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| Após um hiato de quase dez anos, a escritora mineira volta a publicar suas poesias e afirma que é nas letras que encontra alegria, consolo e esperança |
quinta-feira, outubro 28, 2010
O território de Adélia - Karla Monteiro
O território de Adélia - Karla Monteiro
O Globo – Segundo Caderno – Reportagem de Capa
O jejum é de quase uma década.
O último livro de poesia, “Oráculos de maio”, saiu em 1999. E o derradeiro de prosa, “Filandras”, em 2001. Na segunda-feira à noite, na Livraria da Travessa do Leblon, Adélia Prado deu de novo as caras, com “A duração do dia” (Record), que ficou cozinhando, em fogo brando, por dez anos. Encontramos a escritora horas antes do lançamento, escoltada pelo marido, o bancário aposentado e apaixonado José de Freitas. Os dois não se largam. São 53 anos de casamento, cinco filhos e nove netos.
Em pessoa, Adélia é a sua escrita: simplicidade e religiosidade, sabedoria e busca.
Durante duas horas de conversa, ela pediu algumas vezes para não botar no jornal isso ou aquilo. Tem pavor de parecer “metida”.
Mas, num momento do papo, a senhora de 75 anos, cabelos grisalhos, elegância nata, soltou um segredo impossível de guardar.
Anda lendo física quântica. E descobriu uma coisa transformadora: a física a consola mais do que a teologia.
— Eu não quero que coloque essas coisas.
É chato. Mas, de verdade mesmo, estou lendo física quântica. Quando iniciei, eu falei: “Gente, mas isso é mais consolador do que a teologia...” Física é a própria poesia — diz, com o sotaque mineiro saltando a cada frase. — As pessoas diziam de mim no começo: “Dona de casa, mãe de cinco filhos, casada com bancário, pão de queijo... Essa mulher escreve?” Mas eu tinha certeza do que estava fazendo. Escrever me deu alegria, consolo, esperança. É o território que me protege, que me dá sentido.
Para chegar ao Rio, o casal enfrentou oito horas de ônibus. Partiu de Divinópolis, no centro-oeste de Minas, uma cidade de 200 mil habitantes, onde Adélia nasceu e sempre viveu. A escritora morre de medo de avião. E, atualmente, só deixa as montanhas quando o caso é sério. A ocasião merecia.
“A duração do dia” foi um processo vagaroso.
Adélia não é o tipo de escritora que tem um método, uma rotina. Não consegue trabalhar todos os dias. Só escreve quando “a coisa vem”. Quando fala da sua escrita, ela invariavelmente usa o verbo “vir”. O livro não “vinha”. De repente, segundo conta, a obra foi se formando, ganhou unidade, corpo e “até um nome”. Aí era hora de publicar.
Adélia só vai lançar no Rio e em Divinópolis.
Não pretende fazer uma turnê rodoviária.
Já fez várias — e até encarou muito avião para lançamentos fora do Brasil.
Ao todo, contabiliza 18 livros (e um prêmio Jabuti): seis de prosa, seis de poesia e seis antologias.
— Acho que ninguém explica a forma como se escreve poesia, né? Acho que há um impulso inicial, interno, sobre algo que se quer dizer, e quer se dizer em forma de poesia.
A partir daí você tenta escrever. Nem sempre você é feliz. Às vezes, o poema não se resolve. Eu não sei falar sobre isso, não — reclama. mdash; Gosto mais de escrever poesia do que prosa. E digo que o objetivo da prosa é a experiência poética. Se não, eu acho, a prosa não sabe a que veio. Toda arte tem uma finalidade só: tocar aquele nervo.
Na prosa, você não narra porque narra. Alguma coisa tem que se mover.
A atriz Cássia Kiss é movida a Adélia Prado.
Na segunda-feira, ela estava lá, no lançamento de “A duração do dia”, fazendo leituras dos poemas. Cássia a conheceu no corpo de Fernanda Montenegro, na peça “Dona doida, um interlúdio”, baseada em textos da autora. A montagem, de 1987, sob a direção de Naum Alves de Souza, arrebentou, com prêmios nacionais e internacionais.
— Fiquei muito impressionada com a beleza da Adélia: simples, religiosa e ao mesmo tempo repleta de questões. Ela é muito distante de qualquer resumo que se possa fazer dela. O que traz na obra é impressionante.
Estou trabalhando há anos em um projeto para teatro baseado na prosa da Adélia. A poesia, a Fernanda já fez maravilhosamente — diz Cássia. mdash; Do novo livro, eu gosto muito. Eu gosto da Adélia. E ponto.
Eu sinto a poesia dela. É preciso ler e reler obsessivamente para se chegar a um pedacinho de Adélia Prado.
Os preciosos escritos atravessaram as montanhas em 1975, muito antes de Fernanda Montenegro descobri-los e projetar a poeta mineira nacionalmente. No dia 9 de outubro daquele ano, Carlos Drummond de Andrade publicou uma crônica no “Jornal do Brasil” chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora. No ano seguinte, o lançamento de “Bagagem”, o primeiro livro, atraiu até o presidente Juscelino Kubitschek. Todo mundo estava lá: Antonio Houaiss, Rachel Jardim, Clarice Lispector, Nélida Piñon... Entre os presentes, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, o crítico da “Veja” que havia apresentado a poesia de Adélia a Drummond.
Affonso Romano tem muitas histórias de Adélia para contar. Numa tarde de 1975, na redação da “Veja”, ele recebeu um pacote com poesias manuscritas, em folhas de caderno, vindas de Divinópolis. Como bom mineiro, foi ler a conterrânea. Após a leitura, ligou para Drummond correndo, cheio de entusiamo.
E, anos depois, também foi ele quem a apresentou a Fernanda Montenegro.
— Ler poesia é como procurar ouro na bateia. Quando li Adélia senti que uma coisa rara tinha acontecido. A linguagem era simples, mas fortemente metafórica. Ela recuperava o telúrico de Guimarães Rosa, o discurso direto de Drummond. E trazia uma voz feminina surpreendente — conta Affonso Romano. — O lançamento de “Bagagem” foi um acontecimento. Lembrome de uma festa para a Adélia na cobertura do Rubem Braga. Ela era, e ainda é, tão simples que pediu autógrafos na festa dela. Hoje, atrai quatro mil pessoas na fila de autógrafos da Flip.
Não por acaso, Affonso Romano e Drummond foram os primeiros a dar atenção à poeta.
Quem conhece o interior de Minas entende essa alma. Ela nasceu numa família de 11 irmãos, filha de um ferroviário.
Perdeu a mãe com 14 anos. Divinópolis, como qualquer cidadela mineira, era aquele pranto de fé, de tradição e de afeto. E Adélia gostava de igreja. Mesmo menina, conseguia ouvir além do discurso doutrinário.
Regozijava-se na beleza da poesia sacra, na liturgia. Aos poucos, diz que foi entendendo as questões existenciais nos ensinamentos de Jesus.
Aos 22 anos anos, casou-se com José, um “partidão do Banco do Brasil, o sonho de toda moça e de todo pai de moça”.
Depois de uma carreira “chinfrim” como professora, cinco filhos e um curso superior de Filosofia, descobriu-se, enfim, escritora, aos 40 anos: — Eu sempre li muito, gostava de ler, a ponto de preocupar a minha madrasta. Ela dizia: “Quando você se casar, eu não sei como vai ser.” A poesia é a face da beleza divina, a pegada de Deus na brutalidade das coisas.
Modos de saber
Modos de saber
Francisco Bosco – O Globo – Segundo Caderno
Budistas eminentes são sábios; estoicos são sábios. Poetas raramente são sábios
Na época em que fiz graduação, tive um professor muito estudioso e brilhante. Algumas pessoas diziam dele que era um erudito, ao que ele reagia com certa irritação: “As pessoas não fazem ideia do que é um erudito!” Essa frase nunca saiu da minha cabeça. Desde então tento pensar o que é um erudito. Vou partir dessa figura para esboçar aqui uma tipologia a delinear diferentes modos de saber: o do erudito, o do sábio, e, faute de mieux, o do inculto.
A etimologia não nos ajuda, pois erudito vem do latim “erudire”, que significa tirar da rudeza, isto é, instruir, formar, aperfeiçoar. A princípio, esses significados se confundem com os dos demais tipos acima referidos.
Recorrerei então a filósofos.
Schoppenhauer não via com bons olhos a figura do erudito, que é, segundo ele, alguém que “leu até ficar estúpido”. O autor de “O mundo como vontade e representação” desconfiava da leitura: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis.” Daí se segue que “aquele que lê muito e quase o dia inteiro (...) perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé”. Seria este o caso do erudito.
Essa concepção de leitura deve ser relativizada.
Não se lê, necessariamente, de modo passivo, deixando-se pensar pelo outro (a rigor, isso nem é possível).
Mas o risco que ela detecta é verdadeiro. Sua perspectiva é corrigida e aprofundada por Nietzsche, que devia conhecer a passagem citada para escrever a seguinte: “O erudito que no fundo não faz senão ‘revirar’ livros — o filólogo uns 200 por dia, em cálculo modesto — acaba por perder totalmente a faculdade de pensar por si.” Nietzsche então retoma a expressão depreciativa de Schoppenhauer, dando a ela uma dimensão fisiológica, como é de seu feitio: “Isso vi com meus olhos: naturezas dotadas, de constituição rica e livre, ‘lidas à ruína’, já aos 30 anos.” Para o autor de “Ecce homo”, a leitura também deve ser vista com desconfiança.
Deve-se tanto saber ler quanto saber não ler: “Nunca refleti sobre problemas que não o são — não me desperdicei.” O problema, portanto, não é da leitura, mas do modo como se a pratica.
Para os dois filósofos evocados, o erudito é uma espécie de leitor estéril, sobrecarregado pelo próprio conhecimento.
De minha parte, entendo haver outro traço distintivo do erudito: ele é aquele que representa o conhecimento como uma totalidade possível, ou que ao menos deseja essa totalidade, mesmo se for consciente do fracasso a que esse desejo está condenado. O erudito é um sujeito que não fez a castração do saber. Ora, mais do que em qualquer tempo, o saber hoje é evidentemente incompleto.
Diz-se que na Antiguidade um leitor que tivesse lido cem livros era considerado um sábio; cem livros é, hoje, o que um intelectual estudioso pode ler num ano — com isso logrando apenas multiplicar sua ignorância.
Daí que o erudito tenha um espírito com certa vocação matemática, exata, classificadora.
O erudito orienta suas leituras por campos de saber, que ele sonha, em vão, dominar, e organiza sua biblioteca por ordem alfabética.
A comédia da erudição, na literatura, é o romance “Bouvard et Pécuchet”, de Flaubert. Os dois personagens são tomados por um espírito erudito de conhecimento, mas, de saber em saber, só acumulam incompletudes, perplexidades e desastres.
Ressalvo que existem, a meu ver, eruditos inventivos, inteligentes. Na literatura, Borges talvez seja um deles.
Já o sábio é mais simples.
Sábio é aquele para quem o saber deve ser necessariamente transitivo — e saudável.
A figura do sábio é indissociável do equilíbrio.
Discordo da famosa frase de Blake: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.” O excesso pode levar, sim, ao saber, mas a um saber que não é sabedoria.
O sábio não é excessivo.
Não sabe mais do que deve para manter seu equilíbrio, sua saúde.
A sabedoria está ligada a uma técnica existencial de controle do desejo, evitando os sofrimentos dele decorrentes. Budistas eminentes são sábios; estoicos são sábios. Poetas raramente são sábios.
Há, por fim, o que chamei, imperfeitamente, de modo do inculto. Deleuze confessava assustar-se com pessoas cultas: “Eles sabem tudo, sabem a História da Itália, da Renascença, sabem geografia do Polo Norte. (...) É assustador.” Dizia, de si próprio, não ser culto, por não ter “saber de reserva”.
Quando ele queria saber alguma coisa, estudava ad hoc, e depois de escrever esquecia.
Isto é, não cultivava conhecimento. Só lhe restava um saber por dentro, um saber de cor, como seu saber de Espinoza: “Pois Espinoza está no meu coração, não o esqueço, é meu coração, não minha cabeça.” Identifico-me com a postura de Deleuze. Tenho pouco saber de reserva; interesso-me mais por questões do que por autores; estudo apenas o suficiente para me propiciar uma compreensão do que estou buscando; não tenho nem sequer um território discursivo (não posso me dizer professor de Teoria da Literatura ou de uma literatura qualquer, por exemplo), sendo uma espécie de nômade indisciplinado, mais do que transdisciplinar.
Como Deleuze, também só sei o que sei de cor, o que entrou na minha vida de modo a me orientar cotidianamente nas minhas escolhas morais, intelectuais e existenciais. Essencialmente, um inculto.
segunda-feira, outubro 25, 2010
Anulação
Anulação
CAETANO VELOSO – O Globo – Segundo Caderno – 24/10/2010
Meu pai dizia que pior do que os comunistas só os anticomunistas
Nunca engoli a interpretação do primeiro “Tropa de Elite” como sendo um filme fascista, com o Capitão Nascimento representando a canonização do reacionário truculento. Nem a revista “Veja” me convenceu disso. Tampouco tomei como mensagem panfletária do filme as falas magoadas do personagem Matias contra os universitários da PUC que fazem paradas pela paz e compram maconha e cocaína.
Portanto, não consigo entrar na onda dos que agora dizem que, no “Tropa de Elite 2”, o Capitão Nascimento aparece com artificiosas dores de consciência para livrar o Padilha da pecha de conservador.
Ambos os filmes, com todos os momentos de primarismo, nasceram claramente de uma visão da complexidade ética e moral. O êxito do primeiro esteve ligado ao mundo que retrata — o das favelas cariocas — como não aconteceu com nenhum outro filme dedicado ao assunto.
Desde a origem informal da sua primeira distribuição — a pirataria — a identidade entre o filme e o mundo infantilizado de brincar de polícia e bandido (que gasta a maior parte de toda a testosterona produzida na região fluminense) se mostrou óbvia. E o Capitão Nascimento, um herói nacional que cresceu como nenhum outro saído das telas gigantes e dos vídeos borrados, é, desde o nascedouro, um típico personagem de drama de consciência: a pergunta que seu filho lhe faz no novo filme — e que ele se repete na voice over nem sempre bem gravada — é a que está estampada nos atos do implacável treinador de torturadores de bandidos do Tropa 1: por que bato nas pessoas? A angústia dessa pergunta está sobretudo patente na profundidade da expressão de Wagner Moura, um ator tão bom que pode induzir muita gente a pensar que ele sozinho leva a espessura da história a graus insuspeitados pelo diretor e pelo roteirista.
Mas a verdade é que ele apenas realiza melhor do que estes o que eles têm em mente. Nenhum dos dois filmes é sobre ONGs satânicas contra traficantes vitimizados, grupos políticos cruéis contra uma população honesta ou policiais brutais contra favelados santos. Embora haja tudo isso — e muito mais —, o que anima a existência dos filmes é a paixão pela dificuldade de desfazer o nó cego entre esses fatores. Um amigo me manda uma série de capas da “Veja” com escândalos envolvendo as privatizações do governo FHC, compra de votos para a reeleição e outras mazelas da passagem do “Príncipe da Sociologia Brasileira” pelo poder. Para apagar os mensalões, os dossiês e as Erenices do período Lula, nada melhor do que uma lista assim — e pela voz insuspeita de uma revista da direita.
Mas, peraí, “Veja” não é exatamente o órgão mais atuante do “Partido da Imprensa Golpista”? A transformação da oposição — em essência artificial — entre PT e PSDB em duas torcidas de hooligans é um dos episódios mais sinistros do processo de emburrecimento da população brasileira. Entre artefatos e bolinhas de papel, deixamos de ser apenas iletrados e incapazes de fazer contas: nos tornamos também faltos de intuição e bossa
Um desconhecido me mandou um vídeo de Hugo Chávez, com aquela camisa vermelha, diante de uma plateia toda uniformizada de vermelho, cantando loas a uma Dilma “linha dura” que “sequestrou um embaixador ianque”, e gritando “Patria, socialismo o muerte!”.
Tudo mete medo. Lembrei de um jovem baterista de rock com quem ensaiei outro dia que, ao ver Dilma com aquela blusa de gola elevada e estreita (no debate da “Rede TV!”/“Folha”) disse “Puxa, a Dilma está parecendo Kim Jong II”. E completou, rindo: “Dilma Jong II”. Era uma piada totalmente desprovida de raiva pessoal ou política: uma dessas tiradas irreverentes que fazemos diante de políticos na TV, independentemente da nossa (ou deles) posição ideológica. A gente sente quando quem fala uma coisa dessas tem conteúdo emocional intenso. E não era o caso.
Mas, ao ver o vídeo de Chávez, a broma do garoto ganhou peso em minha imaginação.
Depois do eterno presidente da Venezuela, surge o eterníssimo comandante Fidel, velho e magro, gritando “Patria o muerte!” No entanto, o que se segue a isso provoca ainda maior angústia. Uma introdução conhecida, feita por um coral em tom religioso, dá lugar à voz de Chico Buarque cantando “Cálice”, dele e de Gilberto Gil, enquanto cartelas se sucedem com textos que parecem uma versão verbal da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Era uma outra forma de torção das coisas, muito mais complexa do que a série de capas da “Veja” contra FH. Sobre umas deselegantes frases de histeria e de manifestação da direita religiosa, ouvia-se a voz de Chico (e, logo, Milton) cantando as palavras contra a opressão militar. Não apenas parecia um golpe baixo: era um artefato muito doentiamente concebido para anular a possibilidade da inteligência. Senti revolta.
Querem nos impedir de pensar. Esse cabo de guerra entre os apoiadores de Serra e os de Dilma (que, muitas vezes, se creem representantes da esquerda ou da direita; mais vezes ainda veem uns aos outros como representantes dessas antigas denominações; fazendo o máximo esforço para que não reflitamos sobre que relações reais tem cada um dos grupos com tais conceitos) nos torna obtusos.
Meu pai dizia que pior do que os comunistas só os anticomunistas.
Meu voto em Marina continua tendo validade.
Influirá no próximo governo.
O embate entre os outros dois anula meu voto possível nesse segundo turno. Simplesmente sinto que já votei o suficiente. Dilma ganha. Começo logo a torcer por ela.
O endividamento da União e a disputa presidencial
O endividamento da União e a disputa presidencial
Economia e Infra-Estrutura
Paulo Passarinho - http://socialismo.org.br/portal/
O primeiro turno das eleições presidenciais já se encerrou e nos encontramos em plena disputa do segundo turno, mais uma vez envolvendo os candidatos do PT e do PSDB.
Em 1994 e em 1998, esta disputa também se deu, porém FHC - o candidato dos tucanos à época - acabou por vencer as eleições já no primeiro turno. Em 2002 e em 2006, a decisão apenas se deu no segundo turno.
Há dezesseis anos, portanto, a polarização entre PSDB e PT marca a disputa da eleição mais importante do país.
Contudo, ao contrário do que um eleitor mais desavisado poderia supor, a discussão sobre a realidade econômica e as políticas a serem adotadas pelos candidatos, caso sejam eleitos, continuam a ser escamoteadas.
Em 1994, em meio à euforia do lançamento do Real, a plataforma agressiva das privatizações do PSDB não foi antecipada por FHC, assim como em 1998, no direito a uma reeleição comprada por meio de uma emenda constitucional, o mesmo FHC não deu ciência ao país do acordo em curso com o FMI, provocado pela situação falimentar em que se encontrava o Brasil.
Em 2002, tivemos mais conhecimento da crise que vivíamos, por força de um novo acordo celebrado com o mesmo FMI, e do compromisso, que todos os candidatos acabaram por assumir, em respeitar as exigências que nos eram impostas. O que Lula, o vencedor daquela eleição, não divulgou foi a sua intenção em ser mais realista do que o rei. Já como presidente, sua primeira medida foi aumentar a meta do superávit primário estabelecida inicialmente com o FMI, de 3,75%, para 4,25% do PIB.
Em 2006, forçado a uma disputa com o reacionário Geraldo Alckmin, Lula usou e abusou da pertinente acusação de privatista, contra o seu adversário. O que o mesmo Lula não esclareceu ao eleitorado foi a sua intenção, materializada logo no início do seu segundo mandato, em privatizar o trecho da BR-101, ligando o Rio de Janeiro à cidade de Campos, no norte fluminense.
Esses exemplos mostram muito bem como os candidatos de confiança do sistema financeiro - sistema que parece ser uma espécie de fiel da balança dos políticos de sucesso - agem em relação ao eleitorado.
Agora, em 2010, há um silêncio sepulcral, dos ungidos pelas generosas verbas de campanha, em relação ao grave problema do endividamento da União.
Ao contrário, o candidato tucano - apesar de toda a grita de economistas ligados ao seu PSDB contra a "explosão dos gastos correntes" no governo Lula - promete um salário mínimo de R$ 600,00, reajuste de 10% nas pensões e aposentadorias do INSS e 13º "salário" para o Bolsa Família!!
Demagogias ou falsas promessas à parte, o problema é que temos de fato um sério desafio pela frente. Plínio de Arruda, do PSOL, no primeiro turno das eleições, com toda razão apontou a necessidade de uma séria auditoria da dívida pública do país, conforme uma das conclusões da CPI da Dívida Pública, realizada pela Câmara Federal.
E o problema não é a tal explosão dos gastos correntes, genericamente denunciada pelos economistas liberais, em geral mirando novas mudanças nas regras da previdência.
Desde o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, a evolução da dívida em títulos da União é espetacular. E esta é a principal dívida financeira que temos de enfrentar. Em dezembro daquele ano, essa chamada dívida mobiliária da União era de R$ 59,4 bilhões de reais. Ao final do ano seguinte, primeiro ano do mandato de FHC, essa dívida chegava a R$ 84,6 bilhões, com um crescimento nominal em relação a dezembro de 1994 de 42%(!!), correspondendo a 12% do PIB. Para quem possa se espantar com essa evolução, lembro que FHC chega ao final do seu primeiro mandato, em dezembro de 1998, com essa dívida já em R$ 343,82 bilhões, correspondentes a 35,11% do PIB.
As razões desse explosivo crescimento da dívida pública em títulos são decorrentes essencialmente da própria forma de funcionamento da economia, pós-lançamento do Real. A integração financeira do Brasil com os mercados financeiros do mundo, com a livre movimentação de capitais, subordina a política monetária aos humores dos investidores e especuladores internacionais.
De 1994 a 1998, a idéia de um Real "forte" (um real = um dólar) exigia acúmulo de reservas em dólar, de modo a se garantir a equivalência da nova moeda nacional com a moeda dos Estados Unidos. Os juros extremamente elevados e o programa de privatizações de empresas estatais garantiram uma enxurrada de dólares para o país. Entretanto, na medida em que esses dólares são transformados em reais, levando a uma expansão do volume de reais em circulação na economia, o Banco Central entra no mercado vendendo títulos públicos, com o objetivo de retirar o chamado excesso de moeda em circulação.
Houve, nesse período também, a maior parte das renegociações das dívidas de estados e municípios com o governo central, federalizando-se essas dívidas, o que ajudou o crescimento da dívida em títulos da União. Porém, o fator mais importante foi a necessidade do acúmulo de reservas, com base em taxas de juros reais elevadas.
A partir de 1999, com a mudança do regime cambial (até então, relativamente fixo) para o chamado câmbio flutuante, o papel das altas taxas de juros - que continuam a vigorar - passa a ser justificado como instrumento vital para se conseguir manter a inflação projetada para cada ano, dentro das metas definidas pela política monetária. A política econômica passa a ser guiada de acordo com o que recomenda o FMI.
Isso não impede que o país vá novamente recorrer ao FMI, em 2002, e FHC entrega o governo a Lula com a dívida em títulos alcançando o montante de R$ 687,30, correspondentes a 46,51% do PIB. É interessante notar que durante esse período, que se inicia em 1999, o governo federal passa a ter de cumprir metas de superávit primário, nunca inferiores a 3% do PIB. Mesmo assim, nota-se que, sempre em função das altas taxas reais de juros vigentes, a dívida continua em trajetória ascendente.
É essa política que Lula deu continuidade. E é por isso que hoje temos uma dívida em títulos que supera a cifra de R$ 2,2 trilhões, mais de 70% do PIB do país, com uma carga líquida anual de juros sempre superior a R$ 150 bilhões. Ou seja: além de o montante dessa dívida continuar a subir de forma astronômica, há um comprometimento crescente da maior parte do orçamento público da União com o pagamento de juros e amortizações. No exercício de 2009, por exemplo, 36% desse orçamento foram gastos com essa finalidade. Ao mesmo tempo, áreas consideradas estratégicas, como a saúde ou a educação, foram contempladas, respectivamente, com menos de 5% e de 3% desse mesmo orçamento.
Essa é a realidade que Dilma e Serra não querem debater. Mas, essa é uma questão que não deixará de ser enfrentada no próximo governo. Até porque, por força da valorização do Real - decorrente da permanente pressão produzida pelos dólares que entram no país - voltamos a ter déficits em nossas transações com o exterior, o que nos torna ainda mais vulneráveis à necessidade de financiamento em dólares.
A dívida externa, por sua vez, apesar de todas as falsas informações veiculadas, muitas vezes pelo próprio Lula, continua a existir e de forma robusta: hoje já ultrapassa a US$ 300 bilhões. Com reservas internacionais de US$ 280 bilhões, para muitos isso não seria um grande problema. Contudo, frente a qualquer reversão do quadro internacional para uma nova onda de fortes instabilidades nos mercados financeiros, não há dúvidas sobre o preço que pagaremos.
Já se observam fortes pressões para uma nova rodada de mudanças nas regras da Previdência Pública. Trata-se, a rigor, da última variável importante para os liberais, na busca de fontes para novos cortes orçamentários, com o objetivo de se tentar segurar um modelo econômico que tem de ser superado.
Fora outrora, o PT seria um aliado nessa luta.
Hoje, frente ao transformismo desse partido, sua candidata à eleição presidencial é apenas mais uma protagonista da tentativa de se esconder do povo brasileiro a gravidade dessa situação.
20/10/2010
Paulo Passarinho é economista e conselheiro do CORECON-RJ
Aborto
Aborto
Denis Lerrer Rosenfield - O Estado de S. Paulo - 25/10/10
A eleição presidencial, neste segundo turno, será decidida por uma pequena margem de votos. Diferença tão estreita mostra um País dividido, onde emoções e sentimentos os mais díspares ganham com maior força a cena pública. Neste contexto, chama particularmente a atenção que num Estado laico como o Brasil questões abordadas religiosamente possam vir a ser eventualmente decisivas.
A questão do aborto irrompeu politicamente como se nela se jogasse o destino inteiro do País. E irrompeu de forma dogmática, num jogo do bem contra o mal, em que nuances e discussões não são sequer admitidas. Trata-se de um problema da maior complexidade, que deveria exigir uma argumentação racional, e não anátemas que são lançados aos candidatos.
Nesse sentido, penso ser importante colocar em termos racionais o seu significado. Pode-se dizer que há dois grandes argumentos em jogo, o da liberdade de escolha e o do conceito aristotélico de vida.
O argumento favorável ao aborto está baseado no princípio da liberdade de escolha, no caso, a liberdade que teria a mulher de escolher o que considera melhor para si. Caberia a ela decidir o que fazer com seu próprio corpo, numa opção de cunho interior, que não admitiria ingerência estatal. O problema reside em que sua liberdade de escolha opera sobre um "ser", que num sentido é ela e em outro não o é.
Coloco a palavra "ser" entre aspas com o intuito de mostrar que há algo ainda indeterminado que está sendo disputado. Se considerarmos o objeto da concepção como um simples amontoado de células que não configuraria propriamente uma vida humana, a liberdade de escolha estaria justificada. Se considerarmos, contudo, o objeto da concepção como uma vida humana, esse ser não lhe pertenceria propriamente, não estando justificada a intervenção da liberdade de escolha.
O problema consiste em determinar onde começa o "humano" propriamente dito. Na concepção? No nascimento? No terceiro mês de gravidez, quando se forma o cérebro humano? Há uma questão de fundo aqui presente, que remete a uma espécie de linha divisória, que seria o ato inaugural do que consideramos "humano". Correntes de cientistas costumam nomear diferentemente esses diversos estágios até a formação do feto, procurando, assim, estabelecer outra demarcação do humano nesse processo. Uma outra definição estaria em jogo.
A concepção aristotélica da vida, por sua vez, opera com o conceito de causa final, cada vez mais resgatado, também, pela biologia moderna. Em sua formulação filosófica, pode ser enunciado da seguinte forma: um ser se define por sua finalidade. Uma coisa é o seu fim. Sob essa ótica, o "ser" interior à mulher não poderia ser dito seu no sentido estrito, por ser dotado de uma finalidade específica. Ou seja, desde o momento da fecundação estaríamos diante de uma vida humana propriamente dita, pois seu processo intrínseco, se não interrompido, conduziria necessariamente a um ser humano, que nasceria em nove meses.
A liberdade de escolha, neste caso, encontraria um limite, pois não seria justificada a sua aplicação a outro ser potencialmente portador de liberdade de escolha, igualmente. Cabe aqui uma outra distinção aristotélica, a de que esse "ser" interior à mulher é um ser humano "em potência", e não ainda "em ato", cuja passagem de um a outro se faz durante todo o processo de gestação. Isto é, o objeto da fecundação seria desde esse momento um "ser humano em potência". Logo, a liberdade de escolha da mulher encontraria um limite na liberdade de escolha, que não pode por enquanto se manifestar, de um ser humano em processo de vir a ser.
Dois casos de aborto são permitidos pela legislação brasileira, que não contrariam nenhum desses dois princípios: a) Risco de vida para a mãe; e b) estupro. O primeiro, por pôr em questão a vida da pessoa portadora do ser concebido, em que a vida deste põe em risco a vida daquela que o gerou. Um ser em potência não poderia pôr em risco um ser em ato. Sob outra ótica, a liberdade de escolha da mulher não poderia ser extinta por um processo biológico que a anularia. O segundo, por ser a concepção o fruto de um ato de violência, em que a liberdade de escolha da mulher foi completamente suprimida. A liberdade de escolha pelo aborto significaria a restituição de sua opção sobre si mesma, sobre sua própria vida, com todo o trauma daí decorrente.
Há, no entanto, ainda outra questão que deve ser suscitada, a da aplicação dos princípios diante de casos concretos, que exigem argumentação suplementar. Refiro-me a mulheres que, por uma ou outra razão, recorreram ao aborto, exercendo na prática a liberdade de escolha, em clara contradição com a lei vigente. O problema que se coloca, então, é o de como deveriam ser tratadas. Se seguirmos a lei estritamente, deveriam ser consideradas criminosas, julgadas e presas.
Uma mulher que recorre ao aborto opta por uma situação-limite em que princípios se chocam, com repercussões morais e psicológicas. Imaginem a situação de uma mulher que, tendo feito um aborto clandestino, chega com hemorragia a um hospital público. Seria atendida, mas, seguindo a lei, deveria ser encaminhada à polícia e ao processo jurídico correspondente. Não basta o trauma do que lhe aconteceu, deveria haver ainda uma punição complementar, que poderia traduzir-se em prisão. Algumas mulheres nem chegam aos hospitais, pois morrem antes por medo de serem consideradas infratoras. E isso acontece frequentemente com pessoas de baixa renda. Desconsiderar essa realidade, fazer como se não existisse, é um ato de desrespeito pelo outro.
O aborto, por envolver um conflito tão explícito de princípios, implicando, ademais, consequências para as mulheres que, de uma ou outra maneira, já optaram, não pode ser decidido no calor de um embate eleitoral. Exige a serenidade do pensamento, do exercício da racionalidade.
PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS.
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