário, fazendo com que nada mais importe. Muito menos sexo.
* Ectasy - Apesar da sensação de excitação, perturba o desempenho sexual.
* Álcool - Provoca diminuição no desejo, rebaixamento do nível do hormônio testosterona e bloqueio ejaculatório.
Adolescente brasileira vive drama nos Emirados Árabes
Adolescente brasileira vive drama nos Emirados Árabes
Época online
Época online
Itamaraty mantém discrição sobre condenação de adolescente brasileira de 14 anos nos Emirados Árabes Unidos. Se a situação não for revertida nos tribunais, pode virar desconforto diplomático para Lula
Depois de se envolver no polêmico caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, que pode ser apedrejada por adultério, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode se ver constrangido por um outro caso polêmico envolvendo as mulheres em um país muçulmano. E desta vez o caso é mais próximo do Brasil. Isso porque a mulher em questão é uma menina de 14 anos, brasileira, condenada a seis meses de prisão por ter feito sexo com um homem de 28 anos nos Emirados Árabes Unidos. O Itamaraty confirmou a ÉPOCA que a menina é brasileira, filha de uma brasileira e cujo padrasto é alemão e trabalha nos Emirados Árabes Unidos. A sentença foi proferida pela Corte Criminal de Primeira Instância de Abu Dhabi na terça-feira (10) e, além de prever a prisão da adolescente por seis meses, determina que ela seja deportada após o período na cadeia. A família vai recorrer da sentença. O homem com o qual a brasileira teria feito sexo é um paquistanês de 28 anos, motorista de ônibus escolar, que foi identificado apenas pelas iniciais, M.H. Ele foi condenado a um ano de prisão e à deportação.
O encontro sexual dos dois teria ocorrido no dia 3 de abril, no apartamento da família, em Abu Dhabi, enquanto os pais dela faziam uma viagem para Dubai, também nos Emirados Árabes. Segundo a imprensa do país, a empregada da família teria ido ao quarto da garota chamá-la para jantar. A adolescente, com um olhar confuso, não teria deixado a empregada entrar e teria saído do quarto, fechando a porta. Cerca de 45 minutos depois, segue a empregada em depoimento, um homem saiu do quarto. Ela, então, ligou para os pais da brasileira.
Inicialmente, a família da adolescente acusou M.H. de estupro. Segundo o jornal local The National, a promotoria árabe acusou a garota de sexo consensual fora do casamento – o que é proibido pela legislação local – depois de descobrir em mensagens que a garota teria marcado o encontro. Além disso, ela teria enviado mensagens de celular “eróticas” para o motorista de ônibus. Em entrevista ao jornal Gulf News, o juiz Saeed Abdul Bashir afirmou que a brasileira teria enviado várias fotos íntimas para M.H., algumas delas totalmente nua. Uma perícia feita no corpo da garota também teria mostrado que não havia sinais de estupro. Diante do juiz, a adolescente teria retirado as acusações de estupro e teria confessado o “sexo consensual”.
O encontro sexual dos dois teria ocorrido no dia 3 de abril, no apartamento da família, em Abu Dhabi, enquanto os pais dela faziam uma viagem para Dubai, também nos Emirados Árabes. Segundo a imprensa do país, a empregada da família teria ido ao quarto da garota chamá-la para jantar. A adolescente, com um olhar confuso, não teria deixado a empregada entrar e teria saído do quarto, fechando a porta. Cerca de 45 minutos depois, segue a empregada em depoimento, um homem saiu do quarto. Ela, então, ligou para os pais da brasileira.
Inicialmente, a família da adolescente acusou M.H. de estupro. Segundo o jornal local The National, a promotoria árabe acusou a garota de sexo consensual fora do casamento – o que é proibido pela legislação local – depois de descobrir em mensagens que a garota teria marcado o encontro. Além disso, ela teria enviado mensagens de celular “eróticas” para o motorista de ônibus. Em entrevista ao jornal Gulf News, o juiz Saeed Abdul Bashir afirmou que a brasileira teria enviado várias fotos íntimas para M.H., algumas delas totalmente nua. Uma perícia feita no corpo da garota também teria mostrado que não havia sinais de estupro. Diante do juiz, a adolescente teria retirado as acusações de estupro e teria confessado o “sexo consensual”.
Ainda de acordo com o jornal The National, os advogados da brasileira alegaram que a menina não poderia ser julgada como adulta, pois apesar de ser “fisicamente madura, não é mentalmente madura”. Nos Emirados Árabes, os crimes sexuais são julgados pela sharia, a lei islâmica. Se os acusados já tiverem chegado à puberdade, são julgados como adultos. Os sinais para isso são pelos no rosto ou a menstruação. Por ter apenas 14 anos, a pena da adolescente teria sido reduzida de um ano para seis meses. OAB: é preciso zelar pela segurança da brasileira
O Itamaraty mantém a discrição do caso para evitar a exposição da família e para não prejudicar o recurso feito pela defesa da brasileira a um tribunal de segunda instância. À BBC Brasil, o ministro-conselheiro da embaixada brasileira em Abu Dhabi, Arthur Nogueira, afirmou que a família está “extremamente nervosa” e que a garota pode ser presa a qualquer momento. O interesse do governo brasileiro é que o caso seja resolvido de forma favorável por meio das instituições jurídicas dos Emirados Árabes Unidos.
Em entrevista a ÉPOCA, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, afirmou que a prioridade da diplomacia brasileira deve se preocupar com a segurança da adolescente. "É preciso que haja uma interferência diplomática para zelar pela integridade física e psicológica da garota", disse. Cavalcante diz que é preciso "ter tranquilidade" pois a questão, se envolve direitos humanos para os brasileiros, envolve o direito e o costume local nos Emirados Árabes, o qual não pode ser alvo de interferência de outros Estados.
Ainda assim, caso a decisão não seja revertida na justiça árabe, o presidente Lula ficará em uma situação no mínimo constrangedora. Após oferecer asilo à iraniana Sakineh Ashtiani, o Brasil se verá obrigado a pressionar também o governo dos Emirados Árabes, que pode prender uma cidadã brasileira de 14 anos por um episódio que, fosse ocorrido no Brasil, ela seria considerada como vítima.
O Estado privatizado na eleição
O Estado privatizado na eleição
Suely Caldas - O ESTADO DE S. PAULO
"Ministro tem que ser ministro. Se alguém quiser fazer campanha política depois do expediente, faça, em carro particular. Façam o que quiser, mas quero eles trabalhando", avisou o presidente Lula aos seus ministros e à imprensa na segunda-feira. Aí eles obedeceram, não foram às ruas nem a comícios e trabalharam trancados em seus gabinetes... para ajudar na campanha de Dilma Rousseff, em escancarado uso eleitoral da estrutura do Estado e da máquina pública - que pertence aos brasileiros, não a partidos políticos - em defesa de um candidato.
Na terça-feira o ministro Guido Mantega dispensou seu secretário de Política Econômica e decidiu ele próprio divulgar para a imprensa o rotineiro boletim Economia Brasileira em Perspectiva, que desta vez trazia uma empolgante novidade: comparava os desempenhos dos governos FHC e Lula com números (alguns errados) cuidadosamente fisgados para mostrar fracasso e sucesso de um e de outro. Assim, sem sair do gabinete, o militante Mantega socorria Dilma que, em entrevista à TV Globo na noite anterior, culpou o governo FHC pelas baixas taxas de crescimento nos sete anos do governo Lula. Horas depois os números viraram manchete no site da campanha da candidata.
Não foi só Mantega. Atento à entrevista do oposicionista José Serra à TV Globo, na quarta-feira à noite, seu colega José Gomes Temporão ordenou aos funcionários imediata e urgente resposta às críticas feitas pelo tucano na entrevista. Agiu rápido: às 22h30 o Ministério da Saúde disparava e-mails para a imprensa contestando os dados apresentados por Serra e glorificando a atual administração na Saúde. Grudada e dependente de Lula nesta eleição, o maior trunfo de Dilma é a gestão do padrinho. Por isso mesmo Lula orientou os ministros a reagirem imediatamente, menos para exercer o direito de defender seu governo e mais para impedir que críticas da oposição prejudiquem sua candidata. Novamente, a versão do Ministério da Saúde foi parar no site de Dilma.
O ministro dos Transportes, Paulo Sergio Passos, não foi tão rápido. Só no dia seguinte divulgou nota explicando a falta de investimento em estradas e as falhas denunciadas pelo tucano nas rodovias paulistas. Já o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que traiu sua tradição histórica de órgão técnico para se transformar num apêndice político a serviço do governo Lula, não poderia ficar de fora da campanha eleitoral. Na quinta-feira divulgou estudo sobre a influência dos municípios no PIB, defendendo a ampliação de programas do governo Lula, incluídos nas propostas de Dilma, para reduzir desigualdades regionais. Sob o comando do petista Marcio Pochmann, seus economistas não precisam ir às ruas gritar pelo nome de Dilma. É mais eficaz usar suas horas de trabalho, funcionários de apoio, estrutura e computadores do Ipea.
Com Lula à frente, seguido pelos petistas trazidos para ajudá-lo a governar, há quase oito anos o País passou a ser administrado com o bastão do interesse político-partidário-eleitoral comandando ações e decisões do governo. O PT passou 20 anos na oposição contestando todos os governantes que o antecederam, com o único e obsessivo propósito de derrotá-los. No Congresso não avaliava as propostas pelo interesse da população e do progresso do País. Era contra por pura selvageria, pela oposição "a tudo o que está aí", sem definir o quê. E pronto. Foi contra a política econômica de FHC, que depois adotou; contra o Bolsa-Escola, que preservou e rebatizou de Bolsa-Família; contra até o Plano Real, que derrubou a inflação.
E, quando finalmente chegou ao poder, trouxe para o governo sua prática de 20 anos: o interesse político-partidário-eleitoral passou a comandar as decisões do governo. Para isso aparelhou o Estado com seus militantes e os de partidos aliados loteando milhares de cargos públicos. Nesse jogo de poder, e ainda mais nesta eleição, Lula e o PT misturam público e privado, abusam do uso do Estado, ofendem e desrespeitam os brasileiros. Como já disse o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga: "É preciso reestatizar o Estado."
Jornalista, é professora da PUC-RIO
Imperial ou imperialista?
Imperial ou imperialista?
Luiz Carlos Bresser-Pereira - FOLHA DE S. PAULO
A nação é imperial, e não imperialista, quando sabe que o nacionalismo do país mais fraco é necessário
Todo país rico e poderoso é "imperial" em relação aos países pobres e fracos que o cercam; os EUA são necessariamente imperiais em relação aos demais países do mundo; o Brasil o é em relação aos países sul-americanos menos desenvolvidos. Ninguém escapa da influência da sociedade mais desenvolvida.
Mas isso não significa que os Estados-nação sejam sempre "imperialistas". Um país é imperialista quando supõe que os interesses do país pobre são idênticos aos seus, rejeita o nacionalismo através do qual esse país busca formar um verdadeiro Estado-nação e se desenvolver e tenta impor-lhe sua verdade superior.
É imperial ao invés de imperialista quando, não obstante seu poderio, compreende que o nacionalismo do país mais fraco é necessário para que ele realize sua revolução nacional e capitalista e, por isso, aceita que alguns interesses de curto prazo de suas empresas sejam contrariados, porque acredita que o desenvolvimento do país vizinho será a médio prazo benéfico para seu próprio desenvolvimento.
Os EUA foram imperiais ao invés de imperialistas logo após a Segunda Guerra Mundial, mas esse foi um breve instante. Já o Brasil, desde os anos 1990, aprendeu a pensar em termos do médio prazo em relação a seus vizinhos.
Isso ficou claro em sua relação com a Bolívia, o Paraguai e a Venezuela: ao primeiro reconheceu a necessidade de o país nacionalizar sua indústria do petróleo e rever alguns contratos leoninos que dirigentes anteriores do país haviam firmado; ao Paraguai fez concessões razoáveis no caso de Itaipu. Em relação à Venezuela, mantém relações amigáveis com Chávez desde que este foi eleito.
Entretanto, setores das elites brasileiras não compreendem esse fato. De repente ficam nacionalistas e querem que o governo brasileiro "defenda os interesses brasileiros" com mais determinação.
Esquecem, assim, que quem rejeitou a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e começou a política sul-americana do Brasil e quem primeiro soube compreender as dificuldades e as contradições que enfrenta um governante de um país pobre e dominado por séculos, como é a Venezuela, foi o presidente Fernando Henrique Cardoso. Nessa política, o presidente Lula não inovou; apenas deu um passo adiante.
O tempo do imperialismo já passou. Quase todos os países pobres sabem que para se desenvolver precisam livrar-se da dependência externa e promover sua industrialização para, assim, realizar sua revolução capitalista.
E sabem também que essa é uma tarefa nacional muito difícil, porque, além de enfrentar os grandes países e seus interesses de curto prazo, enfrentam imensos problemas internos: baixo nível de educação, elites locais alienadas que preferem se aliar às elites externas do que a seu povo, um Estado mal organizado e permanente vítima da corrupção de capitalistas, políticos e burocratas.
O Brasil, que já realizou sua revolução capitalista, compreende esse fato. Compreende que é muito mais interessante para ele que seus vizinhos sejam nacionalistas e construam sua nação, logrando, assim, ter uma competente classe empresarial, uma ampla classe média e uma classe trabalhadora organizada. Por isso o Brasil é imperial, não é imperialista.
Ecologia, jornalismo, elegância
Ecologia, jornalismo, elegância
DANUZA LEÃO FOLHA DE SÃO PAULO - 15/08/10
Até quem não é radical procura onde jogar aquela notinha perversa que vem junto com o troco
A ECOLOGIA ENTROU devagar na mente das pessoas. Quando ouvi falar pela primeira vez do assunto, nem prestei muita atenção; achei estranho pensar em mudar hábitos que praticava desde a infância e que naquela época eram normais.
Tenho em mente, como se fosse hoje, Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, onde morava minha avó. Um rio separava a cidade, e havia os que moravam do lado de cá e os que moravam do lado de lá; todas as casas davam frente para a rua e as cozinhas para o rio. As cozinheiras faziam o que era de praxe: jogavam os restos de comida pela janela, no que era a lata de lixo da cidade, e ninguém se dava conta de que morar de frente para o rio seria o maior dos luxos.
As pessoas largavam nas calçadas saquinhos vazios, maços de cigarro amassados, cascas de banana, latinhas vazias de refrigerante, e todos achavam que isso era o certo. O tempo foi passando, os jornais começaram a falar de ecologia, e latas de lixo foram aparecendo. Até quem não é radical hoje procura onde jogar aquela notinha perversa que vem junto com o troco, apenas uma questão de educação: se não fazemos isso em nossa casa, por que fazer na cidade, que também é nossa?
Mesmo os mais desligados veem hoje, claramente, o que está acontecendo: geleiras desaparecendo, tsunamis matando milhares de pessoas, deslizamentos de terra diários, pequenas ilhas da Indonésia ameaçadas de desaparecer, ondas de calor na Rússia, enchentes no Paquistão, e, há dias, um imenso iceberg, quatro vezes maior do que a ilha de Manhattan, se soltou na Groenlândia. Como o planeta não tem assessor de imprensa, não dá entrevistas nos jornais nem na TV, é a sua única maneira de reclamar dos abusos que estão cometendo, e as catástrofes chegam cada vez mais perto: na semana passada, uma linda praia em Arraial do Cabo amanheceu com um óleo grosso em toda sua extensão, que ninguém sabe de onde veio, e só daqui a 20 dias vai se ter ideia do que se trata. Com tudo isso, ainda tem gente querendo até mudar o curso dos rios; isso não pode dar certo.
Agora um pouquinho de política: parabéns ao "Jornal das 10", da Globonews, que conseguiu entrevistar os candidatos sem o engessamento tradicional dos debates, com perguntas curtas e objetivas, e ainda com direito a comentários no bloco seguinte sobre a atuação dos candidatos. Foi uma conversa civilizada, cordial e sem estresse, nem da parte dos entrevistadores - André Trigueiro e Carlos Monforte -, nem dos entrevistados, que tinham que raciocinar para responder, e não chegar com o discurso já decorado; nem todos conseguiram, pois isso não se aprende, mas o formato foi encontrado, e é o ideal. Uma ideia elementar: colocar um relógio em frente ao candidato, para que ele acompanhe o tempo que lhe resta e não seja surpreendido com um corte no meio do raciocínio.
Agora um pouquinho de política: parabéns ao "Jornal das 10", da Globonews, que conseguiu entrevistar os candidatos sem o engessamento tradicional dos debates, com perguntas curtas e objetivas, e ainda com direito a comentários no bloco seguinte sobre a atuação dos candidatos. Foi uma conversa civilizada, cordial e sem estresse, nem da parte dos entrevistadores - André Trigueiro e Carlos Monforte -, nem dos entrevistados, que tinham que raciocinar para responder, e não chegar com o discurso já decorado; nem todos conseguiram, pois isso não se aprende, mas o formato foi encontrado, e é o ideal. Uma ideia elementar: colocar um relógio em frente ao candidato, para que ele acompanhe o tempo que lhe resta e não seja surpreendido com um corte no meio do raciocínio.
Outro comentário - e esse não tem nada a ver com política: preste atenção à elegância de Marina Silva. Suas roupas são discretas, a combinação de cores, perfeita. Seu porte, com o xale nos ombros, faria inveja a Gisele Bündchen, e ponto para as bijuterias feitas de contas e sementes da Amazônia que, segundo consta, são feitas por ela mesma; isso é que é ter estilo. Além disso, a candidata é serena, bem educada e não grita, coisa rara na política; suas aparições são uma lição de bom gosto a ser imitada pela peruagem nacional.
Chiquérrima, Marina.
Assinar:
Postagens (Atom)










.jpg)






