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sábado, novembro 13, 2010
A guerra cambial continua
A guerra cambial continua
O GLOBO Fernando Duarte Enviado especial
A reunião das 20 maiores potências do mundo, no G-20, em Seul, na Coreia do Sul, terminou sem acordo capaz de evitar a guerra cambial entre os países. Estados Unidos e China, com suas moedas desvalorizadas, são hoje alvo de preocupação do resto do mundo. Com o câmbio depreciado, eles elevam suas exportações e acabam prejudicando outras nações. No embate entre Washington e Pequim, a China saiu ganhando, pois evitou que americanos colocassem no texto final teto de 4% do PIB para superávit ou déficit externo. Hoje, a China é das grandes exportadoras.
G-20 termina só com promessas e sem ações
Líderes reunidos na Coreia do Sul assumem compromissos vagos e adiam decisão sobre disputas cambiais
SEUL, Coreia do Sul. Como previsto, os líderes das 20 principais economias do mundo, o G-20, encerraram ontem sua reunião de cúpula em Seul com muita retórica e poucas decisões concretas.
Na prática, os países conseguiram ampliar por mais um ano o prazo para alcançar difíceis soluções para os desequilíbrios no comércio, no câmbio e na área fiscal que ameaçam a recuperação econômica mundial. No comunicado oficial, os países prometeram adotar medidas macroeconômicas que incluem políticas cambiais mais sintonizadas com as forças do mercado como forma de promover o equilíbrio econômico mundial.
O G-20 se comprometeu a estabelecer um cronograma com “parâmetros indicativos” sobre como lidar com desequilíbrios entre suas economias, sobretudo no que se refere a superávits e déficits nas contas externas. Os 20 líderes também prometeram submeter planos econômicos de médio prazo à análise do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas os parâmetros só serão definidos nos próximos seis meses, possivelmente após a reunião de ministros da área econômica, na França, em fevereiro.
No duelo particular entre EUA e China, ponto para Pequim, que escapou de ficar na berlinda devido à insistência em manter desvalorizada sua moeda, o yuan, e ainda bloqueou no documento final uma proposta de Washington para que superávits ou déficits externos de grandes países não superassem 4% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos por um país ao longo de um ano). O plano sugerido na semana passada pelo secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, por pouco não provocou o colapso de um encontro de negociadores na noite de quintafeira, após um representante chinês ameaçar deixar a sala.
— Os chineses aguaram o comunicado, e dá para perceber pela linguagem do documento final como houve divergências — disse ao GLOBO uma fonte brasileira presente à sessão.
Mantega vê sanções morais para manipulação no câmbio O presidente dos EUA, Barack Obama, admitiu que o resultado do encontro em Seul não parecerá significativo aos olhos do público. No entanto, acrescentou, representa um avanço, especialmente diante dos temores de um impasse mais acentuado.
— Nosso trabalho no G-20 não vai mudar o mundo imediatamente, mas estamos passo a passo estabelecendo mecanismos internacionais e instituições mais fortes que vão nos ajudar na tarefa de estabilizar a economia mundial, assegurar o crescimento e reduzir algumas tensões — afirmou Obama.
O premier do Reino Unido, David Cameron — que nas reuniões fechadas fez um discurso inflamado cobrando mais empenho do G-20 na viabilização de acordos comerciais globais —, ressaltou a importância de os problemas estarem sendo discutidos num fórum multilateral.
Já o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que os ânimos foram arrefecidos em Seul.
O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, falou no encerramento em nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula voltou ao Brasil mais cedo para visitar o vice-presidente, José Alencar, que sofreu um infarto na quinta-feira. Mantega se disse satisfeito com a criação do que chamou de sanções morais contra países que manipulem o câmbio, mas também adotou um tom exageradamente otimista em função do que se viu e leu na capital sul-coreana.
— Os conflitos foram reconhecidos, mas houve um amplo entendimento entre os países, mesmo entre os mais reticentes.
Absolutamente não acabou a guerra cambial, mas pelo menos ela passou a ser discutida e, com isso, poderemos usar instrumentos para mitigar seus efeitos — disse o ministro. — Haverá uma cautela da maioria dos países.
Os que insistirem (em medidas anticompetitivas) serão constrangidos pelo novo acordo.
A exemplo do que fizera Lula na véspera, Mantega defendeu a relevância do G-20, sobretudo por seu potencial de acelerar a solução de questões internacionais como a reorganização do FMI. O documento final ratificou o aumento na participação dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) nas cotas do conselho consultivo do Fundo, bem como o papel do grupo na aprovação da reforma do sistema financeiro — o plano Basileia III, que eleva de 8% para 13% o capital mínimo livre de risco que os bancos devem ter.
— O G-20 é um foro de compromissos, e os países querem que ele permaneça — disse Mantega.
— Mostramos eficiência ao lidar com a crise em 2008 e não estamos perdendo tempo agora.
Não há vilões nem mocinhos, e certamente conseguimos bons resultados. Basileia II, por exemplo, demorou quase dez anos para ser aprovado, enquanto Basileia III levou apenas um.
Mas o ministro não espera a mesma velocidade no debate sobre a substituição do dólar por uma cesta de moedas nas trocas internacionais: — É uma tendência natural, mas nada rápido ou fácil.]
sexta-feira, novembro 12, 2010
Cada um por si
Cada um por si
Regina Alvarez - O Globo - 12/11/2010
Os resultados da cúpula do G-20 serão conhecidos hoje, mas não há expectativa de grandes avanços na pauta mais importante, que é a guerra cambial. Um comunicado com recomendações genéricas para que os países caminhem na direção de uma taxa de câmbio determinada pelo mercado, sem deixar claro como se reverte o atual quadro de desequilíbrio, é o mais provável.
Em nome da soberania, Estados Unidos e China — as duas potências que estão no centro do problema cambial — evitam sancionar compromissos que interfiram nas suas políticas internas.
A China resiste a qualquer imposição de fora para a valorização do yuan, e os Estados Unidos continuam a sustentar que o derrame de liquidez na economia americana é a receita adequada para reanimá-la.
Ao contrário de 2008, quando a ação coordenada do G-20 teve importante papel no esforço para sair da crise global, agora o que prevalece é o “cada um por si”, e o Brasil está no meio do tiroteio.
— O grande problema é decidir essa governança.
Que país se disporia a abrir mão de sua soberania na condução da política monetária? — pergunta o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central.
Neste momento, apesar dos discursos que condenam a guerra cambial no mundo e alertam para os riscos de “desequilíbrios externos insustentáveis”, os países estão olhando para dentro de suas economias, inclusive o Brasil, embora o presidente Lula tenha dito o contrário em Seul, ao declarar que estava mais preocupado com a desvalorização do dólar do que com a valorização do real.
Os discursos duros de Lula e do ministro Mantega, com críticas aos EUA e à China, não interferiram nos rumos da cúpula do G-20, mas contribuíram para marcar a posição do Brasil favorável ao câmbio flutuante e a uma postura mais ética no comércio internacional.
Conhecido o resultado da cúpula e frustradas as expectativas de um comando efetivo do G-20 para frear a guerra cambial, o Brasil pode ficar mais à vontade para adotar medidas prudenciais capazes de frear o fluxo excessivo de dólares na nossa economia ou mesmo a entrada de produtos chineses barateados artificialmente.
Se os grandes só estão olhando para o seu umbigo, por que não faríamos o mesmo?
FMI do B
Avançam na Europa as negociações para a criação de um “Fundo Monetário Europeu”.
A iniciativa está sendo liderada pela Alemanha.
Por ser o país mais rico da região, a potência sabe que pagará a conta em caso de moratória de algum membro da Zona do Euro. A economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria, chama a iniciativa de “pequena revolução”, porque, pela primeira vez, será criado um órgão com poder efetivo para forçar a reestruturação das dívidas desses países.
— O FMI não tem jurisdição legal para exigir que um país reestruture suas dívidas. Isso é bem mais fácil de contornar na Zona do Euro, onde existe uma Corte de Justiça Europeia, que pode funcionar como uma corte de falências soberanas — explica Mônica.
Enxurrada
O balanço da Anbima sobre oferta de ações na Bovespa mostra como aumentou o apetite dos americanos por esses investimentos. Eles continuam sendo os estrangeiros com maior participação nessas aplicações e ainda ampliaram a sua fatia. Do total de ofertas até setembro, 50,6% das ações foram parar nas mãos de estrangeiros. Entre eles, 73,9% são americanos, e 20,5%, europeus. Em 2009, a participação dos americanos era de 68,4%; enquanto a dos europeus era de 27,2%. A liquidez de dólares a juros zero estimula a vinda dos americanos para o Brasil. E ajuda a derrubar o câmbio.
G20 vê janela de oportunidade para finalizar Doha em 2011
Por Jonathan Lynn
GENEBRA (Reuters) - Os líderes do G20 pediram nesta sexta-feira um aumento dos esforços para a conclusão da Rodada de Doha, dizendo que o próximo ano oferece uma estreita janela de oportunidade.
O apoio do G20 à definição de 2011 como uma meta, mesmo que não seja explícito, marca um retorno otimista das negociações globais sobre comércio. A rodada foi lançada há nove anos.
O prazo inicial para a conclusão das negociações encerrava-se em 1o de janeiro de 2005.
Existe um crescente otimismo na Organização Mundial de Comércio (OMC), em Genebra, de que as negociações podem receber um impulso final após meses de discussões entre pequenos grupos de embaixadores.
O que os negociadores esperavam era por um sinal político dos líderes do G20, em Seul.
Em comunicado divulgado após a cúpula de dois dias, os líderes do G20 elogiaram o que classificaram como um engajamento "mais amplo e mais substantivo" dos negociadores em Genebra nos últimos quatro meses.
"Levando-se em conta que 2011 é uma janela crítica de oportunidade, embora estreita, esse engajamento precisa ser intensificado e expandido. Precisamos agora completar o fim do jogo", acrescentou o G20.
De acordo com uma fonte ligada ao comércio, apesar desse tipo de comentário ter sido comum nos últimos anos por parte das autoridades, dessa vez o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e outros líderes estão mais dispostos a apoiar um acordo do tipo.
Segundo a fonte, Obama disse a outros líderes que levaria um acordo para o Congresso e lutaria por ele, assim que o pacto mais adequado estivesse sobre a mesa.
"O que eu assumo desta cúpula é que há vontade política e um senso de que o próximo ano é o ano, quando teremos que tentar consolidar isso", disse a fonte, que participou da reunião em Seul.
(Reportagem adicional de Alan Wheatley em Seul)
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