quinta-feira, outubro 28, 2010

Manobra contábil afeta credibilidade

Manobra contábil afeta credibilidade
EDITORIAL - O Globo - 28/10/2010
Quando era oposição, o PT execrava a economia de recursos públicos para pagar juros da dívida. A busca por este superávit, chamado de primário - por não considerar, na sua formação, despesas financeiras -, era demonizada, pois serviria para pagar juros a "banqueiros" e "rentistas", usurpadores do dinheiro do "povo".
Mas, no poder, o partido teve de se curvar à sensatez de sua liderança, com o presidente Lula à frente, demonstrada na adoção da correta política de acumulação de superávits primários, a fim de evitar o descontrole na administração da dívida pública. Precisou aposentar o discurso a favor de "calotes" nos credores. Afinal, milhões de assalariados e trabalhadores têm poupança e pecúlio aplicados em títulos públicos. Eles constituem parte dos "rentistas".
Mas a cautela exigida no manejo da dívida nunca foi muito bem-vista em hostes petistas. Parece nunca ter deixado de ser entendida como um desvio "neoliberal". Talvez seja esta a explicação para o descaso crescente com que o governo Lula passou a tratar a contabilidade pública, chegando ao cúmulo de, por manobras contábeis, transformar o déficit primário de R$5,8 bilhões, acumulado em setembro, num superávit recorde de R$26 bilhões, um número fajuto. Sequer serve para "inglês ver", pois o mercado financeiro internacional sabe muito bem das manobras que vêm sendo realizadas na tentativa de encobrir os efeitos corrosivos da aceleração dos gastos empreendida a partir de 2009, atrás do biombo da crise mundial. No embonecamento do superávit primário já foram contabilizadas antecipações de pagamento de dividendos de estatais à União, e até mesmo depósitos judiciais, como se fossem recursos de propriedade do Estado.
O máximo da criatividade colocada a serviço da maquiagem contábil ocorreria, porém, na capitalização da Petrobras, na qual uma operação triangular com o BNDES permitiu que títulos fossem lançados - aumentando a dívida - e parte dos recursos captados voltasse como se fosse uma receita nova de R$31,9 bilhões.
Alguém comparou: é o mesmo que levantar um empréstimo no banco e colocar o dinheiro na conta como se fosse proveniente de salário. Uma farsa.
Pode-se alegar que estes recursos serão um dia gerados de fato, quando o petróleo que o lastreia - das reservas da União cedidas à estatal na operação de integralização do aumento de capital - for extraído e comercializado. Compara-se a operação ao ingresso nos cofres da União da receita das privatizações na Era FH. Ora, naquela época, ativos efetivamente foram vendidos. Agora, não. Na prática, na tentativa de atingir a meta de 3,3% do PIB do superávit primário, este ano, o governo Lula - como já fizera na capitalização do BNDES - aumenta a dívida pública bruta, a qual passa a ser um indicador de solvência do Estado cada vez mais importante que a dívida líquida, como era usual.
A ousadia irresponsável na manipulação contábil é mais uma herança maldita deixada para o próximo governo. Pois o efeito dessas maquiagens é reduzir a credibilidade das estatísticas públicas e, por consequência, aumentar o risco dos papéis brasileiros, públicos e privados, no mercado financeiro. Esperteza, quando é demais, vira bicho e come o dono.

Assembleia permanente

Assembleia permanente
Dora Kramer - O Estado de S. Paulo - 28/10/2010
O que o cidadão, ex-presidente Luiz Inácio da Silva fará durante os próximos quatro anos a contar já do próximo domingo quando será eleito o (a) sucessor (a)?
O que fez desde o instante em que assumiu a Presidência do Brasil: campanha eleitoral. A ele não bastam os dois mandatos; quer mais dois, perfazendo 16 anos de Presidência com um breve intervalo de quatro para cumprir uma exigência legal.
Se a realidade contrariar as pesquisas e o eleito for José Serra, a tarefa de Lula será a de comandar a desestabilização do governo. Não poderá contar com as Forças Armadas nem com o Congresso.
Os militares querem distância do jogo e os parlamentares quem proximidade com o poder qualquer que seja.
Lula recorrerá ao PT, aos aliados tradicionais e talvez possa contar com o PSOL. Certamente poderá contar com o lumpesinato, com os coronéis da antiquíssima política, com os "movimentos sociais", os sindicatos e todos os que nutrirem insatisfação em relação ao governo.
Se for um governo que toma providências e, portanto, compra brigas, haverá grosso caldo de cultura para a ação do tipo de oposição ao gosto de Lula, destrutiva.
Se as pesquisas estiveram certas e a eleita for Dilma Rousseff fica tudo bem mais fácil. Ou não. Há duas possibilidades: a primeira, a de que Dilma seja tutelada por Lula, faça as coisas como ele acha que devam ser feitas e permita que ele tenha um espaço tal no governo que torne sua presença um fato constante e destacado no noticiário.
Nessa hipótese teremos o governo todo posto a serviço da campanha presidencial de Lula para 2014 e muita contestação à atitude da presidente.
A segunda, que muita gente no PT e fora dele, mas com experiência de poder, considera a mais provável, é a de que Dilma exerça o poder na plenitude. Mas só depois de um período, digamos, de quarentena, para tomar pé da situação e externar seu agradecimento ao antecessor pela eleição.
Em português claro, os defensores da segunda hipótese dizem que o efeito da caneta e da cadeira presidenciais é inexorável: quem está de posse de uma e sentado na outra dificilmente aceita dividir o poder.
Em geral isso é fato, mas no caso presente não há como concordar de antemão porque, além do absoluto controle sobre Dilma, Lula tem o partido, a popularidade e nenhum constrangimento em exigir da presidente o atendimento às suas vontades.
Republicano. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, atendeu à determinação do presidente Lula, que reclamou mais votos para Dilma no segundo turno. Transferiu o feriado de hoje (dia do funcionário público) para segunda-feira, a fim de prolongar mais o já prolongado feriado, dando a impressão de que pretende com isso estimular a abstenção eleitoral. Em 2008, quando da disputa pela Prefeitura do Rio, o governador havia feito o mesmo, contribuindo para uma abstenção de quase 26% na zona sul, onde o então candidato Fernando Gabeira, adversário de Cabral, tinha a preferência do eleitorado.
Melhor não. Para quem argumenta que a imprensa precisa ser "controlada" porque os outros Poderes da República contam com instrumentos de fiscalização, uma informação: imprensa não é Poder constitucional. Na sua grande maioria, os veículos de comunicação são privados, cujo grau de maior ou menor sucesso depende de investimentos, talento, capacidade administrativa e credibilidade.
A liberdade plena serve exatamente para quem quiser criar o próprio meio de expressão. Sem esse atributo essencial, os que hoje reclamam por controle amanhã podem ser vítimas dos controladores, caso a correlação de forças não seja politicamente favorável a eles.
Boca de urna. A campanha do PT está incentivando os eleitores a votarem vestindo camisetas estampadas com a imagem de Dilma.

Erasmo, para o Jornal de Piracicaba


Carta a uma mulher

Carta a uma mulher
Pedro Bial – O Globo – Segundo Caderno
Querida Ely, lamento escrever diante de tantas testemunhas, só me restou essa forma de registrar minha alegria, júbilo, ao saber que andas lendo essas linhas confessionais, rematadas declarações de paixão pela paixão. Peço também ainda mais grandeza de espírito e compreensão a todos os generosos leitores, afinal, homens ou mulheres sabem a importância que tem uma mulher, ainda mais se rubro-negra, ainda mais se passa a ler o caderno de Esportes por sua causa.
Nesse caso, trata-se de uma daquelas dívidas que mulheres tramam tão bem, jamais poderei pagar e lamberei os pés da credora amada até todo o sempre.
Isso se sobreviver às próximas, últimas, sete rodadas do Campeonato Brasileiro. Vivo entre a agonia e o êxtase. Tenho amigos diligentes, tentando reservar por antecipação lugares em todos os estádios onde irá jogar o Flu. E o time jogará as últimas partidas completo, esta a única certeza, nossa única e imortal integridade; completo, bem entendido, com onze jogadores. Pois não há cartilagem, fibra muscular, ligamento, articulação óssea, não há contusão — antigamente era assim que se chamava lesão — que não nos atinja. E ainda assim, seguimos, com o ânimo inteiro, renascido, incólume e invulnerável como só o Conca, camisa 11 — vale por dois, vale por onze.
Alguns dizem, nos melhores chopps e salgadinhos da Muda ali pertinho do Santos Anjos, que Conca não se machuca... Quem disse? Conca vem jogando, há pelo menos dois meses, no sacrifício, com operação no joelho marcada para dezembro. Além de conviver com dores aflitivas nas solas dos abençoados pés. Diante da bola que vem mostrando, alguém fez a pergunta: “Conca, você não pensa em jogar na Europa?” . E Conquita, amigo de meu filho, respondeu, com o português que agora domina: “Não. Minha Europa é o Fluminense”.
Não me venham os poderosos de plantão regatear a renovação do contrato do maior ídolo do Flu desde Thiago Silva, façam-me o favor. Futebol não é pôquer.
Ely, minha querida Ely, meus amigos se apressam em reservar bons lugares para sofrer essa espetacular reta final. Eu reservo leitos hospitalares, acho mais adequado. Acerto um bom “payperview” com clínica ou casa de repouso, um soro bem dosado no ansiolítico, uma cama resistente e pronto, estou tranquilo e equilibrado.
Para nosso primeiro embate, que promete ser o mais encarniçado, contra o Grêmio de Renato Gaúcho, algo me dá confiança e um bom pressentimento: os ensinamentos de Sigmund Freud.
Por falar num especulador que elevou suas ideias a um pensamento de rigor científico, penso na inversão da aparente falta de rigor da numerologia, científica para quem a abraça.
No universo em folha-seca do futebol, os homens determinam o destino dos números, ao avesso da numerologia. O que seria do número 10 sem Pelé? Para alguns sábios, a existência de Maradona já teria se justificado só para prover o outro lado da moeda 10, um lado de lata, porém brilhante, humano em oposição à face divina e dourada de Pelé.
Por exemplo: mais do que o travessão, tenho para mim que, entre a marca do pênalti e a rede, a camisa 70 espantou aquele gol de Neneymar, na vitória do Grêmio Prudente, vitória bem típica desse Brasileirão 2010.

Típico também o triunfo do renascente Atlético Mineiro sobre o co-líder Cruzeiro, comandado por Obina, portando uma esdrúxula camisa 27, 2+7= 9, um 9 como só a Gávea ousaria criar.
Ronaldo Fenômeno confirmou que joga mesmo hoje, contra o Mengão de Vanderlei Luxemburgo.
Só que Luxa deve contar com a volta de Val Baiano, 9, também, segura!
Meu primeiro ídolo foi um 9.
Flávio, o Minuano, elegância no passo largo, tanque rompedor, sabia jogar, grande cobrador de faltas. Gaúcho negro (na época chamava-se mulato) bonitão, namorava a cantora Doris Monteiro. Decidiu de sem-pulo o Carioca de 1969, narração de Jorge Cúri (sei de cor, um compacto foi distribuído na época, do outro lado, tinha o hino do clube. Não podia ouvir em dia de jogo! Dava falta de sorte) : “ Bate Galhardo, entrega a Oliveira, este é assediado por Rodrigues Neto, bola para Cláudio, tabelinha com Samarone, lança para Flávio, emenda, é Gol!” .
Feliz do time com um excelente camisa 9. Aprecie a paciência, ou o esforço para tal, de corintianos e tricolores.
Enquanto Fred não volta, Washington vai fazer e vai fazer bonito. E não será cobrando pênalti.
Coração Valente, vai por mim, esquece essa camisa 99. Pede a opinião do Muricy, da família, dos amigos em quem você confia. Por mim, larga essa 99, e veste a boa e boa camisa 9 para cumprir aquilo para o qual você foi desenhado. Mete gol. Com a 9, camisa número 9!
Ely há de concordar: é com a 9, camiiiiisa número 9!

Inflação do aluguel desacelera e fica em 1,01% em outubro, mostra FGV

Inflação do aluguel desacelera e fica em 1,01% em outubro, mostra FGV
Em setembro, variação do IGP-M foi de 1,15%.
 A inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), utilizado para reajuste da maioria dos contratos de aluguel, ficou em 1,01% no mês de outubro, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgado nesta quinta-feira (28). Em setembro, a variação registrada foi de 1,15%. No ano, o índice acumula alta de 8,98% e, nos últimos 12 meses, de 8,81%.
Inflação do aluguel desacelera na primeira prévia de outubro, diz FGV Inflação do aluguel perde força na 2ª prévia de outubro, diz FGV A inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), utilizado para reajuste da maioria dos contratos de aluguel, ficou em 1,01% no mês de outubro, segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgado nesta quinta-feira (28). Em setembro, a variação registrada foi de 1,15%. No ano, o índice acumula alta de 8,98% e, nos últimos 12 meses, de 8,81%.
Evolução do IGP-M nos últimos 12 meses  Em outubro, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que representa 60% do IGP-M, ficou em  1,30%, contra 1,60% no mês anterior. O índice relativo a bens finais variou 1,53% em outubro, contra 1,14% em setembro. A aceleração do subgrupo alimentos in natura influenciou resultado. A taxa passou de 0,05% para 8,50%.
O índice relativo ao grupo bens intermediários passou de 0,29% para 0,21%. O subgrupo materiais e componentes para a manufatura desacelerou de 0,26% para 0,06%. Já o índice relativo a matérias-primas brutas ficou em 2,55%. No mês anterior, foi de 4,08%. Contribuíram para o resultado as variações dos preços de algodão em caroço (de 30,97% para 2,40%), minério de ferro (de 0,28% para -3,83%) e bovinos (de 5,85% para 4,28%). Na contramão, tiveram aceleração as variações de soja em grão (de 3,07% para 5,04%), mandioca (de -1,52% para 13,31%) e leite in natura (de -3,39% para -0,03%).
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) acelerou de 0,34% em setembro para 0,56% em outubro. Dos sete grupos de despesa que compõem o índice, seis apresentaram aceleração nas taxas taxas de variação.
O que ficou mais caro
Teve destaque o grupo alimentação, cuja taxa passou de 0,56% para 1,23%. Dentro dessa classe de despesas, as maiores influências foram exercidas por arroz e feijão (de -1,63% para 7,04%), hortaliças e legumes (de -4,07% para -1,70%) e laticínios (de -0,01% para 1,56%).
Outros destaques partiram dos grupos despesas diversas (de 0,14% para 0,23%), habitação (de 0,22% para 0,28%), saúde e cuidados pessoais (de 0,39% para 0,45%), educação, leitura e recreação (de 0,17% para 0,22%) e transportes (de 0,11% para 0,15%). As maiores contribuições foram observadas nos itens cerveja (de -0,91% para 1,67%), material para reparos de residência (de 0,40% para 0,88%), artigos de higiene e cuidado pessoal (de 0,31% para 0,79%), salas de espetáculo (de 0,19% para 1,63%) e álcool combustível (de 0,60% para 4,35%).
O que ficou mais barato
Na contramão, subiram menos os preços de vestuário (de 0,72% para 0,67%), com destaque para as roupas masculinas (de 1,40% para 0,26%).
Fonte: G1 Brasil

Pelicano, hoje no Bom Dia (SP)


O território de Adélia - Karla Monteiro

O território de Adélia - Karla Monteiro
O Globo – Segundo Caderno – Reportagem de Capa
Após um hiato de quase dez anos,
a escritora mineira volta a publicar
suas poesias e afirma que é
nas letras que encontra alegria, consolo e esperança
O jejum é de quase uma década.
O último livro de poesia, “Oráculos de maio”, saiu em 1999. E o derradeiro de prosa, “Filandras”, em 2001. Na segunda-feira à noite, na Livraria da Travessa do Leblon, Adélia Prado deu de novo as caras, com “A duração do dia” (Record), que ficou cozinhando, em fogo brando, por dez anos. Encontramos a escritora horas antes do lançamento, escoltada pelo marido, o bancário aposentado e apaixonado José de Freitas. Os dois não se largam. São 53 anos de casamento, cinco filhos e nove netos.
Em pessoa, Adélia é a sua escrita: simplicidade e religiosidade, sabedoria e busca.
Durante duas horas de conversa, ela pediu algumas vezes para não botar no jornal isso ou aquilo. Tem pavor de parecer “metida”.
Mas, num momento do papo, a senhora de 75 anos, cabelos grisalhos, elegância nata, soltou um segredo impossível de guardar.
Anda lendo física quântica. E descobriu uma coisa transformadora: a física a consola mais do que a teologia.
— Eu não quero que coloque essas coisas.
É chato. Mas, de verdade mesmo, estou lendo física quântica. Quando iniciei, eu falei: “Gente, mas isso é mais consolador do que a teologia...” Física é a própria poesia — diz, com o sotaque mineiro saltando a cada frase. — As pessoas diziam de mim no começo: “Dona de casa, mãe de cinco filhos, casada com bancário, pão de queijo... Essa mulher escreve?” Mas eu tinha certeza do que estava fazendo. Escrever me deu alegria, consolo, esperança. É o território que me protege, que me dá sentido.
Para chegar ao Rio, o casal enfrentou oito horas de ônibus. Partiu de Divinópolis, no centro-oeste de Minas, uma cidade de 200 mil habitantes, onde Adélia nasceu e sempre viveu. A escritora morre de medo de avião. E, atualmente, só deixa as montanhas quando o caso é sério. A ocasião merecia.
“A duração do dia” foi um processo vagaroso.
Adélia não é o tipo de escritora que tem um método, uma rotina. Não consegue trabalhar todos os dias. Só escreve quando “a coisa vem”. Quando fala da sua escrita, ela invariavelmente usa o verbo “vir”. O livro não “vinha”. De repente, segundo conta, a obra foi se formando, ganhou unidade, corpo e “até um nome”. Aí era hora de publicar.
Adélia só vai lançar no Rio e em Divinópolis.
Não pretende fazer uma turnê rodoviária.
Já fez várias — e até encarou muito avião para lançamentos fora do Brasil.
Ao todo, contabiliza 18 livros (e um prêmio Jabuti): seis de prosa, seis de poesia e seis antologias.
— Acho que ninguém explica a forma como se escreve poesia, né? Acho que há um impulso inicial, interno, sobre algo que se quer dizer, e quer se dizer em forma de poesia.
A partir daí você tenta escrever. Nem sempre você é feliz. Às vezes, o poema não se resolve. Eu não sei falar sobre isso, não — reclama. mdash; Gosto mais de escrever poesia do que prosa. E digo que o objetivo da prosa é a experiência poética. Se não, eu acho, a prosa não sabe a que veio. Toda arte tem uma finalidade só: tocar aquele nervo.
Na prosa, você não narra porque narra. Alguma coisa tem que se mover.
A atriz Cássia Kiss é movida a Adélia Prado.
Na segunda-feira, ela estava lá, no lançamento de “A duração do dia”, fazendo leituras dos poemas. Cássia a conheceu no corpo de Fernanda Montenegro, na peça “Dona doida, um interlúdio”, baseada em textos da autora. A montagem, de 1987, sob a direção de Naum Alves de Souza, arrebentou, com prêmios nacionais e internacionais.
— Fiquei muito impressionada com a beleza da Adélia: simples, religiosa e ao mesmo tempo repleta de questões. Ela é muito distante de qualquer resumo que se possa fazer dela. O que traz na obra é impressionante.
Estou trabalhando há anos em um projeto para teatro baseado na prosa da Adélia. A poesia, a Fernanda já fez maravilhosamente — diz Cássia. mdash; Do novo livro, eu gosto muito. Eu gosto da Adélia. E ponto.
Eu sinto a poesia dela. É preciso ler e reler obsessivamente para se chegar a um pedacinho de Adélia Prado.
Os preciosos escritos atravessaram as montanhas em 1975, muito antes de Fernanda Montenegro descobri-los e projetar a poeta mineira nacionalmente. No dia 9 de outubro daquele ano, Carlos Drummond de Andrade publicou uma crônica no “Jornal do Brasil” chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora. No ano seguinte, o lançamento de “Bagagem”, o primeiro livro, atraiu até o presidente Juscelino Kubitschek. Todo mundo estava lá: Antonio Houaiss, Rachel Jardim, Clarice Lispector, Nélida Piñon... Entre os presentes, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, o crítico da “Veja” que havia apresentado a poesia de Adélia a Drummond.
Affonso Romano tem muitas histórias de Adélia para contar. Numa tarde de 1975, na redação da “Veja”, ele recebeu um pacote com poesias manuscritas, em folhas de caderno, vindas de Divinópolis. Como bom mineiro, foi ler a conterrânea. Após a leitura, ligou para Drummond correndo, cheio de entusiamo.
E, anos depois, também foi ele quem a apresentou a Fernanda Montenegro.
— Ler poesia é como procurar ouro na bateia. Quando li Adélia senti que uma coisa rara tinha acontecido. A linguagem era simples, mas fortemente metafórica. Ela recuperava o telúrico de Guimarães Rosa, o discurso direto de Drummond. E trazia uma voz feminina surpreendente — conta Affonso Romano. — O lançamento de “Bagagem” foi um acontecimento. Lembrome de uma festa para a Adélia na cobertura do Rubem Braga. Ela era, e ainda é, tão simples que pediu autógrafos na festa dela. Hoje, atrai quatro mil pessoas na fila de autógrafos da Flip.
Não por acaso, Affonso Romano e Drummond foram os primeiros a dar atenção à poeta.
Quem conhece o interior de Minas entende essa alma. Ela nasceu numa família de 11 irmãos, filha de um ferroviário.
Perdeu a mãe com 14 anos. Divinópolis, como qualquer cidadela mineira, era aquele pranto de fé, de tradição e de afeto. E Adélia gostava de igreja. Mesmo menina, conseguia ouvir além do discurso doutrinário.
Regozijava-se na beleza da poesia sacra, na liturgia. Aos poucos, diz que foi entendendo as questões existenciais nos ensinamentos de Jesus.
Aos 22 anos anos, casou-se com José, um “partidão do Banco do Brasil, o sonho de toda moça e de todo pai de moça”.
Depois de uma carreira “chinfrim” como professora, cinco filhos e um curso superior de Filosofia, descobriu-se, enfim, escritora, aos 40 anos: — Eu sempre li muito, gostava de ler, a ponto de preocupar a minha madrasta. Ela dizia: “Quando você se casar, eu não sei como vai ser.” A poesia é a face da beleza divina, a pegada de Deus na brutalidade das coisas.

Modos de saber

Modos de saber
Francisco Bosco – O Globo – Segundo Caderno
Budistas eminentes são sábios; estoicos são sábios. Poetas raramente são sábios
Na época em que fiz graduação, tive um professor muito estudioso e brilhante. Algumas pessoas diziam dele que era um erudito, ao que ele reagia com certa irritação: “As pessoas não fazem ideia do que é um erudito!” Essa frase nunca saiu da minha cabeça. Desde então tento pensar o que é um erudito. Vou partir dessa figura para esboçar aqui uma tipologia a delinear diferentes modos de saber: o do erudito, o do sábio, e, faute de mieux, o do inculto.
A etimologia não nos ajuda, pois erudito vem do latim “erudire”, que significa tirar da rudeza, isto é, instruir, formar, aperfeiçoar. A princípio, esses significados se confundem com os dos demais tipos acima referidos.
Recorrerei então a filósofos.
Schoppenhauer não via com bons olhos a figura do erudito, que é, segundo ele, alguém que “leu até ficar estúpido”. O autor de “O mundo como vontade e representação” desconfiava da leitura: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis.” Daí se segue que “aquele que lê muito e quase o dia inteiro (...) perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé”. Seria este o caso do erudito.
Essa concepção de leitura deve ser relativizada.
Não se lê, necessariamente, de modo passivo, deixando-se pensar pelo outro (a rigor, isso nem é possível).
Mas o risco que ela detecta é verdadeiro. Sua perspectiva é corrigida e aprofundada por Nietzsche, que devia conhecer a passagem citada para escrever a seguinte: “O erudito que no fundo não faz senão ‘revirar’ livros — o filólogo uns 200 por dia, em cálculo modesto — acaba por perder totalmente a faculdade de pensar por si.” Nietzsche então retoma a expressão depreciativa de Schoppenhauer, dando a ela uma dimensão fisiológica, como é de seu feitio: “Isso vi com meus olhos: naturezas dotadas, de constituição rica e livre, ‘lidas à ruína’, já aos 30 anos.” Para o autor de “Ecce homo”, a leitura também deve ser vista com desconfiança.
Deve-se tanto saber ler quanto saber não ler: “Nunca refleti sobre problemas que não o são — não me desperdicei.” O problema, portanto, não é da leitura, mas do modo como se a pratica.
Para os dois filósofos evocados, o erudito é uma espécie de leitor estéril, sobrecarregado pelo próprio conhecimento.
De minha parte, entendo haver outro traço distintivo do erudito: ele é aquele que representa o conhecimento como uma totalidade possível, ou que ao menos deseja essa totalidade, mesmo se for consciente do fracasso a que esse desejo está condenado. O erudito é um sujeito que não fez a castração do saber. Ora, mais do que em qualquer tempo, o saber hoje é evidentemente incompleto.
Diz-se que na Antiguidade um leitor que tivesse lido cem livros era considerado um sábio; cem livros é, hoje, o que um intelectual estudioso pode ler num ano — com isso logrando apenas multiplicar sua ignorância.
Daí que o erudito tenha um espírito com certa vocação matemática, exata, classificadora.
O erudito orienta suas leituras por campos de saber, que ele sonha, em vão, dominar, e organiza sua biblioteca por ordem alfabética.
A comédia da erudição, na literatura, é o romance “Bouvard et Pécuchet”, de Flaubert. Os dois personagens são tomados por um espírito erudito de conhecimento, mas, de saber em saber, só acumulam incompletudes, perplexidades e desastres.
Ressalvo que existem, a meu ver, eruditos inventivos, inteligentes. Na literatura, Borges talvez seja um deles.
Já o sábio é mais simples.
Sábio é aquele para quem o saber deve ser necessariamente transitivo — e saudável.
A figura do sábio é indissociável do equilíbrio.
Discordo da famosa frase de Blake: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.” O excesso pode levar, sim, ao saber, mas a um saber que não é sabedoria.
O sábio não é excessivo.
Não sabe mais do que deve para manter seu equilíbrio, sua saúde.
A sabedoria está ligada a uma técnica existencial de controle do desejo, evitando os sofrimentos dele decorrentes. Budistas eminentes são sábios; estoicos são sábios. Poetas raramente são sábios.
Há, por fim, o que chamei, imperfeitamente, de modo do inculto. Deleuze confessava assustar-se com pessoas cultas: “Eles sabem tudo, sabem a História da Itália, da Renascença, sabem geografia do Polo Norte. (...) É assustador.” Dizia, de si próprio, não ser culto, por não ter “saber de reserva”.
Quando ele queria saber alguma coisa, estudava ad hoc, e depois de escrever esquecia.
Isto é, não cultivava conhecimento. Só lhe restava um saber por dentro, um saber de cor, como seu saber de Espinoza: “Pois Espinoza está no meu coração, não o esqueço, é meu coração, não minha cabeça.” Identifico-me com a postura de Deleuze. Tenho pouco saber de reserva; interesso-me mais por questões do que por autores; estudo apenas o suficiente para me propiciar uma compreensão do que estou buscando; não tenho nem sequer um território discursivo (não posso me dizer professor de Teoria da Literatura ou de uma literatura qualquer, por exemplo), sendo uma espécie de nômade indisciplinado, mais do que transdisciplinar.
Como Deleuze, também só sei o que sei de cor, o que entrou na minha vida de modo a me orientar cotidianamente nas minhas escolhas morais, intelectuais e existenciais. Essencialmente, um inculto.

Skoob

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