segunda-feira, maio 24, 2010
O sequestro das liberdades
O sequestro das liberdades
DENIS LERRER ROSENFIELD
A liberdade é conquistada a duras penas. Sua perda pode ser relativamente rápida, mesmo imperceptível. Lutas políticas e civis se estruturam segundo suas diferentes acepções, que terminam por ser bandeiras que, com dificuldades, são levadas adiante. Frequentemente, essas diferentes acepções são objetos de disputas acirradas, podendo, inclusive, perverter a essência mesma do que seja a liberdade.
A liberdade é dita diferentemente, segundo os interlocutores, os contextos e as definições. A rigor, caberia falar de liberdades, onde entram em linha de consideração a liberdade de empreender, a liberdade de escolha, a liberdade de pensamento e expressão, a liberdade da pesquisa científica, a liberdade de ir e vir, a liberdade de organização sindical e política, a liberdade religiosa e a liberdade de escolha dos dirigentes e representantes políticos.
A questão, porém, reside em que pode ocorrer um sequestro progressivo de certas acepções, outras permanecendo aparentemente intactas, até que um outro sequestro reduza ainda mais o seu espectro. Tomemos a liberdade de imprensa e de expressão. O "Estadão", pasmem, continua sob censura, configurando uma situação "normal", como se essa "anormalidade" fosse minimamente aceitável. O governo recuou, diante da pressão dos meios de comunicação, das medidas mais liberticidas de seu Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) em relação à imprensa e à mídia. Para esse setor empresarial, as coisas aparentemente voltaram ao normal.
O problema, contudo, consiste em que se trata de uma simples aparência, pois sob a cobertura eufemística de "direitos humanos", outras medidas atentatórias às liberdades continuam constando de seus outros 500 itens e propostas. Pense-se, por exemplo, nos ditos "conselhos ambientais", que deveriam ser necessariamente consultados para a criação e a ampliação de uma empresa em geral, siderúrgica, de construção, de mineração, entre outras. Trata-se, sob a cobertura do politicamente correto, de propor a criação de "conselhos sindicais", "sovietes", para utilizar a linguagem russa, que passariam a ter ingerência na vida mesma das empresas, cerceando a liberdade de empreender.
A confusão de acepções chega a ser de tal monta que o próprio sentido da democracia é deturpado em função de um linguajar baseado numa doutrina "superior" dos direitos humanos. Assim, a democracia representativa se torna a bola da vez, com propostas de sua substituição progressiva pela democracia dita participativa. A linguagem utilizada é a da busca de uma sociedade mais justa e solidária. No entanto, quando vem à tona o significado dessas novas palavras, surgem as verdadeiras definições, como se a verdadeira sociedade justa e solidária fosse a que nasceria da destruição do capitalismo, definido como fonte de todos os males. Mais concretamente, a sociedade "justa e solidária" vem a ser identificada às propostas comunistas e socialistas dos irmãos Castro e de Hugo Chávez. Este último chegou, inclusive, a ser defendido por nossos governantes como um verdadeiro democrata. Liberticidas são apresentados como libertários.
Há, também, toda uma campanha em curso que defende uma maior ingerência do Estado na vida dos cidadãos, cerceando a sua liberdade de escolha. Aqui, o sequestro da liberdade é dito ser feito em nome da saúde do cidadão, como se esse fosse incapaz de discriminar por si mesmo aquilo que lhe convém ou não. O prazer, em particular, faz parte da escolha individual, não devendo o Estado ingerir em um domínio que deveria estar ao abrigo de qualquer intervenção externa. O ato de regular os direitos individuais a partir dos direitos dos outros não pode ser confundido com uma ação administrativa estatal que se apresenta como a representação da virtude. O que não cabe é o indivíduo simplesmente receber uma imposição, dita do "bem", do que deveria lhe convir. A própria noção de prazer, isto cada um sabe de sua própria experiência de vida, tem os mais diferentes significados, podendo estar associada também à dor. Já Freud tinha concebido a indissociabilidade entre as pulsões de vida e morte. Cada um tem o direito de escolha de seu próprio corpo, de suas formas de expressão e de satisfação.
A liberdade de expressão e de empreender é vista igualmente com desconfiança a propósito da publicidade, como se essa atividade devesse ser cada vez mais controlada, retirando de sua alçada uma série de produtos considerada como "nociva". Segundo essa concepção, é o Estado que determinaria aquilo que seria tido por nocivo ou não para os cidadãos. A questão é de monta por estar baseada na confusão entre "influenciar" e "determinar". A rigor, a publicidade "influencia" o cidadão, não retirando a este sua capacidade de livre escolha. Pelo contrário, a pressupõe. Posso comprar ou não um produto que me é apresentado publicitariamente. Daí não se segue que o cidadão seja completamente determinado, como se fosse um robô manipulável, desprovido de livre arbítrio.
Causa espanto também que propostas ditas inovadoras de um "Brasil do século XXI" estejam baseadas em posições retrógradas, avessas à liberdade de conhecimento e de pesquisa. Fala-se um pouco menos, nesse período eleitoral, dos enormes problemas enfrentados pela CTNBio a propósito da pesquisa com transgênicos e da liberalização de sua comercialização. Até ainda recentemente, o dito "princípio da precaução" era identificado ao "princípio do imobilismo", na verdade, ao princípio de restrição da própria pesquisa científica. A liberdade de pesquisa foi conquistada após longos esforços que perpassaram vários séculos, tornando as universidades lugares de realização das liberdades. Algumas ditas "novidades" são, agora, apresentadas como se estivéssemos diante de uma nova postura diante do mundo, quando são propostas de volta a um mundo anterior à conquista dessas liberdades.
DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Fascismo de esquerda
Fascismo de esquerda
Pablo da Silveira, O Globo, 23/05/10
Uma das características do fascismo foi a sua capacidade de subverter os métodos tradicionais da esquerda. Benito Mussolini, que conhecia esses métodos porque era o líder do Partido Socialista italiano, foi capaz de usá-los para perseguir novas metas. O protesto de rua, que tinha sido um mecanismo de protesto nas mãos daqueles que não tinham poder político ou econômico, tornou-se uma arma de intimidação nas mãos de um regime político autoritário. A imprensa partidária, que tinha sido o veículo de expressão de quem acessou o aparelho do Estado, tornou-se um instrumento para intimidar e promover ataques a adversários do governo.
Nos últimos tempos, essas práticas infelizes foram transplantadas para vários países latino-americanos. Venezuela e Argentina são os exemplos mais notórios. Nesses países e em outros lugares, a ofensiva do “hooliganismo”, da torcida organizada, tornou-se prática cotidiana. Alguns dos sinais mais visíveis são manifestações supostamente espontâneas contra organismos ou figuras da oposição, com uso da mídia para difundir insultos e ameaças.
Até poucos dias, aqui no Uruguai pensávamos que nada semelhante poderia ocorrer. Mas essa certeza caiu por terra, recentemente, quando várias dezenas de estudantes invadiram a sala onde o reitor da Universidade da República se reunia com um grupo de empresários, sindicalistas e políticos, para insultar vários dos presentes. Isso ocorreu poucos dias após várias invasões na Feira do Livro de Buenos Aires, quando militantes governistas interromperam palestras e apresentações de livros. Essas práticas têm se tornado rotina na Universidade de Buenos Aires.
No melhor estilo do fascismo, os que cometem estes abusos estão minando um método justificado e legítimo protesto. União, mobilização e gritos de slogans sempre foi uma maneira de dar voz àqueles que não tinham. Mas, agora, passou a ser usada para intimidar e impedir que outras pessoas falem. Não se trata de liberdade de expressão, mas sim de impedir seu exercício. Em síntese, é fascismo de esquerda.
Será que estamos na presença de um evento que marca uma nova tendência? A forma como as coisas ocorreram simultaneamente, no Uruguai e na Argentina, fornece razões para ter esperança e desânimo. A esperança é encorajada pela reação das lideranças que imediatamente condenaram os incidentes. O desânimo é alimentado por atitudes como a do reitor uruguaio, que justificou a sua própria falta de reação dizendo que não queria atuar como árbitro da situação.
Impedir um ultraje, especialmente quando no alvo estão aqueles a quem convidamos para a nossa casa, nada tem a ver com estar obcecado pelos regulamentos. É apenas um gesto de civilização.
PABLO DA SILVEIRA é cientista político. © El País (Uruguai)
Aposentado reclama no CNJ de erro de juiz
RÁPIDO E ERRADO
Aposentado reclama no CNJ de erro de juiz
POR MARIANA GHIRELLO
A eficiência do bloqueio de contas bancárias online, pelo Bacen-Jud, ninguém discute. Mas, erros podem acontecer e prejudicar pessoas que não deveriam ter seu dinheiro bloqueado. Foi o que aconteceu com o embaixador aposentadoMárcio de Oliveira Dias que de uma hora para outra teve suas contas bloqueadas por um juiz do trabalho de São Paulo. “Eu fiquei quase dez dias sobrevivendo com a ajuda dos amigos e da família”, relata.
Em março deste ano, ao tentar sacar dinheiro, Oliveira Dias descobriu que suas contas haviam sido bloqueadas por determinação do juiz Lúcio Pereira de Souza, da 2ª Vara do Trabalho de São Paulo. Inconformado, Oliveira procurou o banco. Foi informado que o bloqueio fora feito pelo Bacen-Jud. Só conseguiu desbloquear a conta depois de contratar um advogado, que reverteu o erro na Justiça.
Oliveira Dias não sabe como o nome dele foi parar em um processo trabalhista da Dataprev, empresa pública federal que presidiu por três meses, em 2002. Além dos transtornos domésticos e pessoais, o equívoco lhe custou R$ 9 mil em custas judiciais e honorários pagos ao advogado. Oliveira reclama que nem sua conta-salário escapou do bloqueio. “Esse tipo de ferramenta não deveria ficar disponível desse jeito”, diz.
Inconformado com o ocorrido, Oliveira decidiu pedir providências ao Conselho Nacional de Justiça.
Para o CNJ, como o juiz constatou que Oliveira Dias não poderia ser polo passivo do processo e as contas já tinham sido desbloqueadas, não havia nenhuma providência a ser tomada. "Não restou evidenciado indício da prática de infração disciplinar ou ilícito penal a ensejar a intervenção desta corregedoria", afirmou o juiz auxiliar da Corregedoria nacional de Justiça, Ricardo Cunha Chimenti, em seu despacho.
Oliveira Dias preferiu interpelar o juiz que o prejudicou no CNJ, que não tem competência para rever decisões judiciais, por entender que uma ação na Justiça não teria chances de prosperar. “É difícil, o corporativismo é grande”, lamenta.
O juiz do trabalho foi procurado pela reportagem da ConJur mas, através da Assessoria de Imprensa do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo informou que o caso está encerrado e que não se manifestaria.
GREVES ELEIÇOEIRAS
GREVES ELEIÇOEIRAS
EDITORIAL - O ESTADO DE S. PAULO - 23/5/2010
Como ocorre em todos os anos eleitorais, algumas corporações do funcionalismo público tentam aproveitar a ocasião para obter aumentos salariais e vantagens funcionais. A estratégia é sempre a mesma - suspender serviços essenciais, criar situações de fato, converter a população em refém de interesses corporativos e constranger governantes para que acatem, sob pressão, reivindicações que podem até ser irrealistas ou absurdas.
Esse tipo de oportunismo pode ser visto tanto no Poder Executivo quanto no Poder Judiciário. Na última quarta-feira, por exemplo, escrivães, papiloscopistas e agentes da Polícia Federal (PF) - cujos salários vão de R$ 7.514,33 a R$ 11.879,08 - fizeram uma greve relâmpago de 24 horas e promoveram operações-padrão nos principais aeroportos do País. A justificativa foi pressionar o governo a promover uma "reestruturação da carreira" e o Congresso a aprovar uma lei orgânica para a PF. Os grevistas alegam que tiveram aumentos de "apenas" 83,3%, durante os dois mandatos do presidente Lula, enquanto outras carreiras do Poder Executivo foram agraciadas com reajustes salariais que variaram de 140% a 552,8%.
Manifestações semelhantes também estão ocorrendo nas Justiças Federal e do Trabalho, o que obrigou as corregedorias judiciais a exigir que os grevistas mantenham em funcionamento a distribuição e o protocolo dos processos, as centrais de mandados para casos urgentes e os serviços de expedição de alvarás, desbloqueio de contas correntes, atendimento de liminares e tutela antecipada e de protocolo de petições urgentes e emissões de certidões. Os corregedores lembram que, há três anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) firmou jurisprudência reconhecendo o direito de greve dos servidores públicos, mas com a condição de que os chamados serviços de "cunho social" - como assistência médico-hospitalar, transporte coletivo, tratamento de esgoto e controle do tráfego aéreo - não sejam interrompidos. Na ocasião, a Corte também decidiu que, enquanto o Congresso não aprovar uma lei complementar que regulamente a greve na administração direta, como prevê o inciso VII do artigo 37 da Constituição, as paralisias do funcionalismo público serão regidas pela Lei n.º 7.783/89, que disciplina a greve na iniciativa privada.
A ameaça de greve mais irresponsável, feita na semana passada, a menos de cinco meses das eleições para o preenchimento de cargos federais e estaduais, partiu dos servidores da Justiça Eleitoral. Além de reajustes salariais, eles reivindicam a imediata aprovação, pelo Legislativo, de um novo plano de carreiras no âmbito do Poder Judiciário. Os servidores da instituição alegam que os salários iniciais estão abaixo do vencimento básico de carreiras dos outros Poderes. O projeto foi enviado para o Congresso há cinco meses e o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, já deixou claro que a União não dispõe de recursos para arcar com os aumentos salariais por ele previstos e que não cederá a pressões corporativas do funcionalismo dos Três Poderes. A ameaça de greve pegou de surpresa o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Ricardo Lewandowski, que assumiu o cargo há um mês. Segundo ele, a paralisia dos servidores judiciais seria flagrantemente ilegal e poderia comprometer a campanha eleitoral. "A Justiça eleitoral é um serviço essencialíssimo. Se houver greve, os grevistas vão punir a cidadania, não o Poder Judiciário", disse ele, depois de lembrar que não admitirá "nenhum prejuízo" às eleições de outubro.
Algumas das categorias que estão tentando aproveitar as eleições para deflagrar greves são corporações de Estado. Ou seja, são servidores que, além de já receberem um tratamento salarial e funcional diferenciado, atuam em áreas estratégicas cujas atividades não podem ser suspensas sob qualquer pretexto. Isso foi lembrado de modo exemplar na semana passada pelo Superior Tribunal de Justiça, quando ordenou aos servidores do Ibama o imediato retorno ao trabalho, determinou o desconto dos dias parados e fixou uma multa de R$ 100 mil, caso descumprissem a decisão.
Chhatrapati Shivaji da Estação de Comboios, Mumbai Fotografia por Lal Aji
Mumbai - Chhatrapati Shivaji estação de trem, anteriormente a Victoria Terminus, é notável por sua mistura de tradicional indiana e arquitetura vitoriana neogótico, possui torres, arcos pontiagudos e uma planta que se assemelha a um palácio indiano.
domingo, maio 23, 2010
Economia brasileira pode estar 'voando alto demais', diz 'Economist'
Economia brasileira pode estar 'voando alto demais', diz 'Economist'
BBC Brasil
A revista britânica The Economistalertou em um artigo na edição desta semana que o nível de crescimento da economia brasileira pode se tornar insustentável.
Para a publicação, o fato de a economia brasileira pode estar crescendo em uma velocidade comparada ao crescimento chinês é um problema, pois "o Brasil não é a China".
"Pelo fato de (o Brasil) economizar e investir pouco, a maioria dos economistas acredita que a velocidade de crescimento deve ser limitada a 5% no máximo, para não entrar em colapso", diz a revista.
A Economist afirma que o problema, segundo os críticos, é que grande parte dos gastos adicionais do governo está se transformando em gasto permanente, e a economia está começando a "ficar parecida com um carro com o acelerador preso ao chão".
Segundo o artigo, as autoridades estão começando a se preocupar. No mês de abril o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu elevar a taxa básica de juros, a Selic, em 0,75 ponto percentual, o primeiro aumento em quase dois anos, que fez com que os juros no país cheguem a 9,5% por ano.
Críticos do governo afirmam que a política fiscal frouxa faz com que a tarefa do Banco Central seja ainda mais difícil, aumentando o risco de que este crescimento acabe no próximo ano, com uma desaceleração acentuada.
Segundo a The Economist, as autoridades também tem esta preocupação.
O artigo diz que governo acabou com quase todas as isenções de impostos que tinha introduzido durante a recessão.
"No dia 13 de maio os ministros declararam que iriam cortar R$ 10 bilhões dos custos do governo federal em 2010. (...) Mas isto não significa pisar no freio. Os cortes são em um generoso orçamento aprovado pelo Congresso", afirma o artigo.
A The Economist cita o secretário de Política Econômica da Fazenda, Nelson Barbosa, ao afirmar que mesmo se o corte for implementado em sua totalidade, ele vai apenas diminuir a taxa de crescimento nos gastos do governo, mantendo-o constante ou um pouco menor como uma fatia do PIB (Produto Interno Bruto).
O genoma político
O genoma político
Ana Dubeux - Correio Braziliense - 23/05/2010
O Senado criou uma versão light, embora indigesta, do Projeto Ficha Limpa. Numa espécie de manobra semântica, semeou uma polêmica ridícula, lançando dúvidas sobre uma proposta de intenções claríssimas: filtrar a política, retirar dela os vícios e torná-la mais palatável perante a opinião pública. A vontade era tanta de aprovar a proposta, para não dizer o contrário, que o espírito de corpo lançou mão da palavra escrita para calar a cidadania. Incrível: parece mais fácil a ciência criar a vida do que os políticos tomarem vergonha na cara. Um dia, quem sabe, conseguirão sintetizar numa cápsula sentimentos nobres, como a ética, a justiça social, a gentileza, a solidariedade.
Mas, enquanto não inventam a tal reposição de valores ou recriam em laboratório um genoma político que exclua o corporativismo e possa ser replicado, as ações do Legislativo e dos outros poderes devem ser convites à reflexão, sobretudo neste período pré-eleitoral. O momento de ir às urnas já não é mais o de acreditar, nem de cobrar, é a hora da colheita. Ouvir os discursos com promessas para o futuro é quase um castigo para quem quer ver o presente ser blindado sempre — boas ações são reservadas para tempos distantes, longuínquos. A única coisa que de fato pode nos redimir é analisar o passado: quem é essa pessoa, quem ela já foi, o que já fez e o que deixou de fazer. Dessa forma, podemos ver se ela é coerente, consistente e, sobretudo, honesta. Será muito isso?
Brasília passou recentemente — e ainda sofre os efeitos disso — por uma situação de humilhação e de constrangimento. As denúncias de corrupção e de saque aos cofres públicos reverberaram na autoestima da capital às vésperas de seus 50 anos. Tornaram-se atalho poderoso ao preconceito do qual a cidade já é vítima desde a sua gênese. É curioso, então, assistir a políticos que já deixaram a cidade à deriva virarem paladinos da Justiça. Também é inusitado ver pessoas acusadas arguirem direitos que não têm. Como não podemos desconsiderar que as más intenções estão impregnadas de um vetor chamado densidade eleitoral, temos que trabalhar, cada um fazendo a sua parte, por uma varredura total e irrestrita, sem perdão nem voto. Estou em litígio com a canalhice. Não importa o tempo verbal, se passado ou futuro. No que depender de mim, em outubro, Brasília terá ficha limpa.
"Produzir vida do zero é desnecessário"
"Produzir vida do zero é desnecessário"
Para cientista da Unicamp, anúncio da criação do primeiro organismo sintético nos EUA teve muito marketing - Tática mais promissora consiste em ensinar truque novo a micróbio velho; biodiversidade do Brasil pode ajudar
REINALDO JOSÉ LOPES ENVIADO ESPECIAL A CAMPINAS
O geneticista americano Craig Venter causou estardalhaço, na última quinta-feira, ao apresentar o que pode ser considerada a primeira célula sintética de bactéria. "É uma notícia ótima para impressionar investidor", brinca Gonçalo Pereira, da Unicamp, sobre o trabalho.
"Mas não é criação de vida, e há muito marketing aí", afirma Pereira. "O DNA foi introduzido em uma "sopa" pré-formada ["cascas" de bactérias, despidas de seu DNA]. Essa sopa é que é difícil de construir sinteticamente."
O que gente como Pereira chama de biologia sintética não é montar um organismo a partir do zero com matérias-primas nunca vistas antes. O objetivo, mais modesto, é recombinar de formas criativas os materiais que já existem nos seres vivos.
TOME ISTO, VENTER!
Uma das críticas feitas à abordagem de Craig Venter e de sua empresa, a Synthetic Genomics, é justamente esta: a abordagem tradicional, de ensinar truques novos a micróbios velhos, tem avançado bastante e pode dar mais resultado do que a criação de micróbios novos.
"No fundo, o que você quer é tirar a vontade própria desse organismo", explica o pesquisador da Unicamp.
Isso é obtido por meio da transgenia, a boa e já velha inserção de genes novos em organismos. Mas uma transgenia especial: em vez de um gene estranho, são inseridos dezenas, para mudar não apenas um produto (uma proteína, por exemplo), mas para alterar a própria função daquele organismo.
Com a nova tecnologia, a criatura vira uma máquina a serviço de seus mestres humanos. "Essa talvez seja a melhor definição de vida sintética", continua Pereira.
Na busca por um sistema biológico produtor de plástico, a equipe da Unicamp está tentando manter as opções abertas. Há três tipos de organismos candidatos: leveduras, bactérias e plantas.
BARZINHO X EMPRESA
Os desafios de fazer biológica sintética com cada uma dessas "plataformas", como o cientista as chama, é diferente. "O microrganismo é como um dono de barzinho, que tem de fazer tudo, de servir as bebidas a receber no caixa. Ele se vira, embora não faça nada disso bem."
Já o organismo de muitas células é uma empresa multinacional, compara: altamente eficiente, com muitas partes especializadas. "É mais difícil mexer em organismos multicelulares, mais coisas podem dar errado", afirma.
A chave para o sucesso, diz o cientista, é saber combinar os melhores genes com o melhor reator, ou seja, o organismo mais propício a gerar o produto codificado nos genes em grande quantidade e com baixo custo. "A biodiversidade brasileira pode nos dar esses biorreatores."
Até agora, as tentativas de fazer plástico bacteriano tomaram justamente partido desse princípio. "Algumas bactérias já produzem plástico. Um exemplo é o PHB, ou polihidroxibutirato", diz.
"Uma empresa chamada Metabolix pegou os genes do PHB e jogou numa outra bactéria, que é boa de ser produzida na indústria", conta, mostrando uma caneta feita com PHB. O problema é que o PHB é instável. "Se eu deixar com você, daqui a um ano você vai ver o que acontece."
O Brasil e sua biodiversidade
O Brasil e sua biodiversidade
ALAN CHARLTON - Folha de São Paulo
O maior desafio no Brasil é o gerenciamento sustentável do uso da terra, o que inclui também a sustentabilidade do setor agrícola nacional
O Brasil está emergindo no cenário global e pode ser mais que uma potência convencional. Ele abriga um quinto de todas as espécies conhecidas e dois terços das florestas tropicais existentes. Essa rica variedade de plantas e animais, ou a biodiversidade, pode fazer do Brasil uma potência verde.
O que é essa tal de biodiversidade? Em poucas palavras, é a vida que nos rodeia, de organismos que fertilizam o solo a florestas que fornecem chuva para regar culturas agrícolas. Essa complexa rede de vida nos nutre, nos veste e provê a base para nossas economias. Somos totalmente dependentes dela.
A biodiversidade está em risco. O mundo não conseguirá atingir a meta global de conter a perda de biodiversidade até 2010.
Continuamos a perder espécies a taxas nunca antes vistas. Se formos reverter essa tendência, precisamos trabalhar contra os vetores de perda e transversalizar o tema em políticas públicas.
Muitas pessoas estão trabalhando para transformar esses desafios em oportunidades.
Em recente visita ao Acre, vi como o Estado busca integrar crescimento econômico, proteção do meio ambiente e inclusão social.
Vi a fábrica de preservativos feitos do látex de seringueiros locais, a produção de pisos e telhas com madeira certificada e projetos de geração de renda por meio da produção de castanhas e frutas -tudo sem desmatar ilegalmente.
Devemos continuar o trabalho para proteger a biodiversidade e os ecossistemas: fortalecer as áreas protegidas, avaliar a contribuição delas para nossas economias e apoiar pesquisa científica para entender melhor como conservá-los.
A preservação da biodiversidade e a estabilidade do clima são intrinsecamente ligadas, especialmente no Brasil. O chamado mecanismo de redução de emissões por desmatamento e degradação (REDD) poderá evitar emissões e ao mesmo tempo conservar a biodiversidade e reduzir a pobreza de pessoas que dependem diretamente das florestas para sua sobrevivência.
O maior desafio no Brasil é o gerenciamento sustentável do uso da terra, o que inclui a sustentabilidade do setor agrícola. Pesquisas de ponta da Embrapa e técnicas como o plantio direto prometem fortalecer a produção agrícola e promover ganhos ambientais.
O desafio será fazê-lo ao mesmo tempo em que se protegem a Amazônia e o cerrado.
Vinte e dois de maio foi o Dia, e 2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade. Datas importantes para que reflitamos sobre o valor que atribuímos aos frágeis ecossistemas da Terra. Eles estão sob ameaça. Ao ameaçá-los, estamos colocando em risco nosso bem-estar e nossa prosperidade.
Em outubro, no Japão, haverá a décima reunião da Convenção sobre Diversidade Biológica.
O Reino Unido espera que cheguemos a um acordo quanto a uma nova meta global de redução da perda de biodiversidade e ao estabelecimento de um regime internacional sobre acesso à biodiversidade e repartição dos benefícios que dela derivam.
Esperamos poder continuar trabalhando com o Brasil para assegurar a conservação e o uso sustentável da biodiversidade global.
ALAN CHARLTON é embaixador do Reino Unido no Brasil.
Friedrich Nietzsche
"Não é a força, mas a constância dos bons sentimentos
que conduz os homens à felicidade."
Friedrich Nietzsche
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken, localidade próxima a Leipzig. Leia a biografia completa aqui: http://www.mundodosfilosofos.com.br/nietzsche.htm
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