domingo, maio 30, 2010

Quando a mulher pula o muro?

Quando a mulher pula o muro?
Não existe mulher fiel. Havendo o desejo e a oportunidade, a mulher será tão infiel quanto qualquer homem
Peter Moon

Homem fiel quase não existe, afirma a psicóloga francesa Maryse Vaillant no livro Les hommes, l’amour, la fidélité. A fidelidade masculina é tão rara que a mulher deveria parar de se preocupar. “O homem costuma trair também quando ama”, afirmou Vaillant à minha colega Ruth de Aquino, a diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro, em sua coluna Os homens, o amor e a fidelidade, de 14 de maio.
Eu concordo totalmente. Só acho que os homens não detêm o monopólio da infidelidade. E vou além. É verdade que, para a mulher casada (mas não para a solteira), é difícil pular o muro. É preciso administrar o affair com a rotina do trabalho, da casa, do marido e dos filhos. Mas, havendo o desejo, nada é impossível. Meu ponto é o seguinte: atingidas as condições ideais de temperatura e pressão e havendo a oportunidade, qualquer mulher será tão infiel quanto qualquer homem. Esta afirmação é lastreada em um conjunto de pesquisas sobre o resultado de testes de paternidade nos Estados Unidos e na Europa – mas também em relatos que registrei ao longo dos anos, aquelas histórias que quase todo mundo já ouviu falar – e muitos viveram – mas geralmente ninguém comenta em público, já que a hipocrisia grassa na sociedade.
Quem pula a cerca?
O melhor exemplo aqui é o de um amigo meu, o J.A.. Nos anos 1990, enquanto todos os colegas de faculdade estavam casando ou já casados, J.A. resistia. Era um solteiro convicto. E se recusava a namorar, ter compromisso, ser fiel. J.A. havia se habituado à condição ser “o outro”. Suas relações eram breves, intensas, divertidas e furtivas. Ele só se relacionava com mulheres casadas ou que tinham o mesmo namorado há anos. J.A. não tinha dificuldade em encontrá-las. Na verdade, ele já as conhecia. Eram suas amigas, amigas de anos, amigas que, eventualmente, se tornaram mais íntimas. Além da amizade prévia, havia uma constância entre as suas parceiras. Todas viviam relacionamentos frustrantes, mas ainda assim não conseguiam – ou não queriam – romper com namorados e maridos. Buscavam em J.A. o carinho que não encontravam em casa. J.A. tinha consciência que não passava de um estepe. Não se importava. Para ele, aquelas eram relações confortáveis, sem compromisso, just for fun. Inúmeras terminaram sem dor. Algumas poucas, aquelas nas quais J.A. acabou se envolvendo, acabaram mal.
Por conhecer as histórias deste amigo (e de alguns outros), achei parcial a afirmação da psicóloga francesa de que a fidelidade masculina é tão rara que a mulher deveria parar de se preocupar. É claro que não há homens fiéis! Os homens sabem disso. As mulheres, também. Mas não quer dizer que todos os homens sejam infiéis o tempo todo (meu amigo J.A., por exemplo, hoje sentou o rabo, está casado, feliz e fiel). No entanto, dada a oportunidade, qualquer homem pula a cerca. E o mesmo se aplica à mulher. Elas podem ser tão infiéis quanto qualquer homem. Os motivos para a busca de uma relação paralela é que mudam.
Homens pulam o muro à procura de sexo. Para nós, não há conflito entre a busca do sexo fora de casa e o amor que sentimos por nossas namoradas e esposas. É da natureza masculina, assim como a sedução é da natureza feminina. Ao se envolver numa relação paralela, enredando-se nas teias de sedução da amante, o infiel corre o risco de se apaixonar e acabar por abandonar a mulher. A possibilidade existe, já que, por definição, a amante quase sempre buscará deixar a condição de “outra” para assumir o controle da lojinha.
Em sua imensa maioria, mulheres infiéis buscam muito mais do que sexo numa relação extraconjugal. Sexo é importantíssimo, mas para as mulheres não é suficiente. As amantes de J.A. não haviam deixado de amar seus maridos ou namorados (ou de acreditar na ilusão do amor romântico). A mágoa acumulada e a busca de auto-estima às impeliram a procurar carinho. Queriam voltar a se sentir desejadas. Mulheres que seduzem são mais belas porque gostam mais de si mesmas.
Maternidade e infidelidade
Um outro atributo feminino é a maternidade. Algumas mulheres procuram relações extraconjugais com o intuito (consciente ou inconsciente) de gerar vida. Não sou eu quem afirma. São os números. Tudo começou nos anos 1950 com o famoso Relatório Kinsey, o primeiro estudo científico sobre a sexualidade dos americanos. O que me interessa aqui são alguns resultados que jamais saíram publicados no relatório original. Foram censurados. Mas tomei conhecimento deles ao ler, em 1997, Por que sexo é gostoso?, do biogeógrafo americano Jared Diamond.
Os americanos são, em comparação aos brasileiros e aos europeus, de maneira geral mais moralistas. O primeiro estudo de paternidade de que tenho notícia foi realizado pelos pesquisadores do Relatório Kinsey na Maternidade do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, Nova Inglaterra, o ponto de desembarque em 1600 dos primeiros colonizadores puritanos daquilo que viria a ser os Estados Unidos. Ao checar o tipo sanguíneo de pais e bebês do berçário do Mass General, os pesquisadores chegaram à espantosa constatação de que entre 10% e 30% dos recém-nascidos NÃO ERAM FILHOS DAQUELES QUE ACREDITAVAM SER SEUS PAIS. Ora, estas porcentagens foram registradas numa região particularmente conservadora de um país sabidamente conservador e durante uma década conservadora, os anos 1950, que precederam a Revolução Sexual e o amor livre dos anos 1960.
 “Se a ‘discrepância paterna’ podia oscilar de 10% até 30% numa sociedade careta como aquela, o que não esperar do Brasil, uma sociedade cujo povo se relaciona com o corpo e o sexo de forma muito mais livre?”, foi o que pensei ao ler o livro de Diamond. Mais de 60 anos depois da publicação do Relatório Kinsey, hoje se sabe que suas conclusões foram superestimadas. A aferição da paternidade via tipos sanguíneos fornece dados bem menos precisos do que os testes genéticos de paternidade. Eles não existiam em 1950, mas hoje estão muito perto de se tornar disponíveis nas farmácias, como os testes de gravidez. Outro dado a se levar em conta é que, na época do primeiro Relatório Kinsey, não havia anticoncepcionais. A pílula é de 1960.
Hoje se sabe que, dependendo do grupo sócio-econômico e da faixa etária em que a mãe se insere, a ‘discrepância paterna’ (o eufemismo científico para definir a descoberta de filhos ilegítimos) oscila de 1% até 30% (a média é 4%) nos Estados Unidos e na Europa – e, arrisco dizer, também no Brasil. “Medindo a discrepância paterna e suas consequências na saúde pública” é um estudo muito revelador publicado em 2005. Nele, descobre-se que as mulheres mais jovens, na faixa etária entre 16 e 24 anos, têm maior risco de ter filhos com discrepância paterna (15,2% dos casos). Logo em seguida vem o grupo de 25 a 34 anos, com 7,6%. A concentração dos casos nestas faixas etárias se explica por se tratar, em sua imensa maioria, de mulheres solteiras COM MAIS DE UM PARCEIRO.
Há várias razões levantadas para explicar o nascimento de crianças com ‘discrepância paterna’. Muitas são ocasionais e não-intencionais. Uma moça pode ter um namorado antigo. Frustrada com a relação, ela se envolve com outro homem. Como todos sabemos, o rompimento de uma relação longa não se dá de uma hora para a outra. A separação acontece entre idas e vindas. Dura meses. É numa destas vindas que ocorre a fecundação da criança que acabará sendo criada como filha do “amante-que-se-tornou-marido”, mas ignora que não é o pai.
Outra hipótese é a mulher casada que ama o marido, mas não consegue engravidar dele. Há mulheres nestas condições que, deliberadamente, decidem pular a cerca para engravidar, e retornam ao marido para com ele criar o bebê.
O teste de paternidade deve ser proibido?
A infidelidade feminina é a regra em nossa espécie. E 4% de “discrepância paterna” é um percentual médio enorme. Caso os testes de paternidade se tornassem indiscriminadamente acessíveis, seu resultado afetaria e desagregaria uma em cada 25 famílias. Pense na sala de aula dos seus filhos, se você é pai ou mãe. Numa classe com 25 alunos, é quase certo que pelo menos uma criança não é filha daquele que chama de pai. A coisa complica quando se considera que, detectada a discrepância paterna, de uma hora para a outra uma avó e um avô deixariam de ter um neto, irmãos se tornariam meio-irmãos, e o casamento acabaria.
Mesmo nos casos em que a constatação da infidelidade da mãe não encerra o casamento, os pais passam a gastar mais tempo e recursos com seus filhos biológicos do que com aqueles ilegítimos. Este, por sua vez, passam a ter mais risco de sofrer agressão paterna – assim como a comprovação da infidelidade é um fator que pode desencadear a violência doméstica contra a mulher.
Há inúmeras razões pelas quais vários advogados em todo o mundo defendem a restrição do acesso aos testes de paternidade. Estes só seriam utilizados com autorização judicial. “O teste de paternidade atenta contra a família e ameaça o tecido da sociedade”, me disse um amigo advogado.
Homens e mulheres são infiéis. A infidelidade generalizada não é uma questão de gênero, mas de espécie. Nas sociedades tribais, a poligamia é, na maioria das vezes a regra, não a exceção. O Homo sapiens é uma animal polígamo e promíscuo. Herdamos este comportamento do ancestral comum que dividimos com os chimpanzés, que são igualmente polígamos e promíscuos. No entanto, desde a constituição das primeiras cidades e civilizações, há 10 mil anos, a monogamia foi se impondo como uma condição para a vida em sociedade. O grande paradoxo reside na obrigação social, moral e legal de um animal polígamo levar uma vida monogâmica. Sob está ótica, a infidelidade da mulher e do homem é uma válvula de escape que nos reconecta às nossas origens.
(Peter Moon escreve às sextas-feiras)

Estudo de Uerj revela que mudança climática afeta a orla do Rio

Estudo de Uerj revela que mudança climática afeta a orla do Rio
André Balocco , Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - A menos de uma semana de comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), más notícias para quem vive na orla do Rio: estudo sobre o litoral carioca apresentado pela Faculdade de Oceanografia da Uerj no IV Congresso Brasileiro de Oceanografia, realizado no Rio Grande do Sul na semana passada, aproxima a cidade do cenário do filme 2012. Comandado pelo oceanógrafo David Zee, o estudo chega à conclusão que, diante da maior incidência de ressacas, por conta das mudanças climáticas no planeta, a faixa de areia de parte da praia de Copacabana está com os dias contados. Até mesmo as normas técnicas que regem a construção na beira-mar devem ser refeitas.
– Não dá mais para construir perto do litoral, porque o mar vai comer, vai avançar – diz Zee, impressionado com o que tem visto.
Presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães afirma que o mar está apenas "usando o espaço que lhe é de direito".
– Parte da areia foi aterrada para a construção da Avenida Atlântica, o mar precisava desse espaço – argumenta. – Quando se anuncia uma ressaca, os donos de quiosques constroem barricadas com sacos de areia a fim de evitar que o mar invada seus banheiros, cozinha e depósito subterrâneos.
Também coordenador do Mestrado em Meio Ambiente da Universidade Veiga de Almeida, Zee diz que a diminuição da faixa de areia nos postos 5 e 6 é apenas a ponta do iceberg que descongela.
– Normalmente, a largura da praia de Copacabana, desde o aterro nos anos 60, varia de 80 a 120 metros. Em situações extremas de ressacas, diminui para 40 a 60 metros. Nunca vi do jeito que está agora – espanta-se, numa referência ao fato de a água, por vezes, bater no calçadão. – A tendência é piorar.
E essa piora, diz Zee, já pode ser percebida no Posto 6, por exemplo. A altura entre o calçadão e a areia, antes de meio metro, hoje chega a quase dois metros. A foto abaixo, tirada segunda-feira, deixa claro o nível da areia estava até bem pouco tempo atrás. Diante do poste, surgiram as pedras do enrocamento que protege o calçadão. Algumas delas já foram tragadas pelo mar; outras estão descendo, pouco a pouco, ressaca a ressaca, em direção ao oceano.
No Posto 5, o fenômeno se repete. Na última grande ressaca, em março, o enrocamento ficou exposto diante dos quiosques da Rua Djalma Ulrich. Até hoje, percebe-se uma ou outra pedra na areia e os barraqueiros foram obrigados a encostar suas barracas nas pedras portuguesas. Pode-se perceber ainda que o mar vem quebrando mais ao fundo, como acontecia antes do aterro.
Entrevista: "Os prédios estão mais vulneráveis", alerta David Zee
Diante desta nova realidade, quais as providências?
– A primeira coisa que precisa ser feita, de imediato, é reformular a estratégia de enfrentamento da ressaca, desenvolver um programa de monitoramento constante através de bóias, entender como a coisa está evoluindo localmente. A segunda é um reestudo das normas técnicas das construções costeiras. Não dá mais para construir tão próximo ao litoral, porque o mar vai comer, vai destruir.
Como evitar que a areia continue sendo roubada?
– Uma barreira de contenção de sedimentos e replantar a vegetação rasteira ajudariam.
A mudança na direção dos ventos que trazem a ressaca causa preocupação a quem vive em prédios antigos?
Sim, os ventos estão mais intensos. É preciso a elaboração de novas normas técnicas para o dimensionamento das suas vidraças, pois há risco delas se espatifarem.

sábado, maio 29, 2010

Isso já é demais!

Após assaltos, comerciante bota placa para ladrões

Lucidez!

"Uma sociedade que não se mobiliza, 
uma sociedade que terceiriza seu destino nas mãos de um messias, 
de um salvador da pátria,
 não é uma sociedade politicamente sustentável"

Marina Silva

Assunto seriíssimo! Artigo brilhante!

Atos perversos
Betty Milan – Revista VEJA - 17 de março de 2010
"Entre os tantos abusos dos adultos, estão os que eles praticam com as palavras, maldizendo a sexualidade - e, mais que isso, emporcalhando-a. Uma só frase e o outro poderá ficar marcado para sempre"
Quem faz um consultório sentimental, como o meu em VEJA.com, confronta-se repetidamente com a irresponsabilidade de adultos em relação ao corpo da criança. Toda delicadeza é pouca, e qualquer aproximação que não seja dessexualizada é abusiva. Manipular o pênis do menino ou tocar, com segundas intenções, o sexo da menina são atos que podem dar origem a uma fantasia contrária ao desenvolvimento normal, ora precipitando na infância um comportamento sexual próprio do adulto, ora comprometendo a sexualidade do sujeito para o resto da vida, tornando-a inclusive impossível.
Não é preciso tocar para abusar da criança. Um olhar voyeurista é suficiente para induzir ao exibicionismo na infância ou depois. A exibição do sexo pelo adulto basta para induzir ao voyeurismo, o que não significa que a nudez deva ser proibida. Uma coisa é o exibicionismo e outra é a nudez.
Entre os tantos abusos dos adultos, estão os que eles praticam com as palavras, maldizendo a sexualidade - e, mais que isso, emporcalhando-a. Uma só frase e o outro poderá ficar marcado para sempre. Em geral, os atos perversos permanecem impunes. Quem tiver uma suspeita fundada e ficar em silêncio deve ser responsabilizado por deixar o adulto infrator livre para exercer a sua violência contra a criança e o jovem. Denunciar o comportamento perverso é a forma de impedir que ele se reproduza.
Foi o que fez Kathryn Harrison no romance O Beijo, publicado originalmente nos Estados Unidos e traduzido no Brasil. Kathryn narra com detalhes como o pai, um pastor, a seduziu, alegando que obedecia à vontade de Deus. Ela foi cúmplice dele durante quatro anos, mas teve a coragem de revelar a verdade e mostrou, assim, os efeitos nefastos do incesto. Com isso, emergiu como escritora. Converteu um trauma num trunfo, protegendo possíveis vítimas.
Decerto, escreveu para superar o desespero. Mas o livro fez dela uma cidadã exemplar e um modelo a ser seguido. Porque soube dizer não ao pai usurpador. Aquele que desprezou a lei ao transformar o prazer na única lei do seu desejo.
OBS: A imagem que ilustra é de Sandra Speidel/Getty Images

Recordando uma crônica antiga...de 2003, publicada na revista Época

Clique na imagem e você lerá no tamanho original da página da revista.

Exemplo de criatividade para quem acha que já viu tudo na internet....

NÃO MAXIMIZE A TELA!!
 Importante: quando clicar no link abaixo, deixe a tela no tamanho em que abrir e veja o que acontecerá.  Exemplo de criatividade para quem acha que já viu tudo na internet....

Antonio Carlos Jobim - Borzeguim

Reflexão


Leandro, no Diário de Guarulhos


Caminhos cruzados no direito

Caminhos cruzados no direito

WALTER CENEVIVA – Folha de São Paulo
Há dois sistemas jurídicos mais difundidos: Common Law (usos e costumes) e Statute Law (leis escritas)

HÁ MUITOS sistemas jurídicos em nosso planeta. Quando me refiro a sistemas jurídicos não quero apenas mencionar leis em vigor. Mas a combinação ordenada de princípios e normas a comporem um todo metodicamente estruturado para regular as relações entre as pessoas, num território determinado.
A visão fica mais clara se lembrarmos que há dois sistemas mais difundidos, da "Common Law" (no Reino Unido, por exemplo) e da "Statute Law"" (no Brasil, como outro exemplo).
Não se assuste com o inglês. É o modo mais frequente de diferenciar países regidos sob a quase exclusiva jurisprudência dos tribunais, por usos e costumes (o primeiro tipo), ou países regidos predominantemente por leis escritas, sob Constituição também escrita (segundo tipo). Embora os dois sistemas continuem diferentes, vêm sendo mesclados nos últimos anos. Um absorvendo lições do outro. É assim com as leis (o Brasil acolhe súmulas judiciais vinculantes que fazem a lei) ou com as sentenças judiciais (o Parlamento inglês deve apreciar nos próximos meses mais de vinte projetos de leis novas, substituindo a jurisprudência).
A contar da segunda metade do século 20, ampliou-se a mistura, na tendência ininterrupta de aproveitar experiências trocadas. A devastação na Europa depois de 1945 ampliou o modo de ver o direito e sua aplicação em face da coletividade.Cabe um exemplo: no Brasil, na Constituição do regime militar (1964-1985) foi muito usada a arguição de relevância que autorizava o Supremo Tribunal Federal a resolver em reunião secreta, sem alegação de motivo, a acolhida ou a rejeição a seu julgamento de certos assuntos. Foi um período de exceção, fora dos sistemas democráticos.
No rumo oposto, os Estados Unidos são bom exemplo, pois sua Constituição tem pouquíssimas emendas, desde a aprovação na segunda metade do século 18. O número restrito de emendas se explica porque o sistema legal inglês continuou a ser aplicado depois da independência do país. Lá, onde o sistema da Common Law é predominante, aos poucos abriram-se claros da jurisprudência preenchidos com leis escritas, para questões civis, criminais, administrativas. Isso continua acontecendo. Entre nós, a carta de 1988 (duzentos anos mais nova) deverá chegar, em 2010, a cerca de 70 emendas. Neste ano, foram publicadas na esfera federal 57 novas leis, sendo que existem dezenas de projetos de leis em andamento.
Tanto em países democráticos quanto em ditaduras assinalou-se, no mesmo período, o maior poder do Executivo, com formas diretas e indiretas de controle do Judiciário e do Legislativo. Na pura ciência do direito é difícil compor explicação perfeita e sintética do que houve. Com um acréscimo: nem a Constituição, nem as leis têm tido tal harmonia em sua interpretação de modo a impedir distorções. Elas se repetem frequentemente, na União, nos Estados e nos municípios em cobranças, pelos credores, por débitos não pagos pelo Poder Público.
O leitor pode perguntar se as coisas, nesse campo, vão melhorar. Acho que sim. Estamos hoje no meio do turbilhão das mudanças em todos os níveis, dos países aos continentes. Os caminhos cruzados do direito talvez venham a gerar novas soluções, o mais tardar. Provavelmente no século 22.

Hoje na História - 1453: Constantinopla é tomada pelos turcos

Hoje na História - 1453: Constantinopla é tomada pelos turcos
29/05/2010 - 06:05 | Max Altman | São Paulo

Em 29 de maio de 1453, a cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino desde o ano de 395, cai nas mãos do sultão otomano Mehmet II, após um sítio de diversas semanas. Desde o século XIV, que os turcos otomanos haviam se apoderado de grande parte da península balcânica. Esta vitória corta o Ocidente de suas raízes greco-romanas e orientais. A cidade seria rebatizada de Istambul e atingiria seu apogeu sob o reinado de Solimão I, o Magníico (1520-1566).

Constantinopla era, até o momento de sua queda, uma das cidades mais importantes no mundo. Localizada no estreito do Bósforo entre o mar Negro e o mar de Mármara, funcionava como uma ponte para as rotas comerciais que ligavam a Europa à Ásia por terra. Também era o principal porto nas rotas que iam e vinham entre o mar Negro e o mar Mediterrâneo. Para explicar como uma cidade deste porte caiu em mãos estrangeiras, é preciso uma explicação histórica.

A partir do século III, o centro administrativo do Império Romano tendia a voltar-se mais para o Oriente, por múltiplas razões. Primeiro pela necessidade de defesa das fronteiras orientais; depois porque o oriente havia se tornado a parte econômica mais vital do domínio romano; por fim Roma era uma cidade rica de vestígios pagãos, o que era inconveniente num império cristão. Desse modo Constantino decretou a construção de uma nova capital, onde ficava a antiga fortaleza grega de Bizâncio, ponto de grande importância estratégica. A nova cidade recebeu o nome de Constantinopla, "cidade de Constantino" e foi concebida como uma "nova Roma". Rapidamente se tornou o centro político e econômico do Império. Sua criação teve repercussões também no plano eclesiástico: enquanto em Roma a Igreja Católica adquiriu mais autoridade, em Constantinopla o poder civil controlou a Igreja.

O declínio do Império Bizantino decorre principalmente da expansão dos turcos seljúcidas e dos conflitos com os húngaros. Porém, a primeira vez que Constantinopla foi saqueada o foi pelos cristãos ocidentais, e não por seus inimigos tradicionais. A capital do Império Romano do Oriente foi tomada pela Quarta Cruzada em 1204. O ataque foi feito pelo mar, e a cidade foi saqueada e incendiada por três dias, e nem tesouros da Igreja Ortodoxa e supostas relíquias cristãs, riquezas acumuladas por quase 1000 anos, foram poupados.

Em 1190, a Terceira Cruzada, formada por contingentes das potências ocidentais, não recebera dos bizantinos o apoio esperado quando se dirigia à Terra Santa. Tal fato se deu porque os bizantinos, acreditando que o líder dos turcos, Saladino, principal inimigo dos cruzados instalados na Terra Santa, fosse invencível, preferiram manter a maior neutralidade possível. Outro fator era o cisma religioso existente, não aplacado pelos esforços da Igreja Católica Romana e da Igreja Católica Ortodoxa Grega. Também deve ser considerado o costume de se distribuir entre os generais e seus soldados o butim de guerra, formado pelos lendários tesouros e famosas relíquias.

Além disso, existia uma crise sucessória no trono bizantino, que facilitou a investida cruzada. Depois de uma revolta bizantina, em 1204 os cruzados novamente tomaram a cidade. Inaugurou-se assim o chamado Império Latino (1204-1261) com o reinado de Balduíno I (Balduíno IX, Conde da Flandres) . Parte dos territórios bizantinos foram divididos entre os chefes da cruzada, formando-se os reinos independentes católicos na região de Tessalônica, Trebizonda, Épiro e Nicéia. Os bizantinos reuniram forças, e em 1261 retomaram Constantinopla e restabeleceram seu domínio sobre a Península Balcânica. Mas agora governavam um império depauperado economicamente e sem o apoio da Igreja Católica, que perdurou até 1453.

Mesmo antes da Quarta Cruzada, o Império Bizantino vinha, havia muitos séculos, perdendo territórios para muçulmanos no Oriente Médio e na África. No início do século XI, uma tribo turca vinda da Ásia Central, os seljúcidas, começaram a atacar e ganhar territórios bizantinos na Anatólia. No final do século XIII, os seljúcidas já haviam tomado quase todas as cidades gregas da Anatólia. Nesta época, um clã semi-nômade turco teria migrado do norte da Pérsia para o oeste. O líder desse clã chamava-se Osman I ou Othman, daí porque esses turcos passaram a ser conhecidos como "otomanos".

A queda de Constantinopla teve grande impacto no Ocidente. Os cronistas da época confiavam na resistência das muralhas e achavam impossível que os turcos pudessem superá-las. Chegou-se a iniciar conversações para uma nova cruzada para liberar Constantinopla do jugo turco, mas nenhuma nação quis ceder tropas naquele momento. Para os historiadores em geral a Queda de Constantinopla marcou o fim da Idade Média.

Com Constantinopla sob domínio muçulmano, o comércio entre Europa e Ásia declinara subitamente. Nem por terra nem por mar os mercadores cristãos conseguiriam passagem para as rotas que levavam à Índia e à China, de onde provinham as especiarias e artigos de luxo.

As nações européias iniciaram projetos para o estabelecimento de rotas comerciais alternativas. Portugueses e espanhóis aproveitaram sua posição geográfica junto ao Oceano Atlântico e à África para tentar um caminho ao redor deste continente para chegar à Índia. Já Cristóvão Colombo via uma possibilidade de chegar à Ásia pelo oeste, através do Oceano. Com as Grandes Navegações, Portugal e Espanha, países outrora sem muita expressão, se tornaram no século XVI os mais poderosos do mundo, estabelecendo uma nova ordem mundial. 
*Com informações do site forumnow

Igreja do Bom Pastor Fotografia por Thomas Young,

Uma igreja de pedra velha senta-se entre as gramíneas plácidas do Sul da Nova Zelândia Island, uma terra conhecida por suas grandes extensões de terras virgens e grandes estabelecimentos agrícolas.

Mercedes Sosa - Gracias a La Vida

Velha história - Vinicius de Moraes

Velha história

Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
Vinicius de Moraes
(1913-1980)

Eleições: o dom de iludir

Eleições: o dom de iludir
FERNANDA TORRES

O candidato é um ator em eterno teste; uma condição vexatória e desconfortável
O QUE LEVA alguém a se candidatar à Presidência? A ser tão bisbilhotado, ofendido, pesquisado e aviltado? Que papel grandioso é esse cujo ensaio, estreia e temporada custam o fígado do próprio intérprete?
A política é um palco letal, o Coliseu romano da atualidade. Um lugar de ódios milenares, mágoas irreparáveis, conciliações imperdoáveis e, também, do temível ridículo. Eu seria incapaz de atuar sob tamanha pressão.
Não se trata apenas de dar conta de Rei Lear: tem que voar no jatinho, fazer a carreata, comer dobradinha, andar de mula e enfrentar a tempestade do Crato ao Pampa gritando "Uiva vento!" pelos palanques.Tem que ter sangue de barata, paciência de Jó, cara de pau e vontade de elefante.
Outro dia me mandaram um link na internet onde a Dilma Rousseff se embananava toda para responder a uma simples questão: "Que livro a senhora está lendo?" Qualquer um que cultive o prazer de ler sabe que um ser humano que está em plena campanha presidencial não tem cabeça nem tempo para se dedicar à leitura.
Talvez a "Arte da Guerra", de Sun Tzu, entre um programa do Ratinho e outro, seja o único exemplar que resista ao tranco, por seu conteúdo bélico de autoajuda milenar. Mas admitir que não está lendo porcaria nenhuma é encarar as manchetes do dia seguinte afirmando que fulano, ou fulana de tal, é um energúmeno, um(a) ignorante não afeito às letras. Por isso Dilma se contorce, tentando se lembrar do último livro que leu, o que só consegue com a ajuda dos assessores. A duras penas acerta o título e a mais duras ainda arrisca um resumo dele. A pergunta corriqueira, quem diria, a colocou em um mato sem cachorro. Se a tivessem arguido a respeito da política de juros, da dívida pública ou até mesmo de um espinhoso tema como o aborto, ela estaria apta a responder. Bastou uma perguntinha pessoal para que Dilma se afastasse brechtianamente da ciranda da candidata e caísse em si mesma, perdendo o fio do personagem.
O candidato é um ator em eterno teste. Uma condição vexatória e terrivelmente desconfortável. José Serra escolheu o perfil do conciliador boa-praça, se manteve bem no personagem até que perdeu a paciência na rádio CBN diante da prensa de Míriam Leitão. Míriam, aliás, tem sido dos ossos mais duros de roer para os que estão na corrida presidencial. Serra soltou um desabafo irritado a respeito do que pensava da relação entre a Presidência e o Banco Central. Depois, teve que remar forte para recuperar a imagem que passou semanas construindo, justificando de forma sincera que o horário matutino lhe havia puxado o tapete.
Qualquer razão idiota, como pular da cama cedo, pode colocar tudo a perder; da mesma forma que um celular que toca no meio de um espetáculo pode fazer Macbeth desencarnar de vez da alma de um ator.
A verdade e a franqueza são armas de destruição em massa na política, é necessário saber ocultá-las com desenvoltura e, muitíssimas vezes, mentir com convicção.
Marina Silva não titubeia, ela é a terceira via, pode dizer o que pensa. Apesar de ter sido ministra, ela não passa pelo comprometimento político dos dois outros adversários, pertencentes a partidos que já ocuparam o Planalto e fizeram alianças muitas vezes incompreensíveis para poder governar. Marina está dentro e fora do jogo, uma posição importante e confortável.
Glorinha Beautmüller, fonoaudióloga e preparadora vocal de inúmeros atores e políticos, é uma figura lendária, dona de intuição aguçada, métodos nada ortodoxos e técnica que visa ancorar a palavra ao corpo e aos sentidos do palestrante. Profissional ímpar, ela já botou de quatro modelos com ambições a atriz, para que perdessem a pose enquanto recitavam um texto, e aconselhou com veemência que Cláudia Jimenez falasse pela vagina na sua estreia no teatro profissional como uma das prostitutas de "A Ópera do Malandro". Ao que Claudia, com seu talento e humor de sempre, respondeu, aplicada: "Eu estou tentando, Glorinha, estou tentando!"
Uma vez, a maga foi chamada às pressas a Brasília para atender um político repentinamente afônico e necessitado de discursar. Segura, não pestanejou no diagnóstico: "Meu filho, você está rouco desse jeito porque você mente demais!"
Hoje, o político ideal deve reunir o carisma de Sílvio Santos, a classe de Paulo Autran, a astúcia de Alexandre, o Grande, a retórica de Ruy Barbosa, o empreendedorismo de Antônio Ermírio, a responsabilidade do doutor Paulo Niemeyer, o desapego de Buda, a razão de Confúcio, a bondade de Cristo e ainda sair vivo da arena quando soltarem os leões famintos atrás da sua carne. Essa pessoa não existe. O político, portanto, tem que ter o dom de iludir.

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