terça-feira, setembro 28, 2010

O corte inglês

O corte inglês
Miriam Leitão – O Globo
 Ed Miliband, o novo líder do trabalhismo inglês eleito nesse fim de semana, depois de árdua luta com outros três competidores, fez um discurso marcante. Admitiu que o partido tinha errado, reconheceu o trabalho dos antigos líderes, mas disse que, a partir daquele momento, uma nova geração estava assumindo o poder no partido e virando uma página.
Foi inevitável pensar no retrocesso político brasileiro, em que o único partido de massas aceitou, sem qualquer sinal de desconforto, que o presidente Lula impusesse uma candidata de sua escolha autocrática. O PT foi o partido brasileiro que se organizou desde as bases. Ele perdeu a bandeira ética quando não reagiu a escândalos, como o do mensalão, e aderiu ao caciquismo neste fim do governo Lula.
— Essa eleição vira uma página, porque uma nova geração dá um passo adiante para servir o nosso partido e, eu espero, que para servir o país. Hoje, o trabalho da nova geração começa — disse Ed Miliband.
Ed é jovem, representou uma facção à esquerda do Partido Trabalhista, é ambientalista e foi um excelente ministro da Energia e Mudanças Climáticas. Disputou com quatro eleições internas e, na última, enfrentou seu próprio irmão, David, que havia sido ministro do Exterior de Gordon Brown. Os dois são filhos de um sociólogo, professor universitário.
Eu entrevistei os dois Miliband em situações diferentes.
Ed é mais carismático, mais simpático, mais antenado com os desafios do século XXI. Quando veio ao Brasil, foi ao Xingu ouvir índios, madeireiros, sobrevoou áreas desmatadas na Amazônia, debateu com ambientalistas e, na entrevista que me concedeu, falou, sem preconceitos, das chances e desafios do Brasil que ele tinha conseguido perceber durante sua visita.
Já David, com quem conversei no Foreign Office, me pareceu mais burocrático que Ed e, na questão climática, alinhado demais à posição americana.
O que a Inglaterra tem agora é um momento único: nos três partidos há lideranças jovens e, no governo, uma situação nova. Líderes de cerca de 40 anos estão chefiando os três partidos.
David Cameron, primeiroministro, e Nick Clegg, vice-primeiro-ministro, vivem uma situação rara, uma coalizão. Cameron e Clegg construíram a coalizão com base numa carta de programa de governo em que cada um cedeu um pouco.
O Partido Conservador teve de aceitar a exigência dos liberais democratas de propor uma reforma política que dê mais chance de representação ao terceiro partido, que é prejudicado pelo sistema distrital.
Depois de 13 anos no poder, o Partido Trabalhista foi derrotado, precisava se reorganizar e, por isso, passou por um tempo de debate interno e eleições para a nova liderança. Como o país é parlamentarista, ser líder é ser candidato a primeiroministro.
Guardadas as diferenças, o fato é que nos três partidos ingleses houve um processo de renovação de lideranças. O Partido Trabalhista que governou o país por 13 anos e perdeu as eleições foi o último a fazer essa renovação e completou nesse fim de semana.
— Nós perdemos a eleição e perdemos feio. Minha mensagem ao país é: nós sabemos que perdemos confiança. Eu sei que precisamos mudar. A nova geração que assumiu o partido entende o coração das mudanças. Eu quero mostrar que nós sabemos que temos de mudar. Eu tenho de unificar o partido, mas há uma coisa que precisamos: inspirar as pessoas com a nossa visão — disse Ed Miliband no seu discurso.
Foi impossível não pensar no PSDB que, ao perder as eleições, nunca fez uma análise sincera dos erros, nunca unificou o país, deixou que lideranças se digladiassem em surdina. Primeiro, José Serra e Geraldo Alckmin em 2006; depois, Serra e Aécio Neves em 2010. Não houve disputa aberta que mobilizasse a militância. De novo, foi um acordo intramuros por um grupo reduzido que cabe numa mesa de restaurante.
Não houve avaliação dos erros nem a consciência de que é preciso inspirar o país, oferecendo um projeto.
A Inglaterra, como todos os países atingidos pela crise bancária de 2008, está às voltas com um enorme déficit público e uma dívida alta. Cameron está cortando os gastos, mas uma das estratégias é a de ter uma meta de redução do déficit de longo prazo para a qual convergir ano a ano. Uma proposta de ir reduzindo ano a ano até zerar o déficit no Brasil, feita em 2005, pelo então ministro Antonio Palocci, foi considerada “rudimentar” pela então ministra Dilma Rousseff.
— Acredito que precisamos reduzir o déficit, mas temos de recriar a capacidade de a economia funcionar e gerar emprego. A Inglaterra é muito desigual, e a desigualdade fere não apenas os pobres, fere a todos — disse Ed, defendendo a proposta social-democrata dos trabalhistas e tentando agradar os sindicatos que o apoiaram.
A Inglaterra tem pilhas de problemas, mas tenta se refazer renovando as lideranças políticas nos três partidos.
Aqui, nos quatro principais partidos — PT, PSDB, PMDB e DEM — não há sinais de renovação. No PT, há um perigoso retrocesso.
Ele está ficando cada vez mais parecido com o vetusto partido peronista da Argentina dos anos 1950.

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