sábado, outubro 09, 2010

Um amor antigo

Um amor antigo
Cacá Diegues – O Globo
Neste inesperado início de outono primaveril, ensolarado e doce, chego a Paris, vindo de Biarritz e Lyon, e encontro uma imprensa cheia de notícias sobre o Brasil. Umas são boas, outras deixam a desejar. Reajo a essas como o herói de “O estrangeiro”, de Albert Camus, que, apanhado de surpresa com o anúncio da morte da mãe que não vê há algum tempo, reage com um sentimento difuso de culpa: “C’est pas de ma faute (“Não é culpa minha”).” Em compensação, os jornais anunciam com entusiasmo o prêmio de público de “5XFavela, agora por nós mesmos” no festival de Biarritz; os analistas de economia elogiam o ministro Guido Mantega por sua posição corajosa a favor da valorização da moeda chinesa; Bernardo Carvalho recebe de “Libération” uma crítica muito elogiosa a seu romance “Ta mère”; “Le Monde” estampa na primeira página uma caricatura de Lula a dançar satisfeito com sua candidata, enquanto Sarkozy observa o casal, com vergonha e lágrimas nos olhos, e nós podemos ler, sob os primeiros, a legenda que diz “somente 4% dos brasileiros estão descontentes com o presidente Lula” e, sob o marido de Carla Bruni, “72% dos franceses descontentes com Sarko”.
Nenhuma rádio, canal de televisão ou publicação impressa perdeu a oportunidade das eleições brasileiras para fazer um balanço do que acontece hoje em nosso país. Alguns desses veículos publicaram edições especiais, como fizeram “Le Monde”, “Courrier International” e outros, com farto material sobre sociedade, política, economia e cultura brasileiras.
Desta vez, não se falou em carnaval, nem em futebol. Na maior parte dos casos, as matérias se concentram na ideia de que o Brasil está acabando com sua secular miséria, embora ainda seja um país pouco igualitário.
Entre a frota de helicópteros sob o céu de São Paulo e a violência nas favelas cariocas, flutua intacto o prestígio mágico de Lula.
O caso de amor entre o Brasil e a França é bem antigo. Antes da hegemonia de nosso americanismo, a partir do pós-guerra, nossas elites sonhavam com Paris como um Olimpo holístico.
Nossos ricos proprietários para lá se dirigiam em suas férias familiares e nossos melhores intelectuais, já que nem sempre podiam fazer o mesmo, voltavam seus olhos e seu imaginário para o que julgavam ser o centro da inteligência e do conhecimento humanos. A recíproca também sempre foi verdadeira, embora os sonhos não fossem os mesmos.
Para os franceses em geral, o Brasil sempre foi um espaço de férias selvagens.
Mas, para os mais requintados, sempre fomos, desde o filósofo JeanJacques Rousseau (que nos pensou) ou o pintor-viajante Jean-Baptiste Debret (que nos registrou), aquilo que eles deixaram de ser quando perderam a inocência em nome da razão.
Não foi à toa ter sido a França, com seus cineastas e críticos, artistas e intelectuais, a descobrir e espalhar, para o resto do mundo, o valor do Cinema Novo brasileiro e, depois, o do Tropicalismo, mesmo tendo sido igualmente responsável pela utopia naïve de “Orfeu Negro”.
Hoje, quando a opinião pública local julga a França decadente, a Europa em grave crise e o mundo à beira do desastre, o Brasil surge para ela como uma nova esperança de alguma coisa que não conhece, mas presume existir. E, para garantir a vigência concreta desse sonho, somam, às estatísticas positivas que possuem sobre nós, o impressionante carisma de um presidente que nos devolveu, a nós mesmos e ao mundo, o valor simbólico do país, perdido desde a ditadura militar.
No dia seguinte ao que cheguei em Paris, fui convidado a dar uma entrevista na rádio France Inter, um talk show semanal. Aceitei na expectativa de que, na hipótese mais exigente, iria falar sobre esse fértil momento do cinema brasileiro. Mas o que a jornalista queria de nós (além de mim, o programa convidara também o fotógrafo Sebastião Salgado e a pesquisadora Dominique Dreyfuss), era mesmo nossa opinião sobre a ascensão do país a potência mundial, um país de moeda cada vez mais forte, com impressionante reserva de petróleo recentemente descoberta e uma classe média crescente, num futuro sem miséria. Mais que tudo, queria saber o que seria de nós sem Lula, o mágico milagreiro que nos levara a tanto e agora se despede.
Tenho a impressão de que causamos um certo aborrecimento à jornalista e a seus produtores quando confirmamos que o Brasil vive de fato um momento excepcional de sua história, mas que ainda há muito a fazer.
Para isso, contamos com nossa reserva de pré-sal e tudo mais. Mas contamos sobretudo com nossa imensa reserva de energia e alegria, que espero comecemos a usar logo.
CACÁ DIEGUES é cineasta. E-mail: carlosdiegues@uol.com.br

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